Euler de França Belém
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Elias Canetti diz que “A Educação Sentimental”, de Flaubert, era o livro preferido de Kafka

Elias Canetti disse que Kafka “sonhava com a oportunidade de ler em voz alta, num grande salão lotado”, o romance do escritor francês

Texto publicado em 25 de julho de 2004 no Jornal Opção

No belíssimo “O Outro Processo — As Cartas de Kafka a Felice (Editora Espaço e Tempo, com tradução de Herbert Caro), o filósofo e escritor Elias Canetti (autor do romance “Auto-de-Fé” e do denso estudo “Massa e Poder”) diz que Kafka “sonhava com a oportunidade de ler em voz alta, num grande salão lotado, toda a ‘Education Sentimentale’ [A Educação Sentimental”], de Flaubert, seu livro preferido”.

“Entre os quatro homens que considero meus genuínos parentes de sangue, entre Grillparzer, Dostoiévski, Kleist e Flaubert, Dostoiévski foi o único a casar-se, e pode ser que somente Kleist, ao suicidar-se, compelido por apuros íntimos e exteriores, tenha encontrado a solução acertada”, escreveu Kafka para Felice. (Nada encontrei do escritor e dramaturgo austríaco Franz Grillparzer em português. Há um breve estudo de Otto Maria Carpeaux.)

O leitor brasileiro tem sorte: não é difícil encontrar nos sebos o romance “A Educação Sentimental¹ (Difel/Círculo do Livro), com tradução de Adolfo Casais Monteiro. O romance do autor francês, escrito no século 19, parece ter saído do prelo ontem. Na página 34, o narrador diz que o conde d’Ambreuse “importunava constantemente o ministro com os seus pedidos de subsídios, de comendas, de concessões para venda de tabaco; e, quando não estava satisfeito com o governo, aproximava-se do partido de ‘centro-esquerda’”. Se estiver desatento, o leitor pensará que Flaubert está discorrendo sobre agricultores brasileiros (ou franceses ou americanos) ou sobre o industrial Eugênio ‘Gradiente’ Staub, que, migrando da direita para a esquerda, apoiou Lula para presidente.

Felice Bauer, noiva de Kafka, recebeu centenas de cartas, talvez nenhuma de amor, pois a grande paixão do escritor foi mesmo a talentosa Milena Jesenská (morta pelos nazistas). Mesmo noivo, o autor de “A Metamorfose” (“uma das poucas obras grandes e perfeitas deste século”, no dizer de Elias Canetti), flertava com uma amiga de Felice, Grete Bloch (que dizia ter sido mãe de um filho de Kafka).

Nota

¹ A Companhia das Letras publicou “A Educação Sentimental” (560 páginas, tradução de Rosa Aguiar) em 2017.

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