Euler de França Belém
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Ensaísta Enrique Krauze diz que Fidel Castro é o ponto cego de García Márquez

García Márquez e Fidel Castro: amizade estreita levou o escritor a se omitir em relação à ditadura protagonizada pelo líder máximo de Cuba

García Márquez e Fidel Castro: amizade estreita levou o escritor a se omitir em relação à ditadura protagonizada pelo líder máximo de Cuba

Eric Nepomuceno, um dos jornalistas e tradutores brasileiros mais qualificados, se impôs uma tarefa inglória: em vários artigos, procura demonstrar que o escritor colombiano Gabriel García Már­quez era um campeão dos direitos humanos, inclusive em Cuba. Nepomuceno não tem o hábito de mentir, mas possivelmente está contando a história de maneira parcial. No artigo “Fidel Castro foi o ponto cego de Gabriel García Márquez”, publicado no jornal argentino “Clarín” na segunda-feira, 2, o ensaísta Enrique Krauze nuança as relações entre o escritor e o ditador.

Ao contrário do que escreve Nepomuceno, amigo e fã do escritor, Krauze é contundente na crítica, mas usando as próprias palavras de García Márquez. O ensaísta mexicano lembra que García Márquez escreveu que “todos os ditadores… são vítimas”. A partir de 1975, o escritor adotou Fidel Castro como padrinho. “Em três famosos artigos (uma série intitulada ‘Cuba: da cabeça aos pés’), García Márquez escreveu sobre a ‘comunicação quase telepática’ que percebia entre Castro e o povo cubano, e afirmou que ‘esta tem sobrevivido intacta à corrosão insidiosa e feroz das exigências diárias do poder’ e que Castro ‘estabeleceu todo um sistema de defesa contra o culto à personalidade’”. Ora, a própria adoração de García Márquez pelo ditador resulta deste culto… internacional.

Nos artigos, García Márquez chamou Fidel Castro de “repórter genial”, “‘cujos imensos informes orais’ convertiam o povo cubano em ‘um dos mais bem informados do mundo sobre sua própria realidade”. Como se sabe, nenhuma publicação crítica ao governo ditatorial pode circular no país. A pobreza crescente do povo cubano contradiz o “otimismo em gotas” dos discursos e textos tediosos do ditador.

Numa entrevista, o repórter Alan Riding, do “New York Times”, perguntou para García Márquez por que não se mudava para Cuba, um país supostamente maravilhoso. O autor de “Ninguém Escreve ao Coronel” respondeu, candidamente: “Seria muito difícil para mim… adaptar-me a essas condições. Estranharia muitas coisas. Não poderia viver com essa falta de informação”. Ah, os cubanos podem?! Sim, porque a voz de Deus para eles é a de Fidel — o repórter global —, ao menos no entendimento do escritor.

Inquirido sobre as relações com Fidel Castro, um ditador cruel, García Márquez disse que a amizade era, para ele, um “valor supremo”.

Em 1989, quando García Már­quez estava morando em Cuba — provisoriamente, é claro —, foram julgados o general Arnaldo Ochoa e os irmãos Tony e Patricio de la Gaurdia. Acusados de narcotráfico e de trair a revolução, Ochoa e Tony foram condenados à morte. (Fidel havia aceitado um pacto com um cartel das drogas, porque Cuba precisava de dólares para aquisições internacionais, mas, quando a CIA descobriu o pacto, o ditador decidiu culpar alguns militares). Ochoa era um herói da guerra em Angola, na África, e poderia liderar uma oposição mais consistente e agregadora de aliados do regime e de dissidentes. “O coronel de la Guardia era um amigo íntimo de García Márquez. Sua filha, Ileana, implorou ao escritor que intercedesse ante Castro para salvar a vida de seu pai. Mas o colombiano não fez nada. Ileana contou que este [García Márquez] inclusive chegou a observar, sem ser visto e junto a Fidel e Raúl Castro, uma parte do julgamento”, escreve Krauze.

Numa feira do livro em Bogotá, Susan Sontag elogiou a obra de García Márquez, mas disse-lhe que “era imperdoável que não tivesse elevado a voz contra as ações do regime cubano”. O escritor frisou que mantinha relações de amizade com Fidel Castro e que isto era incontornável. Mas ressalvou: “Não saberia calcular a quantidade de prisioneiros, dissidentes e conspiradores, a quem ajudei, em absoluto silêncio, para que fossem liberados da prisão ou pudesse emigrar de Cuba nos últimos 20 anos”. Ele admitiu que os encarceramentos eram injustos e, num ato falho, sugeriu que eram muitos os prisioneiros e perseguidos. Mas não quis fazer nenhuma denúncia pública a respeito do sistema, porque as prisões não eram circunstanciais.

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