Euler de França Belém
Euler de França Belém

Expectativa é que CNN puxe telejornalismo pra “cima” e não pra “baixo”. Será bom pra Globo

Chegada da nova rede pode contribuir para fortalecer e ampliar a qualidade do jornalismo da TV Globo e de outras redes, tornando-as mais críticas do poder

Como a tevê aberta ficou mais para o povão, a tendência de algumas redes e emissoras é piorar a programação para manter ou ampliar a audiência. No telejornalismo, abre-se mais espaço para notícias policiais, com os fatos sendo apresentados de maneira sensacionalista e grotesca. No horário do almoço, em algumas emissoras, o jornalismo mundo-cão é praticamente norma, e atrai telespectadores, que, no lugar de ficarem chocados, parecem mesmerizados pelas notícias sobre assassinatos, assaltos e brigas (sempre entre pobres, diga-se). Há apresentadores que, mais do que repórteres, se tornaram verdadeiros justiceiros — fazendo justiça com a própria, digamos, boca. Alguns mais gritam do que falam e se tornaram tão populares que são cotados para disputar mandato de vereador, deputado e prefeito.

Douglas Tavolaro, presidente da CNN Brasil, montou uma equipe de primeira linha para fazer jornalismo de qualidade e responsável | Foto: Reprodução

A piora do jornalismo — um jornalismo-vingador, que supostamente fala em nome do povão, e ganha seu aplauso — corresponde, por vezes, ao aumento da audiência. Por causa disso, emissoras, mesmo afiliadas da Globo, que tem um padrão “x” de qualidade — mantido a duras penas —, adotam o modelo de concorrentes sensacionalistas. Porque estão perdendo audiência. A Globo tem tentado manter certo padrão, mas, para não perder (mais) audiência, às vezes faz concessão ao popularesco — menos nos telejornais da rede, como “Jornal Nacional” e “Jornal Hoje”, e mais nos telejornais das emissoras. A tendência — insista-se: tendência — é que, a médio prazo, a própria Globo seja levada de embrulho, para não perder audiência.

William Waack: uma das principais contratações da CNN | Foto: Reprodução

A Globo está lutando para manter e reconquistar audiência — inclusive e talvez sobretudo do público jovem (que fugiu e não quer mais saber de televisão aberta). Tanto que está tentando conectar seu telejornalismo à ideia de que o celular, mais do que o aparelho de televisão, é o “personagem” central dos novos tempos. Os globais falam, o tempo todo, de podcasts (arquivos digitais de áudio). Trata-se de uma maneira de reconectar-se aos telespectadores — que escaparam e talvez não voltem mais. A Globo não está equivocada, é mesmo preciso atrair novos telespectadores ou reconquistar parte dos que procuraram novos “ares” (Netflix, Amazon, GloboNews, BandNews). Mas a rede deveria examinar pesquisas sobre o público que lhe é fiel — o que talvez já esteja sendo feito — e trabalhá-lo. Audiências gigantes são coisas do passado, por isso é preciso (tentar) “segurar” a audiência — o telespectador — que se tem. Portanto, conservar a atual audiência, cativando o público que persiste assistindo o “Jornal Nacional” (estou entre eles, sem deixar de ver o “Em Pauta”, da GloboNews, que conta com profissionais de primeira linha), é, jornalística e comercialmente, mais inteligente do que buscar aquilo que não quer vir.

Evaristo Costa: ex-apresentador do jornal “Hoje”, da TV Globo | Foto: Reprodução

Perto da sociedade e longe do poder

Há um fato que, longe de prejudicar, pode ajudar a Globo: a chegada da CNN Brasil, dirigida pelo jornalista Douglas Tavolaro, ex-TV Record.

A CNN Brasil certamente adotará o padrão americano de jornalismo — que, a rigor, não é muito diferente do da TV Globo. Trata-se de um jornalismo independente do poder público e do poder privado, quer dizer, não é controlado por governantes e empresários. No momento em que a Globo se mantém mais crítica do governo do presidente Jair Bolsonaro, por isso é atacada nas redes sociais pelo bolsonarismo, ter uma concorrente que igualmente deverá ser crítica — porque o padrão CNN não faz concessões ao Estado —, é saudável. A Globo não ficará sozinha — o que, certamente, pode despertar outras redes, que, no momento, se comportam como o sorriso do poder.

Douglas Tavolaro e Monalisa Perrone: outra global que vai trabalhar na CNN Brasil | Foto: Divulgação

O jornalismo da TV Record melhorou muito e, em alguns momentos, rivaliza-se com o da Globo. Mas, como as estruturas não são idênticas, a rede da família Marinho ainda supera a concorrente. Em alguns Estados, é fato, a Record chega a ultrapassar, em termos de audiência, a Vênus Platinada. A CNN Brasil não chega para competir com a Globo em todas as áreas, pois sua prioridade é jornalismo. Com as contratações que está fazendo (a equipe terá 700 funcionários — quatrocentos deles jornalistas), como William Waack, Evaristo Costa, Monalisa Perrone, Phelipe Siani, Mari Palma, além de editores e produtores experimentados, a CNN sugere que está chegando para competir de igual para igual com a Globo, e sem nenhum amadorismo.

Phelipe Siani e Mari Palma trocaram a Globo pela CNN Brasil| Fotos: Reprodução Instagram

O fato de fazer jornalismo de qualidade, o que é uma marca da CNN em todo o mundo, pode contribuir para a Globo, pressionada por audiência, não piorar o seu jornalismo (o que já vem ocorrendo nos Estados; a TV Anhanguera, com sua tradição de seriedade e equilíbrio, tem cedido ao sensacionalismo com o objetivo de concorrer com a TV Record e com a TV Serra Dourada).

Então, ao contrário do que se poderia imaginar, longe de colaborar para piorar a Globo — é certo que contratou alguns de seus profissionais —, a CNN Brasil pode contribuir para mantê-la no alto, fazendo jornalismo cada vez de mais qualidade. Ao ganhar um competidor de porte, no lugar de “descer” — para tentar puxar audiência popular —, a Globo pode subir, para manter seus mais atentos telespectadores.

Para os telespectadores, a chegada da CNN — que vai ao ar este ano — é positiva. Trata-se de uma opção a mais e pode contribuir para que o jornalismo seja ainda mais crítico dos poderes. Ninguém vai querer ficar para trás. Espera-se.

3 respostas para “Expectativa é que CNN puxe telejornalismo pra “cima” e não pra “baixo”. Será bom pra Globo”

  1. Ronaldo Rangel disse:

    O grande diferencial seria uma emissora de TV que ouvisse sugestões de reportagens de seu público. Que capitalizou a grande barreira de emissoras com o público foi o falecido Boechat que fornecia o celular no ar, e até atendia ligações de ouvintes.

  2. ANTONIO CARLOS DE SOUSA E SILVA disse:

    Precisamos de jornalismo critico, mas que tenha o compromisso de informar a verdade dos fatos sem deturpações e o respeito ao assinante que ajuda a manter essas emissoras funcionando.

  3. MAURO FURTADO DA CUNHA disse:

    Uma concorrente de peso não fortalecerá a Globo, pelo contrário

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