Encerramento do Setembro Amarelo: precisamos saber mais sobre o suicídio

Recomenda-se não tentar extrair do sujeito angustiado uma certeza sobre seu ato. Sugere-se, simplesmente, escutar no lugar de falar

Renata Wirthmann      

Especial para o Jornal Opção

Desde 2014 setembro foi o mês escolhido para a campanha brasileira de prevenção do suicídio. Além do mês, foi selecionada a cor: amarela. Desde então a fita amarela, exposta e divulgada no mês de setembro, serve para nos lembrar da importância de abordar o assunto. Neste ano não foi diferente, mesmo com a pandemia. Talvez a única diferença é que —devido às regras de distanciamento social — tanto as campanhas quanto as palestras foram realizadas online

Um coletivo formado por ex-alunas do curso de psicologia da UFCat me pediu para fechar o mês de campanha deste ano de 2020 com uma live e, muito feliz com a iniciativa e o preparo dessas novas psicólogas que inventam inserções cada vez mais fortes e dinâmicas da psicologia na sociedade, eu aceitei. O coletivo é o Psi(A)borda.

É possível abordar a questão do suicídio por várias vias. Poderíamos falar a partir da nota técnica do Conselho Regional de Psicologia (CRP-09), que produziu um material muito correto e de fácil compreensão. Poderíamos investigar a partir da cultura, por meio de séries, livros e filmes que abordam o assunto. Ou, ainda, a partir da questão da saúde pública, discorrendo sobre a rede de saúde mental do SUS. Todos esses caminhos são possíveis e de extrema importância, assim como também são de mais fácil acesso para pesquisa. Esses três caminhos apontam para investigações mais coletivas e sociais da questão do suicídio.

Entretanto, como psicanalista, decidi abordar por uma outra via, menos percorrida, pela via da singularidade do sujeito, por meio do conceito lacaniano de passagem ao ato. Segundo Miller, a passagem ao ato desvela a estrutura fundamental do ato, ou seja, é uma ruptura diante da angústia para poder extrair uma certeza que coloque fim a um impasse do pensamento. De modo geral o sujeito permanece por longos períodos em impasse e o ato é mantido em suspenso devido ao recalque que leva o sujeito a procrastinação, indecisão, inibição e, até, obsessão desses pensamentos.

Segundo o psicanalista Jacques Allain Miller, pode-se supor que o ideal do ato seria a substituição deste por uma ação calculada após um longo raciocínio. Entretanto, a clínica nos demonstra, insistentemente, que a urgência característica do ato nunca consegue ser completamente suprimida ou calculada. Em resumo, esse ato ideal não existe e “se há verdadeiramente algo que se opõe a esse ideal, é a autodestruição” (Miller [2014]). Isso equivale a dizer que a passagem ao ato é, por excelência, o suicídio do sujeito.

Nem todo ato levará o sujeito a morte definitiva, entretanto, vivo, o sujeito não será mais o mesmo após o ato, pois todo ato verdadeiro é transgressor e implica, necessariamente, na ultrapassagem de uma lei. Para a clínica, é de importância fundamental se localizar a qual lei o ato visa infringir, pois isso permitirá ao ato e, consequentemente ao sujeito, a oportunidade de remanejar essa codificação para, por exemplo, poder matar essa lei e não a si mesmo.

Toda lei ou todo o código, ao qual o ato visa transgredir, serve, fundamentalmente, como regulação do mundo (cultura/civilização), denominado, pela psicanálise lacaniana, de o Outro. A angústia, advinda do impasse do pensamento, localiza-se, justamente, entre o sujeito e o Outro. De modo geral nossa relação com o Outro só é suportável porque é cheia de encontros e desencontros. De outra forma, o Outro seria maciço, absoluto, onipotente, invasor, ameaçador e, portanto, insuportável.

Pintura de Salvador Dalí

Essa relação entre o sujeito e o Outro pode acontecer tanto como impasse (acting out), quanto como certeza (passagem ao ato). No acting out há fala e, portanto, permite ao analista interpretar. Trata-se de uma cena em que há tanto o sujeito quanto o Outro e, na qual, o sujeito atua, se movimenta e age para o Outro (que está lá como espectador). Na passagem ao ato, por sua vez, o sujeito se subtrai e falta material para ser interpretado, pois não há mais a cena ou o espectador. Não há equívoco do pensamento ou da fala. Podemos dizer, assim, que o suicídio é a separação do Outro, o fim da cena.

Retomando a questão do setembro amarelo e das ações de prevenção, eis a delicadeza da prevenção. Só temos acesso ao sujeito pela fala, é necessário que ele fale. Sobre a relação do sujeito com o Outro e com a morte, só sabemos pelo discurso que, na maior parte dos casos, só nos chega retroativamente, após o ato. Em síntese, é necessário que o sujeito sobreviva ao ato e é fundamental escutá-lo para que este ato possa ser remanejado, ressignificado, e não repetido.

Pintura de Benjamin West

Quanto a atuação clínica, essa é a questão que toca o analista, a cada análise: saber o quanto de angústia cada sujeito pode suportar. Na clínica da neurose, a angústia é um guia para o ato analítico (intervenção). A questão do manejo da clínica é como chegar até aí bordejando os campos da passagem ao ato e do acting out com os quais a angústia faz fronteira.

Traduzindo o campo teórico para a população em geral, recomenda-se não tentar extrair do sujeito angustiado uma certeza sobre seu ato. Não impor, como um Outro invasor e onipotente, uma certeza sobre a vida, incluindo certezas religiosas, morais e sociais. Recomenda-se, simplesmente, escutar no lugar de falar. Acolher sem julgar e encaminhar a um psicólogo ou a um psicanalista.

Renata Wirthmann é psicanalista e professora-doutora do curso de Psicologia da Universidade Federal de Catalão (UFCat). É colaboradora do Jornal Opção.

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