Euler de França Belém
Euler de França Belém

Editor do Washington Post diz que jornalismo de qualidade tem espaço garantido no mercado

Marty Baron: “Várias reportagens longas, bem-feitas, investimentos para nós, estão entre as mais lidas”

Marty Baron: “Várias reportagens longas, bem-feitas, investimentos para nós, estão entre as mais lidas”

Entrevistado pelo repórter Raul Juste Lores, da “Folha de S. Paulo” (sábado, 2), o editor-chefe do jornal “Washington Post” — cuja maior glória foi ter contribuído para a renúncia do presidente Richard Nixon em 1974 —, Marty Baron, de 60 anos, deu declarações instigantes sobre o presente e o futuro da imprensa (ou mídia).

Marty Baron afirma que lê atentamente as informações que recebe sobre o comportamento do leitor. Por exemplo: “A porcentagem de quem lê um texto até o final é muito menor do que a gente pensa. Uma típica reportagem é lida até o final por 1%, 2% dos leitores”. E acrescenta aquilo que editores e repórteres do Jornal Opção têm observado, ao examinarem dados do Google Analyticz semanalmente: “Várias reportagens longas, bem-feitas, investimentos para nós, estão entre as mais lidas. Há um enorme numero de gente que gasta muito tempo em narrativas aprofundadas. Não é verdade que texto longo afaste o leitor”.

Apesar da pressão pelo acesso, pois agora todos medem audiência, via Google Analyticz ou outros sistemas, o “Washington Post” não quer aderir ao esquema do “Buzzfeed” (site que publica listas). De fato, há sites, portais e blogs que estão trocando reportagens sérias e equilibradas pela publicação intensiva de listas ou reportagens sensacionalistas sobre políticos e, sobretudo, atores de novela e cinema e modelos. “Não queremos só histórias frívolas. Seria destrutivo com nossa marca, com nossa identidade. (…) Há um enorme mercado para assuntos sérios. Mas não é porque sejam sérios que precisam ser chatos. Contar uma história séria de forma envolvente e entretida é um enorme desafio. Essas são as mais lidas”, afirma Marty Baron.

A tecnologia pode ser um poderoso instrumento para aumentar a leitura dos jornais, avalia Marty Baron. “A narrativa mudou muito com a interatividade. O mais interessante é a integração das ferramentas em um único texto, nos lugares apropriados, dar o contexto. Se você está no meio de uma reportagem e se fala da gafe de um político ou da violência policial, e você tem o vídeo que alguém fez na hora, você pode mostrar ali, na hora. Coloque o gráfico ali, a cópia do documento para quem quiser se aprofundar. (…) Tem que estar tudo bem trançado. É para isso que investimos tanto em tecnologia.”

Não adianta ter grandes assuntos se as pessoas dos jornais não investem na sua divulgação. Por isso o “Washington Post” mantém 47 engenheiros na redação, trabalhando ao lado dos jornalistas. “Estão na editoria de Política, no time de infográficos, por todas as partes. Contar uma história hoje acontece em uma ambiente digital. Se você quer tirar o máximo de proveito, eles [engenheiros] precisam estar por perto, você precisa de engenheiros que saibam programar, fazer apresentações complicadas, interativas. O repórter sabe apurar, escrever, mas não programar. A relação simbiótica de jornalistas e engenheiros é fundamental.”

Nos Estados Unidos, como no Brasil, a publicidade na internet ainda é um problema. Está crescendo, mas ainda é inferior à do produto impresso. Marty Baron é sincero: “Não tenho a resposta de como fazer dinheiro agora, sinto muito”. Ele disse isto e riu. “A receita do impresso é dominante ainda, mas é declinante, o número de leitores declina, não será uma queda gradual, será uma queda acelerada, até cair de vez. Fazer o impresso e o digital ao mesmo tempo é um desafio. (…) Se fôssemos apenas digital, as receitas e os cursos seriam menores”. O problema é que quem migrou em definitivo para a internet — abandonando o formato impresso, caso do “Jornal do Brasil” e da “Newsweek” — fracassou editorial e financeiramente.

Depois de falar de negócios, e frisar que sua área é mesma a jornalística — um toque sutil no entrevistador —, Marty Baron contou que o “Post” faturou um Pulitzer este ano com uma reportagem, por sinal longa, “sobre as falhas do Serviço Secreto” americano. “O que eu gosto é do jornalismo que explica o mundo, que explica assuntos com nuances, mais profundos. Tudo que puder para fugir de slogans de políticos, de comentaristas com frases feitas.”

Ao final da entrevista, Marty Baron sublinha que o “Post” jamais deixa de publicar uma reportagem “porque o governo pediu”. É assim que se ganha o respeito da sociedade, sugere.

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