Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ex-editor do Guardian diz que não será fácil Facebook manter controle sobre notícias falsas

Alan Rusbridger sugere que relação de jornais com Google e Facebook é um pacto com o diabo, mas inescapável. Nos EUA, os dois ficam com quase 70% dos anúncios digitais

Alan Rusbridger, ex-editor do “The Guardian”: a eleição de Donald Trump, além de suas críticas contundentes, contribui para a imprensa ficar mais livre e, portanto, fazer jornalismo de primeira linha

Jornalista que revolucionou o “The Guardian”, tornando o jornal britânico conhecido internacionalmente, Alan Rusbridger concedeu entrevista ao repórter Nelson de Sá, da “Folha de S. Paulo”, na segunda-feira, 6. “Trump reacendeu interesse por jornalismo, diz ex-editor do ‘Guardian’” é o título do texto.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou-se uma espécie de ombudsman informal da imprensa de seu país. Porém, no lugar de analisá-la, detalhando e explicitando suas possíveis falhas, prefere atacá-la. A crítica compreende e, por vezes, leva à superação ou interação. O ataque é uma incompreensão que gera não-entendimento. A petulância do republicano pode até produzir certo desconforto, mas está contribuindo, de algum modo, para “libertar” a imprensa americana, que, sob Barack Obama, andava, aqui e ali, governista. Nos oito anos do democrata, o que há de melhor escrito por jornalistas está em livros, como “Guerra Secreta — A CIA, um Exército Invisível e o Combate nas Sombras” (Record, 391 páginas, tradução de Flávio Gordon), de Mark Mazzetti (correspondente de segurança nacional do “New York Times”), e “Guerras Sujas — O Mundo É um Campo de Batalha” (Companhia das Letras, 840 páginas, tradução de Donaldson Garschagen), de Jeremy Scahill (colaborador da revista “The Nation”). Os livros mostram que, com democrata ou republicano no poder, o Império está no ataque e os adversários figadais, para não se danarem, precisam se proteger bem. Ao menos nos livros, a retórica pacifista de Barack Obama — que engrupe muita gente na imprensa — é destroçada. Frise-se que deixou o poder como queridinho tanto da CIA (à qual permitiu o retorno do esquadrão de assassinos) quanto do Pentágono (autorizou o fortalecimento de seu setor de Inteligência).

Nelson de Sá inquire de Rusbridger se é possível um jornal como o “Guardian”, que tem uma estrutura dispendiosa, manter-se gratuito na internet. O ex-editor do “Guardian” acha que “sim”. “Haverá perguntas quanto ao seu tamanho e à sua missão, e eles podem ser obrigados a fazer menos do que fizeram antes. Mas a grande esperança diante do que aconteceu nos últimos três meses é que as pessoas, que haviam se tornado um pouco desgostosas quanto ao valor dos jornalistas e das notícias, estão agora acordando e dizendo: ‘Não conseguimos imaginar um mundo sem jornalismo’. As assinaturas do ‘New York Times’ e do ‘Washington Post’ estão subindo porque as pessoas estão pensando: ‘Na verdade, acreditamos que há um valor, para nós, em ler’. As pessoas estão acordando para o valor do jornalismo. Podemos agradecer Donald Trump por isso”. Uma pesquisa, não citada pelo jornalista, revela que os americanos confiam mais na imprensa do que no presidente.

Porém, mesmo admitindo que está numa fase boa — e um político radical como Donald Trump favorece o jornalismo crítico (acrescente-se que os jornais americanos não dependem das verbas dos governos federal e estaduais) —, o jornalismo “está terrivelmente ameaçado”, sugere Rusbridger. Por isso, é preciso repensá-lo e verificar como “se relaciona com a audiência e com o mundo moderno em que todos podem se comunicar. O presidente americano de certa maneira sente que não precisa da mídia, que pode se comunicar diretamente ao povo, e isso é em parte verdade. Portanto, há um ambiente completamente mudado para o que fazemos, mas ao mesmo tempo há uma valorização tão maior do que fazemos”.

A “Folha” pergunta se Donald Trump tem mesmo motivos para questionar a imprensa, que teria “torcido” para a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, deixando de lado a objetividade. Rusbridger sustenta que “a imprensa americana foi bastante bem. Você pode argumentar que eles estavam desconectados da sociedade, porque subestimaram as forças que elegeram Trump. É a acusação mais séria que se pode fazer. Por outro lado, se olhar para o jornalismo como uma alternativa, como um foco de poder para aplicar os freios e contrapesos tradicionais, houve grandes reportagens e os jornalistas fizeram o que deveriam ter feito”.

Donald Trump, avalia Rusbridger, “está tentando diminuir o valor do jornalismo, desacreditá-lo, deslegitimá-lo. É uma tendência perigosa, mas acredito que seja porque o jornalismo em si foi tão bom que ele sentiu a necessidade de fazer isso”.

Se não errou na cobertura da campanha de Donald Trump, no caso do Brexit, contrapõe Rusbridger, “a imprensa britânica falhou com as pessoas ao não explicar a complexidade ou fazer justiça a ambos os lados da discussão. Só apresentou um deles, e isso não é o que a imprensa deve fazer”. Por que os ingleses erraram? Primeiro, é provável, devido à ideologia, que às vezes impede de ver os fatos como são e se torna, por si, uma máquina de tentar produzir fatos. Segundo, a distância das ruas, das pessoas de carne e osso. O que se deve fazer? A lição de Rusbridger serve para todos os repórteres: “Manter-se em contato com as pessoas, quer dizer, sair da redação, falar com as pessoas. Certificar-se de que não está desconectada da sociedade. E que está retratando os sentimentos verdadeiros das pessoas, de modo que elas sintam que a imprensa não é uma instituição de elite, que sintam que a imprensa as representa e aos seus pontos de vista. Mas também deve levar às pessoas informações desconfortáveis sobre ambos os lados da discussão, informações com que elas podem não concordar ou sequer querer ouvir”. O editor britânico sublinha que o bom jornalismo certifica-se de apresentar o “contexto” dos acontecimentos. Mas frisa que “muitos dos conceitos básicos não vão mudar, não existe uma reinvenção do jornalismo”. O trabalho do jornalista é “testemunhar” de maneira qualitativa.

Diretor de uma faculdade em Oxford, a Lady Margaret Hall, e do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, Rusbridger diz que fica surpreso quando ouve de “estudantes brilhantes” que buscam suas fontes de informação no Facebook. Ele pergunta aos alunos: “‘Sim, mas de onde vem, antes do Facebook?’ Eles olham para você com estranheza, sem entender a pergunta. É muito importante sensibilizar os jovens para a existência de fontes confiáveis e não confiáveis. Que eles precisam questioná-las e não devem compartilhar coisas a menos que saibam ser verdadeiras. As pessoas todas têm responsabilidade, como os jornalistas, em relação à informação. E isso tudo tem a ver com alfabetização sobre mídia”.

Sobre o tratamento que o Facebook e o Google estão dando à questão das notícias falsas, o ex-editor do “Guardian” entende que é vital, mas difícil — dado o fato de que estão lidando com bilhões de usuários. “Mas por baixo de tudo está a questão maior do grau em que o Facebook e o Google são editorialmente responsáveis pelo conteúdo que carregam. Isso é algo que não querem reconhecer, e não é difícil entender por quê. Mas acho que em algum momento deverá haver uma discussão com eles sobre exatamente que tipo de empresa são e que responsabilidade têm”.

Na questão do duopólio do Facebook e do Google, que “detêm perto de 70% da publicidade digital nos EUA”, o que a imprensa deve fazer? Facebook e Google, de alguma maneira, “gigolam” os jornais, revistas e sites qualificados e ganham dinheiro em geral sem nada produzir de conteúdo. “Não é mais possível para as empresas jornalísticas sustentarem seu negócio da forma como sempre fizeram, por meio de uma combinação de assinatura e publicidade. Mas é difícil responsabilizar o Facebook, dizendo: ‘Vocês não deveriam ser uma empresa de tecnologia tão brilhante’. Acredito que existem conversas que as empresas noticiosas precisam ter com Facebook e Google, quanto a ser justa a divisão hoje do valor que as notícias representam para eles”.

A “aliança”, se é aliança, da imprensa com Facebook e Google é um pacto com o diabo, no dizer de Rusbridger. “Os jornais não precisam estar no Facebook ou no Google, em vários momentos já tentaram evitar. Ninguém os está forçando a estarem lá. É impossível imaginar empresas jornalísticas boicotando o Google ou o Facebook, então temos que trabalhar com eles. Mas os nossos interesses nem sempre são os mesmos”.

A empresa que dirige o “Guardian” responsabilizou Rusbridger por seus prejuízos, porque ele insistiu em manter o acesso gratuito na internet.

Brasil e Goiás

No Brasil está ocorrendo um fenômeno curioso. Os sites dos jornais na internet estão todos muitos iguais (parece que há uma competição para publicar a mesma coisa e com o mesmo enfoque), uns repetindo (e até, em alguns casos, copiando) os outros. O curioso é que seus editores acreditam, piamente, que estão fazendo o certo, sem perceber que o modelo analítico, que alguns jornais firmaram — é o caso do Jornal Opção —, pode ser um caminho diferente para, deste modo, escapar do lugar comum e da reciclagem do “lixo” alheio. Jornais de menor estrutura, se tentarem competir com portais amplos e consolidados — especialmente na cobertura factual —, vão desperdiçar dinheiro e talento. Estão salgando carne podre ao investirem energia e dinheiro num modelo natimorto. O pior é que, por falta de formação, alguns editores nem percebem que estão perdendo tempo e dinheiro. O pior dos enganos é o autoengano, é a falta de percepção do que é real.

Um dos problemas de “O Popular”, jornal de Goiânia, é que parece não ter entendido o seu lugar na internet. Trata-se de um jornal “regional” e, como tal, ainda não tem presença nacional. Se ficar “fechado” na internet, como ocorre, não será descoberto pelos leitores de outros Estados. Depois de consagrado no país, como ocorrem com “Folha de S. Paulo”, “O Globo” e “O Estado de S. Paulo”, aí, sim, poderia pensar em reservar seus principais textos exclusivamente para assinantes. Mas hoje, não sendo conhecido, como será assinado por um leitor do Rio Grande do Sul ou do Ceará? Ficará circunscrito ao próprio Estado e, cada vez mais, desconhecido das novas gerações — que correm para outros jornais, como o Jornal Opção, em Goiás, ou para os portais da “Folha”, do “Estadão” e de “O Globo”.

A edição imprensa de “O Popular” quase sempre chega “velha” às mãos de seus leitores. Por quê? Porque seus editores não estão entendendo que o jornal impresso deve, cada vez mais, reservar espaço para a opinião abalizada, aquela que dura mais e permite a leitura detida e por vários dias. Os jornais diários ou ganham feição de jornais semanários, com pegada mais analítica, ou serão despachados para o limbo por seus leitores. Jornais impressos que ainda insistem em competir com a agilidade da internet e dos canais de televisão, notadamente os canais por assinatura, estão gastando dinheiro de maneira inútil e estão cavando a própria cova. O pior da morte, em termos de jornalismo, é quando se morre vivo. Os leitores estão assistindo a morte de “O Popular”? A palavra morte é muito forte, mas há problemas graves e que não estão sendo percebidos. Como se trata de um jornal de história positiva, que sempre primou pela qualidade, é de bom alvitre que seus proprietários e editores acordem. Os tombos dos gigantes podem até demorar, mas, quando ocorrem, são incontroláveis e incontornáveis.

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