Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

E se a nota oficial da PRF de Sergipe tivesse sido escrita assim?

O imperdoável assassinato após tortura de Genivaldo Jesus dos Santos mostra como a comunicação institucional também está desumanizada

De todos os episódios lamentáveis da semana que passou – e, nos últimos tempos, toda semana tem sido infelizmente pródiga nisso –, o mais terrível, sem dúvida, foi a sequência de tortura e assassinato de Genivaldo de Jesus dos Santos por pelo menos três agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Na quarta-feira, 25, Genivaldo, um homem negro de 38 anos que era diagnosticado com esquizofrenia sofreu uma abordagem truculenta por parte desses policiais por estar trafegando na Rodovia BR-101 sem capacete. Após ter sido agredido verbalmente, ele discutiu com os policiais, que o jogaram ao chão. Depois, o colocaram dentro do porta-malas da viatura da PRF com os pés para fora, jogaram uma granada de gás (lacrimogêneo ou de pimenta, há as duas versões) e fecharam a tampa. O homem desfaleceu após muitos urros que soltou. Tudo isso foi gravado em vários vídeos por testemunhas. Dezenas de pessoas observaram o horrendo ritual, à luz do dia.

Quando o caso ainda não havia tomado proporções internacionais, como ocorreria nos dias seguintes, a assessoria de imprensa da superintendência da PRF de Sergipe, local da ocorrência, emitiu uma nota quase lacônica e completamente desumanizada sobre a ocorrência, fiando-se exclusivamente – e dando como verdade – no que disseram os agentes envolvidos no caso (cujos nomes não haviam sido divulgados oficialmente até o fim da semana).

Leia a Nota Oficial publicada para a imprensa e observe como a assessoria “compra” a versão de seus agentes:

NOTA OFICIAL

Na data de hoje, 25 de maio de 2022, durante ação policial na BR-101, em Umbaúba-SE, um homem de 38 anos, resistiu ativamente a uma abordagem de uma equipe PRF. Em razão da sua agressividade, foram empregados técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção e o indivíduo foi conduzido à Delegacia de Polícia Civil em Umbaúba.

Durante o deslocamento, o abordado veio a passar mal e socorrido de imediato ao Hospital José Nailson Moura, onde posteriormente foi atendido e constatado o óbito.

A equipe registrou a ocorrência na Polícia Judiciária, que irá apurar o caso. A Polícia Rodoviária Federal em Sergipe lamenta o ocorrido e informa que foi aberto procedimento disciplinar para averiguar a conduta dos policiais envolvidos.

Aracaju, 25 de maio de 2022.

 

Em defesa da assessoria, é preciso dizer que agentes públicos têm, também, fé pública. Ou seja, o que relatam ou assinam na função é tido como expressão da verdade.

Ocorre que o trabalho operacional é, por assim dizer, “dinâmico”. E, no caso de uma ocorrência policial, mais ainda. Tudo fica condicionado a um modo de observar o acontecido. Tudo é mais grave ainda quando há uma morte como consequência.

Nesse caso, há um outro lado que mereceria ter, ao menos, direito à “voz” do uso de um discurso mais neutro e ao mesmo tempo colocado no condicional. Mais do que isso: a pessoa morta tem um nome: não é apenas um “homem”, um “indivíduo”, um “abordado”, formas discursivas que são usadas constantemente pelos aparatos de segurança, e que têm como finalidade reduzir ou aniquilar qualquer empatia.

Outro detalhe não menos importante: a nota não é assinada pelo superintendente. É como se a assessoria tivesse, ela própria, autonomia para escrever e publicar, ainda que isso não deixe de representar o órgão. A questão é a forma quase negligente de procedimento, que parece afetar não só os agentes que cometeram o que todos viram ser um crime, mas também o serviço burocrático.

Haveria como fazer diferente? Claro que sim. A nota poderia ter um tom muito mais cuidadoso e respeitoso com a família da vítima e com a vida humana que se perdeu. O problema é que as polícias – mesmo a “elite” delas, como geralmente consideram a Polícia Rodoviária Federal – parecem ter regredido em seu processo de humanização pós-ditadura militar.

Segue uma proposta alternativa, mais humanizada, do que poderia ter sido a redação da mesma nota oficial:

NOTA OFICIAL

Na data de hoje, 25 de maio de 2022, chegou até o conhecimento desta Superintendência o relato de agentes de nossos quadros sobre uma abordagem policial que procederam na BR-101, em Umbaúba (SE), a qual, lamentavelmente, teve como última e indesejada consequência a morte do sr. Genivaldo de Jesus dos Santos, de 38 anos de idade, morador deste município.

Segundo o relatado por nossa equipe, o sr. Genivaldo teria oferecido resistência à abordagem que fizeram. Então, em razão do que observaram ser um comportamento alterado, os agentes disseram ter empregado técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para fazer contenção.

A seguir, relataram tê-lo conduzido à Delegacia de Polícia Civil em Umbaúba. Entretanto, durante o deslocamento, segundo os mesmos agentes, o abordado veio a passar mal e foi levado de imediato ao Hospital José Nailson Moura para ser socorrido, onde posteriormente foi atendido e, infelizmente, constatada sua morte.

A equipe registrou a ocorrência na Polícia Judiciária, que se compromete desde já a apurar rigorosamente o caso, especialmente o modo com que foi feita a abordagem e a verificar como se deu, pelos agentes envolvidos, a aplicação das técnicas e instrumentos disponíveis.

Esta Superintendência da Polícia Rodoviária Federal em Sergipe se compadece da família em luto pelo que ocorreu e envolveu nossa equipe, e informa que foi prontamente aberto um procedimento disciplinar para averiguar a conduta dos policiais envolvidos neste episódio que, infelizmente, tirou a vida do sr. Genivaldo de Jesus dos Santos.

Aracaju, 25 de maio de 2022.

Jason Gomes Terêncio
Superintendente da PRF/Sergipe

 

Uma resposta para “E se a nota oficial da PRF de Sergipe tivesse sido escrita assim?”

  1. Avatar Ar.canjo disse:

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