Euler de França Belém
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Enfraquecimento da imprensa pode abalar a democracia, diz Ricardo Gandour

Jornalista sugere que, no lugar de investir em excesso na produção de notícias, jornais devem se concentrar, até para preservar custos, em reportagens de maior fôlego

O jornalista Ricardo Gandour, que foi diretor de redação do jornal “O Estado de S. Paulo”, está lançando o livro “Jornalismo em Retração, Poder em Expansão — A Segunda Morte da Opinião Pública” (Summus, 120 páginas).

Entrevistado pela repórter Kassia Nobre, do Portal Imprensa, Gandour faz importantes reflexões de utilidade àqueles que dirigem jornais, os proprietários e editores, e também aos repórteres.

Gandour frisa que o jornalismo precisa reafirmar “sua relevância no papel de mediação entre a informação e o público”. Já na gestão do empreendimento, “o grande desafio” está “na tentativa de suprir a fragmentação das receitas publicitárias com o financiamento direto pelos usuários e leitores, pelos micro-pagamentos”. Recentemente, na Nova Zelândia, um grande grupo de comunicação rompeu com o Facebook e pediu apoio, inclusive financeiro, aos leitores — que deram.

Os leitores podem entender que, como o produto tem qualidade e notícias exclusivas, determinados veículos de comunicação devem ser mantidos por eles, ao menos em parte. A produção de notícias gratuitas, sem remuneração, pode inviabilizar sobretudo as grandes empresas, a médio ou longo prazo. Gandour sublinha que “o jornalismo brasileiro nunca esteve tão em alta e nunca provou ser tão importante e necessário como nesta pandemia. A demanda por produtos de qualidade de informação crível só tem aumentado”.

Ricardo Gandour, ex-diretor de redação do “Estadão”: o jornalismo está numa grande fase; o problema é o faturamento dos veículos de comunicação| Foto: Reprodução

Gandour diz que aquilo que mais repercute nas redes sociais, em termos de debates sérios, deriva, em larga medida, da produção dos jornais gabaritados. “Alerto sobre um possível enfraquecimento da imprensa como formadora da ‘agenda pública comum’, um mínimo consenso em torno do qual uma sociedade se organiza para evoluir. Isto sim pode ser prejudicial ao funcionamento democrático e às instituições.”

Pode se falar na possibilidade de “morte da opinião pública”? “Com o solapamento da imprensa pelo contato direto propiciado pelas redes sociais, coloco a indagação: podemos vir a presenciar a ‘segunda morte’ da opinião pública?”, inquire Gandour. É possível. Mas, no lugar de uma nova ordem, não se poderá instalar o caos? É possível.

O trabalho dos jornais brasileiros, que criaram sistemas de checagem ou lidam com sistemas de determinados grupos, é, ressalta Gandour, importante para conter as fakes news articuladas ou não. O jornalista sugere também que, no lugar de investir em excesso na produção de notícias, os jornais devem se concentrar, até para preservar custos, “em reportagens de maior fôlego”.

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