Marcos Araken

Exclusivo: jornalista faz revelações sobre assassinato de Eurípedes 3 Ranchos, prefeito de Catalão

Mamede Leão: juiz classificou inquérito como “um circo” em entrevista

O assassinato do empresário Catalão Eurípedes Pereira — que foi prefeito de Catalão — completou 21 anos em 2 de agosto. O crime, até hoje não esclarecido, ainda suscita debates na região Sudeste de Goiás, onde “Oripão” tinha forte trânsito. Mais do que apontar a autoria, um sem número de teses ainda discutem se houve um mandante e quais seriam as motivações para tirar a vida de uma pessoa considerada com carisma acima da média.

O assunto sobre a morte de Eurípedes “Três Ranchos”, como era conhecido por ser natural da vizinha Três Ranchos, talvez tenha arrefecido, mais de duas décadas depois do ocorrido. Mas, se depender do ânimo do jornalista e historiador Enival Mamede Leão, as rodas de conversa na cidade terão muita matéria-prima para os próximos meses.

Obra promete colocar o assunto em discussão novamente na cidade | Foto: divulgação

Blogueiro, professor universitário e com disposição para uma boa polêmica, Mamede Leão removeu pedras enormes — as que “pesavam” sobre o assunto — e pode se tornar alvo delas. Nesta sexta-feira, 2, ao lançar na Câmara Municipal de Catalão o livro “Quem Matou “Oripão? Diamantes, Política, Festas e… Morte!” (Ed. UEG, 2019), é certo que muitos catalanos — e alguns de fora — não o terão em boa conta.

Com efeito, nem assassino(s), nem mandante(s), tampouco aqueles que não têm nada a ver com o crime, mas que estiveram com seus nomes na lista dos suspeitos, nem um deles quer ouvir falar do crime. Na verdade, torciam para que ninguém tivesse a curiosidade de acessar as 2,7 mil páginas, 15 volumes e dois apensos que compõem os autos. Gostariam de continuar a circular livremente na Avenida 20 de Agosto — principal via de comércio da cidade — sem ser pré-julgado com olhares acusatórios. Sim, porque, mesmo com seus mais de 100 mil habitantes, é impossível circular no Centro, num sábado de compras, sem cumprimentar pelo menos meia dúzia de conhecidos.

Mamede Leão levou oito meses para ler o processo, entrevistar vinte pessoas, e escrever as 270 páginas da obra. As informações apuradas nos autos foram, portanto, cruzadas pelo jornalista. Por motivos óbvios, o culpado — ou culpados — pode não ser revelado, nem a elite da Polícia Civil o fez. Mas uma certeza deve pairar sobre Catalão: aquele 2 de agosto de 1998, data em que o corpo de “Oripão” foi encontrado na garagem de sua residência, cravejado com cerca de 10 tiros no banco do passageiro de um veículo GM/Ômega, vai ganhar novos tons e significados a partir de agora.

Nome como o do ex-vereador e comerciante da cidade Itelvino Inácio, já falecido, figurava entre os suspeitos, mas não tive comprovação. A ironia do destino, contudo, causou (causa) desgaste para as famílias. Itelvino teria chegado às vias de fato com o prefeito por questões políticas. O ex-vereador teria sido preterido no apoio de Eurípedes à sua candidatura a deputado estadual.

O fato de Eurípedes Pereira ter bom relacionamento com garimpeiros da região — o distrito de Santo Antônio do Rio Verde foi rico em diamantes  — colocou trabalhadores do garimpo entre os suspeitos. Aliás, dois foram indiciados e presos, mas a Justiça os libertou por falta de provas.

Um produtor de vídeos e radialista de Catalão chamado Návio Leão também trabalha no assunto. Ele produziu, desde 2018, um documentário que promete, assim como o livro, jogar luz nas minúcias escondidas do processo.

Mamede Leão, em noite de autógrafos na Câmara Municipal de Catalão: best seller| Foto: Divulgação

Em entrevista por telefone ao Jornal Opção, Mamede Leão, que à época do crime presidia o Diretório Acadêmico dos Estudantes da Universidade Federal de Goiás (UFG) de Catalão e chegou a ser vereador, falou das dificuldades em manejar um assunto tão ácido. Revelou ter receio de represálias — “é lógico que tenho medo” —, mas que não poderia, como historiador e jornalista, omitir detalhes, em seu entendimento, essenciais para melhorar o que se sabe hoje sobre a terrível história.

Confira os principais trechos da entrevista

Como reagiu o Ministério Público de Goiás (MP-GO) diante da finalização do inquérito?

Mamede Leão — Eles fizeram apenas a contestação inicial e, diante dos fatos, abandonaram o caso. Não recorreram mais. Inclusive, três garimpeiros foram apresentados. Só dois foram para o processo final, porque um não foi nem preso. O Ministério Público, a partir do momento em que o juiz assinou e divulgou a sentença, fez a contrarrazão normal e não pediu para reabrir o inquérito e morreu o assunto.

Ninguém na época questionou o MP-GO, a Polícia ou a Justiça?

Mamede Leão — Não. Entrevistei o filho dele [Eurípedes Pereira Júnior], porque a família tem muitas questões. A família não questionou. Segundo o filho, um cunhado e um sobrinho [do prefeito Eurípedes] que eu entrevistei, o problema foi medo. Segundo eles, a mãe [Janete, viúva do prefeito assassinado] foi ameaçada várias vezes. O próprio Júnior se sentiu ameaçado em Goiânia. Inclusive chegaram a colocar seguranças alguns meses para proteger Janete. E diante do medo e da repercussão, eles deixaram quieto. Muito tempo passou.

O prefeito Eurípedes era de qual partido?

Mamede Leão — Do PTB. Só que a morte dele antecedeu as eleições de 1998. Antes, ele havia aderido [informalmente] ao PMDB (hoje MDB). Ele havia firmado acordo com Maguito [Vilela, então governador de Goiás] e com Iris [Rezende, ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso] que iria apoiá-los para governador. Ou seja, pouco antes de morrer, ele havia rompido com o grupo político dele, PTB, ligado a esse grupo que acabou elegendo Marconi [Perillo] ao governo de Goiás. Aí não consolidou lá na frente [a aliança dom o PMDB] porque mataram ele. No livro, questiono isso.

Quem teria interesse na morte do “Oripão”?

Mamede Leão — É uma pergunta que exploro no livro. Foram três linhas de investigação: latrocínio para roubar diamante, ou seria crime político ou passional. Eurípedes tinha a mulher, mas também tinha algumas namoradas. Então, eles trabalharam também que poderia ter cometido um crime passional.

Para uma questão política, eles levantaram a seguinte hipótese: poderia ser alguém para ficar no lugar dele. Quem assumiu [após a morte de “Oripão” foi a Maria Ângela [Mesquita], vice-prefeita. Ela é mulher do Dr. Agnaldo [Mesquita], que era secretário de Saúde. Agnaldo havia rompido com ele [“Oripão”] na semana do assassinato. Tem vários depoimentos… Inclusive o livro vai suscitar isso. Tem vários depoimentos do Agnaldo, [que narram] que ele vai lá na prefeitura na quinta e na sexta-feira — que antecedeu a morte no domingo — e falam que o Eurípedes, a partir de segunda, ele “não vai ser mais prefeito”. Tem depoimentos na polícia confirmando isso no processo. Eu coloco no livro. E, para piorar a situação, o Agnaldo, inclusive, no depoimento de quem falou isso, que foi o advogado e assessor jurídico do Eurípedes, Luziano Eurípedes. Ele fala que o Agnaldo queria, inclusive, fornecer um atestado médico falso para afastar o Eurípedes da prefeitura. E o Eurípedes não quis, não aceitou. E o Agnaldo fala [segundo o depoimento]: “Você não vai ser mais prefeito”. Palavra do Luziano Eurípedes. Palavra profética. É uma vertente de grupos ligados politicamente ao Eurípedes, que estavam insatisfeitos, porque ele havia aderido ao PMDB de Maguito e de Iris e aí ele teria rompido alguns acordos. O delegado fala [no processo] que poderia ter sido crime político por descontentamento.

O Dr. Agnaldo, contudo, não é suspeito no crime. Ele foi ouvido, mas não postula no inquérito como suspeito. Não há mais suspeitos, na verdade. São 20 anos e o crime prescreveu. Mesmo naquela época, ele não foi colocado como suspeito nem pela polícia, nem pela Justiça.

Outra hipótese levantada é que o Itelvino [Inácio], que foi presidente da Câmara, ligado ao Eurípedes, ele queria ser candidato a deputado estadual. Até que foi, mas perdeu feio. Só que ele queria que o Eurípedes o apoiasse. E o Eurípedes não queria apoiar ele. Ele apoiava Jardel Sebba, que também fazia parte do grupo — foi secretário de Agricultura. No inquérito, o maior suspeito é o Itelvino, justamente por causa disso. Porque o Itelvino supostamente brigou com o Eurípedes, porque o Eurípedes não quis apoiá-lo para deputado estadual e declarou apoio para o Jardel.

O Itevino foi ouvido, quatro, cinco meses depois. E ele foi inocentado. Não acharam nada que pudesse comprometê-lo Nada foi provado contra o Itelvino. Inclusive um caseiro do Itelvino, surgiu um boato que esse caseiro havia executado o Eurípedes. Esse caseiro foi preso por trintas dias, em uma prisão temporária, mas foi solto inocentado por falta de provas.

Essa suposta briga foi no Lago do Clube do Povo?

Mamede Leão — Foi.

O que o motivou dispender tempo e energia para escrever este livro?

Mamede Leão e o vereador Rodrigão, em lançamento do livro | Foto: reprodução / Facebook

Mamede Leão — Na época do assassinato do Eurípedes, eu era presidente do Diretório Acadêmico dos Estudantes da UFG de Catalão. Em grande parte das manifestações contra o Eurípedes, por problemas administrativos, eu estava no meio. Era um dos organizadores. Eu vivenciei um pouco esta parte, como liderança estudantil.

Assim que ele foi morto, passaram-se dois anos e fui eleito vereador. E nesses dois anos, foi muito debatido [o assassinato]. O próprio Jardel virou deputado. O Jardel cobrou muito isso na Assembleia Legislativa. Fez audiência pública. Culminou com a apresentação dos garimpeiros. E ficou com aquela pergunta no ar na cidade.

E eu, como historiador, como jornalista, sempre fiquei na dúvida. E, recentemente, com seu documentário, o Návio Leão me instigou: “Você não ia escrever o livro? Este livro tem de sair”. Respondi: “Não escrevi, porque virei vereador, virei secretário, fui professor, não estava tendo tempo”. Eu continuo não tendo tempo, mas decidi escrever o livro, porque alguém precisa mexer com isso.

Fiz muito rápido porque eu já tinha mais ou menos na cabeça o que seria e mergulhei nos documentos.

“O livro vai ajudar a mostrar mais detalhes desse episódio”, projeta Mamede Leão | Foto: divulgação

Que efeito espera que a obra provoque?

Mamede Leão — Só tenho certeza de uma coisa. Com o livro, as pessoas vão conhecer mais a história, vão conhecer mais os fatos e vão ter acesso ao que está nos documentos. Tem muita história sobre isso. Como o Eurípedes era uma figura central e como não se descobriu [o(s) autor(es) do crime], o que acontece? Como sabem que não foram os garimpeiros, o livro vai ajudar a mostrar mais detalhes desse episódio que, no meu entendimento, não deveria ter sido engavetado, arquivado e ficado por isso mesmo.

Você acha que, apesar do crime prescrito, possa ocorrer alguma forma de reparação jurídica-judicial?

Mamede Leão — Não necessariamente jurídica. Mas a resposta precisa ser dada. Precisam ser dados esclarecimentos. Porque, na hora em que você lê, por exemplo… eu entrevistei o juiz, que deu a sentença inocentando os garimpeiros, o Marcus Vinícius [Ayres Barreto], que está aqui hoje ainda trabalhando. A entrevista dele é esclarecedora. Ele fala assim: “Eu inocentei eles [os garimpeiros] porque não tinham provas. Eu inocentei eles porque foi um ‘circo’ aquele inquérito. Aquilo foi para dar uma resposta que não foram os garimpeiros”.

Você citou esta afirmação do juiz no seu livro?

Mamede Leão — Citei. Inclusive, na contracapa eu coloco esta declaração dele falando que foi um “circo” montado. Ele foi o penúltimo a ser entrevistado. O último foi o filho do Eurípedes. O dia que eu entrevistei ele [o juiz Marcus Vinícius], quando saí da entrevista, falei para o Manoel, que trabalha comigo: “Manoel, o que o juiz falou aqui hoje, ele acabou com o promotor”. Eu tentei falar com ele [o promotor], que não quis falar. Ele não quis falar comigo e mandou justificativa de que o que tinha falar estava nos autos. E falei para a secretária dele: “Quero falar com ele, justamente pelo que está nos autos. Porque lá ele fala que não tem provas, mas tem convicção pessoal”.

O livro será capaz de remover alguém da zona de conforto?

Mamede Leão — Tenho certeza disso. Apesar de algumas pessoas já me falaram: “Filho de fulano de tal está com raiva”, que eu não deveria ter colocado algumas coisas no livro. Aí eu disse: “Não leu o livro, como sabe o que eu coloquei”?. Ou seja, a pessoa antecipa que sabe que o pai é um dos principais suspeitos, não é?

Você percebe que alguém está incomodado com o livro?

Mamede Leão — No dia da morte, Agnaldo ligou dez horas da noite na casa do Luziano e perguntou assim: “Tem alguma novidade”?  O Luziano respondeu que “não”. E o Luziano fala que o Agnaldo nunca tinha ligado pra ele antes. Uma coincidência, não é? No livro eu coloco o depoimento do Luziano. E vários entrevistados falam: “O Luziano sabem quem matou”. Só que o Luziano não quis falar comigo.

Qual foi o papel da imprensa local na época?

Mamede Leão — A imprensa teve um papel importante, principalmente as rádios. As rádios cobraram muito a elucidação do caso. Os programas da época, o Sousa [Filho, vereador), o Paulo César [ex-vereador]. Só que, com o passar do tempo, foi caindo no esquecimento.

Fazendo um exercício de futurologia. Se fosse hoje, com os blogs e as redes sociais, acha que haveria um outro desfecho para esta história?

Mamede Leão — As redes sociais, de uma forma geral, hoje são mais presentes, mais combativas. Mesmo tendo muitas artimanhas, hoje não ficaria deste jeito, não.

Porque, além de você, ninguém nunca teve interesse de acessar os autos do processo? Há um curso de História na UFG de Catalão…

Mamede Leão — É uma coisa interessante. Está no imaginário popular que não foram os garimpeiros, mas ninguém se interessou em ler verdadeiramente os documentos.

Durante a leitura dos autos, que fato foi o mais “gritante”, ou seja, o mais absurdo que você leu?

Mamede Leão — Considero que é uma declaração de um membro do esquadrão da morte de Cuiabá [MT].

Por quê?

Mamede Leão — Ele conta a história, como foi o assassinato, cinco, seis meses depois. E conta fatos que nem a polícia sabia. Então para relatar a história que ele contou só alguém que estava na hora do assassinato para saber.

E que história ele contou?

Mamede Leão — Por exemplo: Eurípedes levou um tiro no pênis. E a cueca com a qual estava vestido no carro, na hora, não tinha perfuração. Como é que leva tiro no pênis e a cueca não está perfurada? Ou seja, foi trocada.

Mexeram na cena do crime…

Mamede Leão — Mexeram na cena do crime. Eu provo isso no livro. E o que acontece? Há um racha nesse esquadrão da morte em Cuiabá e o cara entrega que eles mataram o Eurípedes, prefeito de Catalão. E no depoimento que dá para a polícia — que não era nem sobre esse assunto —, ele conta que mataram o prefeito de Catalão e conta detalhes do assassinato. E, nos detalhes, está a questão da cueca. Nem a polícia sabia disso. Então, para contar algo tão detalhado, a pessoa tinha de estar junto ou conhecer quem fez. O nome dele [do membro do esquadrão da morte] é Jaci, com apelido de “Marreta”.

Você não tem medo de trazer à tona esses assuntos?

Mamede Leão — Esta pergunta me fazem muito. Penso assim: é um fato delicado, um caso complicado. Mexe com morte. Alguém mandou matar, alguém matou. Mas eu não poderia omitir essas informações. É lógico que tenho medo e temo que possa haver alguma represália, mas não poderia omitir. Como ia omitir uma coisa dessas? Está lá nos documentos. Se fosse para omitir, não compensaria fazer o livro. Tenho medo, mas como historiador, como jornalista, tenho compromisso com o fato, com a verdade.

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