Elder Dias
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Entre o parto e o partir, Marília Mendonça agora sussurra: “entenda a vida!”

A vida dá limites mesmo para quem é dono de fortunas. É que seu real condicionador não está nos cofres – se impõe pelo relógio

Os pupilos de John Keating e a “rainha da sofrência”: lição de transformar a vida | Foto: Reprodução

Quem assistiu a Sociedade dos Poetas Mortos, (Dead Poets Society, EUA, 1990), claro, nunca se esqueceria da cena antológica: o professor John Keating (Robin Williams), em uma das primeiras aulas na Welton Academy, mostrando a sua turma, no hall da faculdade, as fotos de alunos de um século atrás da instituição.

Em um determinado momento, Mr. Keating lembra aos pupilos o óbvio: aqueles das fotos, que de tanto brilho no olhar parecem exalar hormônios, agora estão todos mortos. Viraram “comida de vermes”, “fertilizantes”, como faz questão de enfatizar, de modo chocante e escatológico. E então o professor pede aos estudantes que se aproximem das imagens para escutar o que os fotografados do século passado têm a lhes dizer. E sussurra no ouvido da turma:

“Carpe! Carpe diem! Aproveitem o dia! Tornem suas vidas extraordinárias!”

O professor quer estimular aqueles alunos ainda cheios de acne a entenderem que a vida precisa ser vivida da melhor forma. Talvez seja essa a mensagem subliminar escutada por uma maioria entre os que nem conheceram Marília Mendonça, que não gostam de música sertaneja, que pouco ou nada ouviram suas “canções de amor bandido”, mas que choraram sua perda a partir do momento em que a morte da cantora foi confirmada.

Horas antes, cheia de motivação por seu trabalho e seus projetos, ela estava dialogando com seus seguidores, literalmente conectada ao público – Marília havia ligado para diversos fãs-clubes por conta do lançamento de seu novo vídeo, ocorrido na manhã da mesma sexta-feira do acidente.

Na interação instantânea proporcionada pelas redes sociais, todos torceram para ser verdade a notícia de que ela e seus companheiros de voo teriam sido resgatados com vida. Infelizmente, não foi assim.

Marília Mendonça, no vigor de seus 26 anos, na plenitude de sua capacidade artística, não tinha resistido ao impacto da queda do King Air em uma cachoeira do município de Piedade de Caratinga (MG). Faltavam quatro quilômetros para o pouso no aeroporto de Ubaporanga, em Caratinga, onde ela faria um show na noite do mesmo dia.

Veja o último vídeo de Marília Mendonça publicado pouco antes do acidente aéreo – Goiás365 – Últimas notícias de Aparecida de Goiânia / Região Metropolitana de Goiânia

Marília Mendonça, no último vídeo: a “vida real” da dieta natureba em vez da “expectativa” de iguarias | Foto: Reprodução

A última postagem da “rainha da sofrência” no Instagram dizia respeito ao rigor da dieta de baixa caloria e dos exercícios que estava fazendo para melhorar a forma física. No vídeo – bem produzido, como tudo que fazia –, ela brincava com a “realidade” que se impunha à “expectativa” de poder experimentar a gastronomia típica da cozinha mineira. E dá-lhe foto de pão de queijo, feijão tropeiro, queijo canastra, cachaça regional, em contraposição a sua  imagem degustando a marmitex natureba, já dentro da aeronave.

A vida tem seus limites, mesmo para quem tem muito dinheiro. Porque, na verdade, o real condicionador da vida – e é o que contam as histórias tanto de Mr. Keating aos rapazes da Welton Academy como a do curto vídeo que seria a última aparição de Marília – não está no fato de ter ou não muito o que guardar nos cofres, mas em reparar no relógio e saber usar com sabedoria cada minuto. É o tempo, não o dinheiro.

O paradigma do “sextou”
Mas o que torna extraordinária a vida? O que é “aproveitá-la”? Esperar o fim de semana? Curtir  intensamente cada “sextou!”?

Seria a vida, então, essa entrega aos prazeres de uma forma um tanto devassa e sem limites, como querem fazer crer os memes? Se assim fosse ou assim for, seria necessário admitir que a vida que merece ser vivida se daria apenas após bater o ponto às sextas-feiras ou, no máximo, nesse transcurso até o início do Fantástico, naquela que seria uma sempre malquista noite de domingo. E aí a existência seguiria num looping melancolicamente repetitivo, como a sina do Sísifo condenado a levar a pedra até o cume e a vê-la rolar de novo até o pé do monte.

Convenhamos: ao contrário do que dita o “sextou!”, tornar a vida algo extraordinário definitivamente não pode se resumir, por exemplo, a beber até cair. O álcool pode até, em determinados momentos, compor a cena da diversão; mas, sem falso moralismo, fazer dele – ou de seu abuso – um objetivo em si, como brincam (brincam?) os mesmos memes, é algo insano ou mesmo burro, para dizer um termo mais direto.

Talvez o segredo do sucesso das redes sociais, notadamente as mais imagéticas, como o Instagram, seja passar para quem as acessa a ideia da existência de um mundo ideal, em que a vida está sendo “aproveitada” o tempo todo: há drinques à vontade, sem ressaca; há baladas memoráveis, sem espera de Uber nem fila na entrada e saída da boate; há relacionamentos fugazes, sem peso na consciência; há o sol de verão na beira da praia, sem os tempos nublados no céu e na alma.

Pretendemos todos produzir fotos com belos sorrisos, rostos bonitos, mesa posta com iguarias deliciosas, treinos puxados na academia, paisagens bonitas em férias dos sonhos. As redes parecem subscrever a receita de perfeito usufruto da vida, tal qual os alunos de Mr. Keating deveriam perseguir.

Isso se deve ao fato de que ao ver um enredo como Sociedade dos Poetas Mortos ou similar não nos darmos conta de que sua história serve não para impor um carpe diem, mas para refletir sobre deixar a zona de conforto da mediocridade. Isso não significa, porém e repetindo, estarmos todos obrigados a ser extraordinários o tempo todo – até porque a vida não é filme.

A fugaz trajetória de Marília é a repetição daquela de tantas outras vidas jovens com o mesmo destino: Ritchie Valens, o autor de La Bamba; Buddy Holly, um dos grandes nomes dos primórdios do rock (ambos vítimas no mesmo acidente em 1959, com o também cantor Big Bopper, na fatalidade que ficou conhecida como “o dia em que a música morreu”, eternizada pela canção American Pie, de Don McClean); os Mamonas Assassinas, rapazes no auge da fama, em 1996; Cristiano Araújo, outra estrela sertaneja então em ascensão, em 2015; Gabriel Diniz, que compôs o hit Jenifer e perdeu a vida também em um voo, em 2019.

The Day the Music Died – Wikipédia, a enciclopédia livre

Monumento para Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper, no local do acidente que lhes tirou a vida, em Iowa (EUA) | Foto: Reprodução

Vez ou outra, infelizmente, a lei da probabilidade vai se impor no caminho de uma grande personalidade – seja das artes, dos esportes ou da política –, que vai perder a vida dessa forma, porque a quantidade de deslocamentos aéreos e viagens que fazem é muitíssimo superior à média dos humanos em geral. Não se pode dizer que essa rotina entre hotéis e aeroportos faça parte do lado espetaculoso da vida, muito ao contrário: são os perrengues por que mesmo os famosos têm de passar.

Mais do que luxos e outras pseudofelicidades sofisticadas, o carpe diem precisa ser o mantra para fazer entender, definitivamente, que a vida é curta e não há tempo para futricas e brigas, como escreveu John Lennon (“life is very short and there’s no time for fussing and fighting, my friend”, em We Can Work It Out).

Então, o extraordinário torna-se apenas a observância e a experimentação vívida do ordinário básico: ser gentil com as pessoas, dividir um abraço com alguém querido, entregar nos ouvidos a palavra amiga que alguém precisa, beijar quem merece isso de você e, enfim, perceber a própria respiração e os próprios sentidos. Pode parecer pouco, mas tudo isso é amor. E é de amor – à vida, a si, aos amigos, ao próximo, às belezas naturais – que se compõe o preenchimento correto desse espaço de tempo entre o parto e o partir.

De onde está, Marília Mendonça, com Dinho, Buddy, Ritchie, Gabriel, Cristiano, Robin Williams e tantos outros, se junta para agora também sussurrar: “Carpe diem! Torne sua vida extraordinária! Curta a vida, porque a vida é curta, por mais anos que se viva!”.

Talvez por isso, depois de tantos parágrafos, o verbo adequado para fechar este ensaio seja não “aproveitar”, mas entender a vida.

14 respostas para “Entre o parto e o partir, Marília Mendonça agora sussurra: “entenda a vida!””

  1. Avatar Graciano Arantes disse:

    Excelente!!!

  2. Avatar Graziella Silva Bueno disse:

    Perfeito.

  3. Avatar Kleuma disse:

    Verdade 👏 viva aqui na terra fazendo a vontade de Deus para encontra com Ele lá no céu 🙏.

  4. A morte não é a maior perda da vida. A maior perda é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.

    Norman Cousins

  5. Avatar Morganise disse:

    Nossa!!! Perfeito este texto, e tão necessário.

  6. Avatar Jaqueline disse:

    Elder Dias, parabéns pelo belíssimo texto reflexivo, parece um livro aguçando a vontade de ler mais.
    Há muito tempo não lia uma matéria tão profunda e inteligente, visto que muitos escrevem colocando um título para chamar a atenção, mas o conteúdo costuma ser mentiroso, apenas para puxar o gatilho da curiosidade das pessoas. Fantástico!

  7. Avatar Uilson Veloso Da Luz disse:

    Pura realidade

  8. Avatar Claudia disse:

    Cara, que texto excelente. Pura verdade.

  9. Avatar Sissa disse:

    Sábias palavras, puras e reais!

  10. Avatar Vami disse:

    Que bom q parei pra ler!

  11. Avatar Dany Araujo disse:

    Que texto maravilhoso! Obrigada! Parabéns!!!

  12. Avatar Meire disse:

    Verdade, o texto é tão profundo, que cada frase ou sentimento que o autor coloca nos leva a uma grande reflexão sobre a vida, não de uma vida casual, mas de algo muito mais enraizado, não simplesmente respirar.viver é muito mais. lindo o texto!!!

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