Eleições 2020, o voto e o desejo da cura

A saída passa pela possibilidade de o sujeito fazer percursos nos quais descubra outras formas de amar, diferentes das que o mantém no cercado da subserviência

Marcos Antônio Ribeiro Moraes

Especial para o Jornal Opção

Já estamos no clima das eleições. Neste ano, tão atípico, por conta da pandemia do coronavírus, a campanha eleitoral será quase somente por meios virtuais. Mas acredito que a posição de muitos sujeitos nessa cena continuará sendo semelhante à dos outros anos eleitorais. Penso que o motivo que leva muitos cidadãos a escolherem seus candidatos não terá mudado muito. Esse motivo tem algo a ver com um modo de encantamento e fascínio pela figura do candidato, pelo que ele encarna daquilo que na verdade seria o nosso ideal de eu. É verdade que existe o eleitor desavisado, aquele que pega o santinho no chão na hora de ir votar, ou aquele que diz que não irá votar, porque não acredita em mais ninguém, o que também é muito preocupante, como indicador de ausência de ideal, apatia e desesperança. Mas boa parte dos eleitores, e esses são os que decidem as eleições, está vinculada em alguma militância ou encantada por um determinado candidato. Esses eleitores se caracterizam pelo endereçamento de um desejo, de um ideal. Acreditam que é dando o lugar do poder a tal candidato que receberão em troca cuidado e respostas para suas dificuldades e sofrimentos. Enxergam no político escolhido a figura daquele que cuida, ampara e cura, termos que, de algum modo, são sinônimos. Etimologicamente, curar quer dizer cuidar.

Mas não haverá cura se não houver um percurso de cuidado. Quem cura não é o cuidador isoladamente, mas a confluência de muitas forças e atores, como, por exemplo, o remédio certo, saber administrá-lo e o vasto campo do desejo como predisposição de quem recebe esse remédio. Porém, na maioria das vezes, um só é tomado como o todo, entendido como o único autor do cuidado e passa a ser sustentado nessa cena, como tendo o poder da cura, portanto passa a ser visto ocupando o lugar do poder. Mas o lugar de poder e saber, pode ser realmente ocupado por um sujeito? Com base no pensamento de Lacan, não. O lugar atribuído ao Outro e ao objeto que elegemos, com desejo de completude, é um lugar, furado, impossível de ser preenchido. Desse entendimento decorre a compreensão de que o saber e o poder também são marcados por esse furo. A esse respeito, Claude Lefort (1983) afirma que, numa democracia, o lugar do poder é vazio, impossível de ser ocupado por um governante. Todavia, não é assim que a maioria de nós entende. Basta ver a desproporção de nosso interesse por quem irá ocupar o cargo no Poder Executivo, deixando de considerarmos os nomes e os currículos dos candidatos ao Poder Legislativo.

Dessa forma, muitas figuras políticas e religiosas, para o bem ou para o mal, se tornam identificadas ao poder, à figura do pai não furado. À luz da psicanálise, é possível pensar que a força que sustenta esses diferentes modos de vinculação ao outro, marcadas por um fascínio, tem um componente erótico e por isso ambíguo. Nas palavras de Lacan (1960-61), trata-se de um endereçamento de amor ao saber, sendo assim, ele se traduz em modos de poder. Nessa ordem, o amor devotado ao outro lhe confere poder. Já pensaram nisso antes, que o voto, ou uma vinculação a um determinado líder é um ato de amor? Uma condição de estar amando? Por meio da qual sustentamos o outro num lugar de poder? De saber sobre o que é melhor para nós? A esse estado de estar amando, Freud (1912) deu o nome de transferência.

Nas formulações da teoria psicanalítica, esse estado é apresentado como uma força poderosíssima, operando a favor ou contra o desenrolar de um tratamento. Mas Freud (1921) nos diz que esse estado pode ser verificado em diferentes modos de vínculos sociais, comumente com um viés indubitavelmente erótico. A esse respeito, em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, ele nos leva a entender que o sujeito, diante das exigências sublimatórias de renúncia do seu ideal narcísico, em prol dos processos civilizatórios, prefere projetar um tal ideal, na figura simbólica de uma autoridade, pois, segundo ele, “o grupo ainda deseja ser governado pela força irrestrita e possui uma paixão extrema pela autoridade”.

Sabemos, porém, que tais vínculos são de natureza ambígua, podendo viabilizar processos de fortalecimento ou aniquilamento da condição de sujeito, quando esse resta preso à cega e hipnótica sujeição. Tudo dependerá do campo discursivo em que se passa cada modalidade de vinculação. Ainda sobre a ambivalência dos vínculos transferenciais, nos diz Freud, “do estado de estar amando à hipnose vai, evidentemente, apenas um curto passo”. Evidencia-se aqui esse caráter ambíguo do amor, ao ser direcionado à figura do líder. Veja bem: muitos de nós ficamos de boca aberta, nestes últimos dias, nos perguntando, como pode acontecer situações tão escandalosas no campo político e religioso, pautadas por desvio, lavagem de dinheiro, atitudes perversas, abusos sexuais e até mesmos assassinatos. E o que mais impressiona é a chocante constatação de que um líder político ou religioso, que ontem ocupava o lugar do poder, hoje seja apontado como o pior dos réus. Podemos nos indignar, mas não podemos negar que tais líderes tenham sido sustentados, em tais cenas perversas, por um voto de confiança, que integra essa dimensão erótica e o desejo de ser cuidado-curado.

Sendo assim, qual a saída? Falar de uma saída para essa questão não é fácil, mas de todo modo vale pensar que a saída passa pela possibilidade de o sujeito fazer percursos, por meio das quais descubra outras formas de amar, diferentes das que o mantém no cercado da subserviência. Experiências que possibilitem suportar o lugar do poder como sendo vazio. Justamente num momento em que, no campo político e religioso, muitos sujeitos se afirmam no poder com promessas falaciosas de um saber todo, de cura e felicidade. É importante lembrar que nem todos políticos fazem isso. Que nem todas religiões embarcaram nessa onda da promessa da cura, permanecendo na essência da gratuidade da relação, muitas suportam o lugar do poder como misteriosamente vazio, por não ser passível de ser preenchido imaginariamente. Um bom exemplo disso seria o modo praticado por certas correntes do judaísmo, das religiões de matriz africana, como o candomblé, onde o nome de Deus, enquanto ser supremo, é impronunciável, dando lugar à referências, possíveis de serem feitas apenas por diversos epítetos.

Penso na importância de que esses referidos percursos ajudem o sujeito a repensar o preço que ele paga para ter garantias, que não são milagrosamente possíveis de serem alcançadas. Pois a falta é algo que nos constitui, nos mantém no campo do desejo e impossível de ser obturada. Nos últimos anos temos aceitado abrir mão de muitas de nossas garantias sociais, em troca de promessas milagrosas de erradicação daquilo que nos falta e nos relega a uma condição insegurança e mal-estar. Nas últimas eleições, muitos votaram confiantes na promessa da erradicação da violência social e da corrupção. Mas na verdade, por conta disso, perdemos direitos que tínhamos e, por ora, não parece haver sinais de cumprimento de tais promessas.

Mafalda e o modelo de felicidade

Quero falar ainda de mais uma possível saída para superação dos vínculos de subserviência. Essa me foi inspirada pelo Quino, e aqui aproveito para prestar a ele a minha homenagem. Trata-se de uma de suas tirinhas, na qual a Mafalda vai ao chaveiro com a demanda de que lhe seja feita a chave da felicidade, e o velho senhor lhe pergunta se ela havia levado o modelo. Acho que esse seria um bom recado para nós eleitores.

Quanto ao que seria possível dizer aos sujeitos que estão como candidatos no pleito atual, também me veio uma inspiração. Justamente no momento em que eu escrevia esse texto, uma amiga me enviou outra tirinha, na qual a Mafalda figura, numa galeria de fotos dos grandes filósofos da humanidade. E eu bobamente pensei: Por que o rostinho da Mafalda e não o do Quino? Mas é justamente aqui que se encontra a dica. O que fica é o valor de nossas obras, sobretudo se qualificam o pensamento, as artes, a educação, a saúde, enfim, a vida para todos. E o pai, como função, continua a ser importante, porém como “não todo poder”, como o chaveiro ou o pai da Mafalda.

Marcos Antônio Ribeiro Moraes é psicanalista, membro da APPOA, professor da PUC-Goiás. É colaborador do Jornal Opção.

Referências

LACAN, J. (1960-1961). Seminário 8. A Transferência. Rio de Janeiro: Zahar.

LEFORT, Claude. A questão da democracia, 1983. In: Lefort, C. Pensando o político: ensaios sobre democracia, revolução e liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

FREUD. (1921).Psicologia de grupo e análise do ego. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago.

_______. (1912) Sobre a dinâmica da transferência. In; Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: autêntica.

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