Euler de França Belém
Euler de França Belém

Eneida, de Virgílio, sai pela Editora 34 e país começa a valorizar traduções de Carlos Alberto Nunes

Eneida, na tradução de Carlos Alberto Nunes e na edição caprichada da Editora 34: revalorização da qualidade

Eneida, na tradução de Carlos Alberto Nunes e na edição caprichada da Editora 34: revalorização da qualidade

O poeta, tradutor e crítico Alexei Bueno era um dos poucos a defender a qualidade das traduções de Carlos Alberto Nunes (1897-1990). O médico maranhense, tio do filósofo e crítico literário Benedito Nunes, traduziu Homero (“Ilíada” e “Odisseia”), Platão, Virgílio, Shakespeare (o teatro completo) e Goethe (“Clavigo” e “Ifigênia em Táuride”. No domingo, 8, no suplemento “Ilustríssima”, da “Folha de S. Paulo”, o jornalista, poeta, tradutor e editor Jorge Henrique Bastos publicou um excelente ensaio, “Um tradutor para Eneias”, que finalmente valoriza, sem provincianismo, o significativo trabalho de Carlos Alberto Nunes. O “pretexto” para o artigo é a republicação de “Eneida”, de Virgílio.

O poema “Eneida” narra “o mito fundador do império milenar romano”. O ensaísta alemão Ernst Robert Curtius, citado por Bastos, escreveu que Agostinho (sim, o santo) era fascinado pelo texto de Virgílio. Chorou “ao ler o relato que Eneias faz a Dido de suas aventuras”. Dante preferiu Virgílio a Homero como guia na sua “Divina Comédia”. O escritor austríaco Hermann Broch escreveu o romance “A Morte de Virgílio”, no qual “ficcionou as 18 derradeiras horas do poeta que, imerso em dúvida, queria destruir a ‘Eneida’”.

Depois da breve exposição sobre a tradição derivada de Virgílio, Bastos comenta as primeiras traduções de “Eneida” para o português. A versão do maranhense Odorico Mendes, em decassílabo heroico, é de 1854. Sua tradução saiu pelas editoras Unicamp e Ateliê. A tradução dos portugueses José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva é de 1845. Tassilo Orpheu Spalding (Cultrix), no Brasil, e Agostinho da Silva (Temas e Debates), em Portugal, também traduziram a obra-prima.

A tradução de Carlos Alberto Nunes foi publicada, em 1981, pela editora A Montanha. “A circulação restrita” impediu a vulgarização de um trabalho de qualidade. Uma edição mais bem cuidada de “Eneida” saiu, no ano passado, pela Editora 34, com a mesma tradução, e organizada por João Ângelo Oliva Neto.

Bastos nota que “dois dos nossos maiores tradutores nasceram no Maranhão, e ambos legaram um rol de traduções cuja relevância aumenta com o passar dos anos”.

Sobre as traduções, Bastos comenta: “A versão de Odorico Mendes, como era típico de seu estilo, utiliza um léxico rebuscado, a sintaxe peculiar e a profusão de neologismos que interrompe a compreensão do leitor a todo instante. (…) Carlos Alberto Nunes explorou o verso de 16 sílabas poéticas, aproximando-se da tendência narrativa dos hexâmetros do original. Essa maneira de traduzir, que os mais precipitados tachariam de conservadora e excessivamente prosaica, investia-se de um aspecto narrativo cujo fim era exprimir com absoluta objetividade o sentido do poema, sem se socorrer de malabarismos vocabulares ou fogos de artifícios estilísticos que vedam, na maior parte das vezes, a expressividade genuína. Desde que suas traduções apareceram, revelaram essa convergência, procurando aproximar-se do original”.

De fato, as traduções de Carlos Alberto Nunes são menos, por assim dizer, “inventivas” ou, como está na moda dizer, “transcriativas”. Porém, ganham em clareza, objetividade e expressividade. Há certa luminosidade clássica nas suas versões. Foram feitas para os leitores, não para o debate acadêmico, sempre dado a filigranas e questiúnculas. Homero e Shakespeare ficam mais precisos e, digamos, límpidos. O que não quer dizer que as versões são mais “pedestres” do que as demais. As traduções de Odorico Mendes têm mesmo certos malabarismos, uma recriação estilizada em Língua Portuguesa — como se estivesse não apenas traduzindo para a Língua Portuguesa, e sim inventando uma nova língua, a partir daquilo que leu em grego ou latim —, que tanto agradaram os concretistas e agradam seus epígonos. Porém, para elevar o ótimo Carlos Alberto Nunes, não é preciso pôr defeitos nos esforços linguísticos de Odorico Mendes. Suas traduções são diferentes, é certo. O mais importante é que são de alta qualidade e inspiradoras para novos tradutores. Odorico Mendes inspirou, por certo, Haroldo de Campos, mais, e Trajano Vieira, menos, nas traduções de Homero. Tenho apreço especial pela arte de “espichar” a Língua Portuguesa, transformando-a numa língua paralela para traduzir o grego Homero e o latino Virgílio — que parece ser a missão a que se impôs Odorico Mendes.

Goiano organizou tradução de Platão

Depois de pôr Homero na Língua Portuguesa dos falantes brasileiros — mas sem coloquialismos forçados, com caipirices brejeiras ou ditas cultas —, Carlos Alberto Nunes decidiu traduzir o filósofo Platão. “Durante uma década”, registra Bastos, cuidou exclusivamente da obra do discípulo de Sócrates.

Como uma editora não quis publicar as traduções, Carlos Alberto Nunes doou 14 volumes para a Universidade Federal do Pará, que decidiu publicá-los numa edição bilíngue. O material foi editado por Plínio Martins Filho — o goiano que dirige a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) e é proprietário da Ateliê Editorial. Trata-se, seguramente, de um dos mais importantes editores do país. Ousou editar “Finnegans Wake”, de James Joyce.

A hora e a vez do poeta Virgílio

Com Homero e Platão “falando” português, Carlos Alberto Nunes, com o apoio de sua mulher, a latinista Filomena Turelli, decidiu traduzir o poema de Virgílio. “Os hexâmetros que cunhou para reproduzir os dramas, aventuras e errância de Eneias expõem o estilo característico de Carlos Alberto Nunes”, sublinha Bastos. Ao terminar a tradução, em 1981, contava 86 anos.

Embora seja um tradutor do primeiro time, “sobre Carlos Alberto Nunes paira o desconhecimento ou a omissão tácita que só esta recente edição pode alterar”, afirma Bastos.
“Torna-se imperativo reavaliar o seu projeto tradutório, submetê-lo a uma análise lúcida e descomprometida, a fim de acolher a sua elegância expressiva, a narratividade equilibrada e objetiva, o apuro formal do verso que forjou, para receber, sem condicionamentos extemporâneos, o impacto das traduções deste senhor franzino, de olhar vivaz, que nos deixou uma das maiores heranças literárias que se pode cobiçar”, afirma Bastos.

Para além do cânone concretista

Possivelmente para não estabelecer polêmicas, sobretudo com os setores universitários — cada vez mais dominantes no debate tradutório —, embora deixe implícita certas divergências, Bastos não explica os motivos de Carlos Alberto Nunes ter sido colocado em segundo plano, quase folclorizado. Alguns tradutores, que reinventam mestres do passado, como Odorico Mendes, Sousândrade e Pedro Kilkerry, para se criar uma tradição local — por exemplo, para o concretismo de Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos —, no lugar de admitir diferenças e sugerir confluências, trabalham para “liquidar”, com suas críticas excludentes e contundentes, aquilo que não se encaixa na “tradição recém-criada”. Há, tanto no campo literário quanto no político, uma disputa pela hegemonia. Aquilo que não se encaixa no cânone concretista — o ótimo tradutor Trajano Vieira, em termos de tradição helênica, parece ser o novo guardião do haroldo-campismo — deve ser ignorado e enviado para o limbo.

O fato é que as traduções de Odorico Mendes e de Carlos Alberto Nunes, embora muito diferentes, não são excludentes. Talvez sejam complementares. Os leitores, aqueles que não perdem tempo com disputas paroquiais — embora apresentadas como cosmopolitas —, ganham tanto com a leitura das versões de um quanto de outro. Aquele que busca mais inventividade, a língua como certo ludismo ou jogo, vai sorrir para o texto posto em português por Odorico Mendes. Aquele que busca mais objetividade e luminosidade — um texto mais límpido, mas não pedestre — tende a sorrir para o trabalho de Carlos Alberto Nunes. Uma coisa é certa: nenhum leitor vai chorar ou lamentar se ler as duas traduções. Certamente vai se sentir afortunado de poder ler em português a obra-prima do gênio mantuano.

12 respostas para “Eneida, de Virgílio, sai pela Editora 34 e país começa a valorizar traduções de Carlos Alberto Nunes”

  1. Avatar Bruna disse:

    Finalmente as traduções dele estão ganhando o devido reconhecimento!!

  2. Avatar Ricardo da Mata disse:

    A tradução de Odorico Mendes é ilegível, besteira perdermos nosso tempo com essa excentricidade. A Ediouro tem uma em prosa (não é adaptação) que é ótima.

  3. Avatar Ricardo da Mata disse:

    É fácil ser relativista e dizer que as duas são boas. A verdade é que Odorico é só um queridinho dos modernosos e não merece ser lido.

  4. Avatar Aprendiz disse:

    O trabalho excelente de Carlos Alberto Nunes merece esse reconhecimento. Podiam reeditar as traduções dele da Ilíada e da Odisseia com o mesmo cuidado que tiveram com a Eneida… porque, atualmente, não há uma só edição das traduções dele de Homero que preste. Todas com inúmeros erros nos textos…

    E eu acho que o relativismo quanto aos méritos ou êxitos das traduções disponíveis é perigoso. É claro que cada uma tem suas próprias características e alguns aspectos sobressaem mais que outros… Mas daí a todas serem equiparáveis… Não penso que isso seja possível.

    Por exemplo, as traduções de Odorico Mendes, embora toda a revalorização que tenham feito ultimamente, são, objetivamente falando, muito infiéis. Pois o texto original, grego ou latino, não é nenhum pouco truncado e obscuro, pelo contrário… e não há “sonoridade” que salve o texto do Odorico de truncamento e obscuridade, tanto é que o republicaram com um dicionário da própria tradução nas notas de rodapé (ou seja, além da tradução, vem junto quase uma tradução da tradução).
    Isso é o cúmulo do absurdo, quando se pensa que a Ilíada e a Odisseia eram, originalmente, cantadas! (e o poeta, que na verdade era chamado de cantor – aedo – tocava uma espécie de lira enquanto cantava as histórias…); e a Eneida era recitada…

    A poesia de Homero e de Virgílio era engenhosa, mas não significa que era rebuscada à incompreensibilidade…

    Mesmo Haroldo de Campos e Trajano Vieira, embora menos “radicais” que Odorico Mendes, cometem muitas “falhas”, ao meu ver, desrespeitando, dentre outras coisas, elementos estruturais muito característicos – e importantes – das obras…

    • Avatar tiago disse:

      A nova fronteira lançou uma caixa com a “Ilíada” e “Odisséia’ por um precinho bem camarada, a editora hedra também tem as obras em seu catálogo, e a livraria saraiva tem as obras em edições de bolso, ou seja as traduções da “Ilíada” e “Odisséia” n tradução do Alberto Nunes são as mais numerosas e fáceis de achar.

      • Avatar Aprendiz disse:

        Pois é, mas o problema é que todas elas – só não posso dizer da edição da Saraiva, a qual não verifiquei – trazem os textos com muitos erros, inclusive a recente da Nova Fronteira, que apenas mudou a capa e o acabamento, mas editou o mesmo texto falho das edições anteriores, que eram da Ediouro.

        Nestas edições (da Ediouro e da Nova Fronteira) e nas demais (inclusive da Hedra), o texto contém muitos erros, desde palavras omissas ou escritas errado, como quebra errada de versos (por exemplo: uma palavra que deveria estar no final de um verso, está, erradamente, iniciando o verso seguinte). Isso tudo prejudica ou o entendimento, ou a tradução em si, o verso empregado pelo tradutor. Mas, como nem todo mundo que lê sabe dos critérios de tradução, e, por isso mesmo, não se atenta a eles, muita coisa acaba passando batido.

        Eu mesmo comprei a edição da Nova Fronteira com esperança de terem revisado o texto, mas em vão. Até agora, a única edição segura que achei é uma de 1962, da editora Melhoramentos (só disponível usada). Nestas não achei nenhum erro dos que encontrei em todas as posteriores, com exceção de um: num verso do canto I ou II, falta uma palavra, que, embora não prejudique a compreensão, deixa o verso “quebrado”, ou seja, faltando uma parte. Tal palavra só encontrei na primeira edição da tradução, da década de 1940. Mas, o problema da primeira edição, que não chega a ser bem um problema, é que, depois dela, o tradutor fez diversas modificações na tradução, tornando o texto revisado um pouco melhor.

        Então, como eu disse, até agora a melhor e mais segura edição que achei é da editora Melhoramentos… Mas, enquanto ninguém reedita o texto devidamente revisado, as pessoas vão comprando e lendo o que está disponível…

      • Avatar Aprendiz disse:

        E, quanto à Odisseia da Nova Fronteira (que é a mesma antes publicada pela Ediouro), trata-se de uma versão revisada por outra pessoa e não pelo próprio autor – o que por si só já é extremamente questionável.

        Mas, além de o revisor não explicitar objetivamente o que foi revisado nem o porquê exato, no que eu consegui identificar de alterações feitas, foi a substituição desnecessária de palavras, que, além de não melhorarem o texto, alteraram o esquema rítmico do verso, deturpando-o. Um verdadeiro absurdo…

        Vale lembrar que os textos publicados pela Saraiva trocavam o nome “Odisseu”, que é o nome original do personagem, em grego, e que foi o empregado pelo tradutor, por “Ulisses” – nome latino -, supostamente mais familiar aos leitores.
        O problema é que a troca fútil de nomes, que por si só já desrespeita a escolha do tradutor, acarretou justamente na quebra do ritmo dos versos nos quais ele aparece (um é oxítono, o outro paroxítono). Isso foi o suficiente para que, após o registro de uma reclamação (de um professor universitário), a editora recolhesse as edições publicadas e relançasse tudo com o nome correto (mas, como disse, não verifiquei se o resto do texto contém os mesmos erros que as outras edições)…

        Já a Odisseia da Hedra é o texto original do tradutor, mas padece de alguns erros tais como palavras escritas errado (não só ortograficamente, mas, especialmente, tempos verbais trocados)…

  5. Avatar Acroporium sp. disse:

    Sem dúvidas, as melhores traduções da ìliada, Odisséia e Eneida são do Carlos Alberto, pois ele respeitou a métrica do original e manteve um português solene como é próprios para a época dos heróis gregos mas de fácil compreensão.
    As do Odorico além de serem ilegíveis devido ao rebuscamento o tradutor estuprou o texto original para que os versos ficassem no estilo de Os Lusíadas.

  6. Adalberto de Queiroz Adalberto de Queiroz disse:

    O Acervo do Opção é de uma riqueza inolvidável.

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