Euler de França Belém
Euler de França Belém

“Estadão” adota o formato berliner. Mas o que importa é que continua um excelente jornal

O mais provável é que “O Estado de S. Paulo” esteja mais preocupado mesmo é com a audiência do jornal no mundo digital

Na literatura, há uma discussão sobre “forma” e “conteúdo”, como se fossem isoladas. Hoje, a ideia dominante é que forma e conteúdo estão imbrincados, como uma coisa só. Há quem postule que a linguagem, a forma, é o “conteúdo” mais forte do romance “Ulysses”, de James Joyce. Mas há também a história de Leopold e Molly Bloom, pessoas relativamente comuns expostas por uma prosa incomum. Pode-se sugerir que a forma fortalece mais o conteúdo do que o conteúdo a forma? Talvez. Mas o inventivo irlandês era também um bom contador de histórias.

Como “prisioneiro dos fatos”, o jornalismo é uma crônica do dia a dia. Por vezes, o jornalista é “pretensioso”, pois pretende, com uma reportagem não muito extensa, ser um “retratista” fiel dos acontecimentos. Parte das vezes, faz um recorte da realidade e o apresenta como se fosse uma exposição abrangente dos fatos. Nos últimos tempos, há até quem substitua os fatos por opiniões (e até invenções), gerando as fake news. No caso da forma, parte dos jornais está abandonando o formato standard (o jornal grande, quase impossível de se ler no transporte coletivo ou numa mesa de bar) e adotando os formatos tabloide e berliner.

O berliner — um tabloide alongado, como o do Jornal Opção (pioneiro em Goiás e um dos pioneiros no Brasil) — está na moda, sobretudo depois que foi adotado por vários jornais pelo mundo afora — como “La Nación”, da Argentina, “Dagens Nyheter”, da Dinamarca, “The Times” e “The Guardian”, da Inglaterra, “Le Monde” e “Le Figaro”, da França, “La Stampa” e “La Repubblica”, da Itália, “Expresso”, de Portugal, “JoongAng Ilbo”, da Coreia do Sul, “Gulf News”, dos Emirados Árabes, “La Tercera” e “El Mercurio”, do Chile, e “El Comercio”, do Peru.

O secular “O Estado de S. Paulo”, o “Estadão”, também adotou o formato berliner. Numa reportagem, Luiz Raatz, do “Estadão”, assinala: “As razões” para a adoção do novo formato “foram atestadas em pesquisa. O ‘Independent’, por exemplo, descobriu que 90% de seus leitores preferem o fomato germânico, que consideram mais amitável e portátil. O tempo de leitura é maior e o conteúdo é assimilado com maior eficácia. Pesquisas feitas na Bélgica, pelo diário ‘Gaze van Antwerpen’, indicam que o impacto da publicidade também é maior no berliner”.

De fato, jornal em formato germânico é mais fácil de ser manuseado e, portanto, lido. Mas será que alguém compra um jornal exatamente pelo formato?

O fato é que as reformas gráficas que adotam novos formatos não significam que mais leitores vão ser atraídos — exceto nos primeiros dias — para suas reportagens. Por dois motivos básicos.

Primeiro, escolhe-se um jornal pela qualidade de seu conteúdo. Lia o “Estadão” (do qual sou assinante, e não da versão impressa) antes e continuo lendo depois da adoção do novo formato. Mudou alguma coisa? Na verdade, não. O “Estado” continua um excelente jornal, com reportagens muito bem-feitas e editoriais altamente posicionados — o que sugere, mas não é, radicalização à esquerda — em relação aos fatos. O jornal “cansou-se” das estripulias do presidente Jair Bolsonaro e as aponta com firmeza.

Segundo, por mais que jornais impressos sejam atraentes — eventualmente, compro a “Folha de S. Paulo” e o “Estadão” (o “Valor Econômico” e “O Globo” deixaram de circular em Goiânia) nas bancas de José Martins (nas proximidades do parque Vaca Brava) e de Eduardo Domingos Salviano (na Avenida Goiás) —, as publicações são mais lidas (acessadas) no mundo digital. O debate sobre formatos, por isso, soa mais ou menos “escolástico”, como uma coisa antiga.

Então, o que importa de verdade é a qualidade do jornalismo que se faz, e não o formato, pois os leitores comuns ligam muito pouco para a questão. No caso, portanto, o conteúdo é mais relevante do que a forma (mas claro que ninguém aprecia jornais impressos mal diagramados e mal editados).

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