O “linchamento” do jornalista Zeca Camargo diz muito sobre a intolerância totalitária do politicamente correto nas redes sociais

Edmar Oliveira

O psiquiatra Carl Jung, criador da Psicologia Analítica, tem no inconsciente coletivo uma das teorias pelas quais é mais respeitado. Esse fenômeno não deve sua existência a experiências pessoais. Não é adquirido individualmente. Jung faz a distinção: o inconsciente pessoal é representado pelos sentimentos e ideias reprimidas, desenvolvidas durante a vida de um indivíduo. O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, é herdado. É um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda a humanidade, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais que herdamos de nossos ancestrais, que vêm à tona individualmente ou ante a fatos de grande alcance, como a morte do cantor brega romântico Cristiano Araújo, que causou comoção desmedida até nos que, como eu, não o conheciam.

Militante do Facebook, achei curiosa a posição de alguns amigos, dentro e fora dele, especialmente jornalistas, que pareciam querer forçar todos ao desespero. Os que declararam não conhecer o “artista” levaram uma surra virtual, como se estivessem cometendo um crime. Conhecer é ter algum vínculo. É, no caso de cantores, ouvi-los, saber da sua obra. Eu não conhecia Cristiano Araújo. Não considero minimamente arte o estilo sertanejo universitário (que insiste em ficar no primário). E não é por que ele morreu que deve virar sensação — pelo menos para mim. A única ligação que tive com o moço foi vê-lo num outdoor, com aquela pose de falta de cérebro, típica de ídolos do gênero, antes de um show na pecuária, em Goiânia, como vi tantos outros, que surgem no mercado como capim na roça (como ganham milhões de reais vendendo lixo, investem pesado em publicidade).

Música sertaneja mesmo é a tão ardorosamente defendida por Rolando Boldrin e pela saudosa Inezita Barroso, que preserva e expõe as belezas do sertão. Eu jamais ouvi uma musiquinha sequer de Cristiano Araújo. As pérolas do sertanejo universitário são de letras facílimas, com rimas de palavras da mesma classe gramatical, estímulo à cornice e ritmos simplórios.

Não, eu não conhecia Cristiano Araújo. Música, para mim, é arte e cultura. Lamento sua morte e da namorada por serem tão jovens, e também pelo sofrimento da família e amigos. Quando Chico Anysio (foto abaixo) e Millôr Fernandes (foto acima) morreram, senti demais. Eu os conhecia. Tinha “contato” com eles, admiração. Não sou esnobe nem pseudointelectual, mas presenciei amigos do Facebook aproveitarem a tragédia para se promover e dar pito em quem, como eu, exerceu o direito de dizer que não conhecia Cristiano Araújo.

Jornalistas usaram a rede e jogaram para a torcida, sempre com textos agradáveis à multidão, dizendo que Cristiano Araújo era “bom, ia à igreja, jogava futebol, ajudava o próximo…” E por aí vai. Não li ninguém postar que o cantor foi preso por excesso de cachaça e farra, por perturbar o sossego dos vizinhos. Falta de razão e esperteza atrás de curtidas a mais na rede social. Apresentadora de TV chorou soluçando ao falar da morte do rapaz e de sua namorada. Quase não conseguiu dar a notícia. O inconsciente coletivo se manifestou fortemente nesses dias, e veio à tona o arquétipo do mito, dessa necessidade que se tem de adorar figuras que ascenderam em alguma área, mesmo que seja a breguice.

Antes, durante e depois do velório, cortejo e sepultamento de Cristiano Araújo a mídia deu um show, no pior sentido. Sensacionalista, explorou ao máximo. Faturou alto, ainda mais com o corpo no Centro Cultural Oscar Niemeyer, local inadequado em todos os sentidos. Foi um tratamento digno dos conferidos a chefes de Estado. Uma multidão pegou filas longas e chorou, lamentou, desesperou-se. Muitos não sabiam sequer o porquê do choro. Todos, inclusive jornalistas e pessoas inteligentes, foram arrastados pelo inconsciente coletivo, pela falta de razão, que foi submersa e deu lugar às emoções e sentimentos desmedidos. Comportamento de gado. Porteira aberta, todos saíram na mesma direção.

O mitólogo Joseph Campbell influencia os que trabalham com literatura pós-moderna, sobretudo por seu famoso “O Herói de Mil Faces”. Conta no livro como se constrói o mito do herói. Fala da morte no ápice da carreira. Cristiano Araújo era rico, famoso e estava no topo no interior do Brasil — inclusive Goiânia, que ainda é, culturalmente, atrasada. Para Campbell, o morto nessa condição personifica a necessidade que se tem de heróis. Quem são nossos heróis atualmente?

Fui um dos últimos a assistir à crônica do global Zeca Camargo, que, a despeito do direito constitucional à liberdade de expressão, quase foi assassinado virtualmente pelos adoradores de Cristiano Araújo e por jornalistas aproveitadores da dor alheia, que, repito, endeusaram o artista e postaram, cuidadosamente, agrados para a turma quase irracional. Concordo tanto com a fala de Zeca na Globo News que a transformei em impresso para quem ainda não viu. Aí vai:

“Muita gente estranhou a comoção nacional diante da morte trágica e repentina do cantor Cristiano Araújo. A surpresa maior, porém, não é o fato de ele ser tão famoso e tão desconhecido. O Brasil, felizmente, tem um punhado de artistas que não passam pelo radar da grande mídia nem são um consenso popular, mas que levam multidões para seus shows. Essa é uma consequência natural do talento que nós temos pra música cruzado com o tamanho e a diversidade do nosso território. O que realmente surpreende nesse evento triste da semana foi a comoção nacional. De uma hora pra outra, na última quarta-feira, fãs e pessoas que não faziam ideia de quem era Cristiano Araújo partiram pro abraço coletivo, como se todos nós estivéssemos desejando uma catarse assim, um evento maior que nos unisse pela emoção. Nós sempre precisamos disso. Grandes funerais públicos vêm em ciclo expurgar nossas dores como se tivessem uma capacidade purificadora. É só lembrar de despedidas que, dependendo de sua geração, ainda estão na sua memória. Cazuza, Curt Kobain, Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, princesa Diana, Michael Jackson. Mas Cristiano Araújo? Sim, Lady Diana, Mamonas, Senna, todos estes eram, guardadas as proporções, ídolos de grande alcance. Como, então, fomos capazes de nos seduzir emocionalmente por uma figura relativamente desconhecida? A resposta está nos livros para colorir. Sim, eles mesmos, os inesperados vilões do nosso cenário pop, acusados de, entre outras coisas, destacar a pobreza cultural da atual alma cultural brasileira. Não vale a pena discutir aqui o verdadeiro valor desses produtos, se é que ele existe, mas eles vêm bem a calhar para que a gente faça um paralelo com a ausência de fortes referências culturais que experimentamos no momento. A morte de Cristiano Araújo, e a quase insana cobertura de sua despedida, vestiu a carapuça de um contorno de linhas pretas num papel branco, só esperando a tinta da emoção das pessoas para ganhar tons e, quem sabe, um significado. Como robôs coloristas, preenchemos aqueles desenhos na ilusão de que estamos criando alguma coisa. Assim como ao nos mostrarmos abalados com a ausência de Cristiano, acreditamos estar, de fato, comovidos com a perda de um grande ídolo. Todos sabemos que não é bem assim. O cantor talvez tenha morrido cedo demais para provar que tinha potencial para se tornar uma paixão nacional, como tantos casos recentes. Nossa canção popular é hoje dominada por revelações de uma música só, que se entregam a uma alucinada agenda de shows para gerar um bom dinheiro antes que a faísca desse sucesso singular apague sem deixar uma chama mais duradoura. E, nesse cenário, qualquer um pode, ainda que por um dia, ser uma estrela maior. Teria sido esse o caso de Cristiano Araújo? O mais inquietante de tudo isso é que o nosso pop não precisa ser assim. Nossa história musical, e mesmo o passado recente, prova que temos tudo para adorarmos ídolos de verdade. E, para chorar de verdade, seja pela presença deles no palco ou na saudade da perda. Mas agora, olhando em volta, parece que não vemos nada disso. Não precisa ser assim. Contradizer o famoso refrão de Tina Turner, ‘precisamos, sim, de um outro herói’, e mais heróis, mas estão todos ocupados pintando jardins secretos.”

Edmar Oliveira, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.