Euler de França Belém
Euler de França Belém

É preciso combater os monumentos aparentemente eternos e entender que o dissenso não nos matará

O pensamento genuíno não admite atalhos. A educação pública requer a coragem de não repetir e a paciência de não encurtar o trabalho do pensamento

Matisse A Dança (1909-1910)

Thiago Cazarim

  1. Proposições (em forma de diálogo)

— Teu corpo te foi dado pela natureza: macho e fêmea os criou.

— Foi-me dado pela natureza: mas quem pode determinar o que dele será feito? Em que cromossomo está contido o manual de instruções de uso desse corpo?

— Dois iguais não reproduzem; de resto, seriam o quê, filhos de lesma? É preciso um pai, uma mãe, filhos gerados no seio do casamento. Não existe família de outra forma.

— E aqueles que não desejam ou não podem gerar? E os filhos adotados? E os irmãos mais velhos que criaram os mais novos? E os avós que criam seus netos?

— Existe uma doutrinação ideológica em curso. Querem destruir os valores da família cristã.

— Existe uma ideologia cristã em choque com outras ideologias que a questionam. A não ser que se trate de uma religião sem ideias e valores.

— O MEC defende a pedofilia e o incesto.

— Apenas quando o déficit hermenêutico chega ao extremo ou reina a má-fé interpretativa.

— Mas está escrito que a pedofilia não é vista como problemática por alguns grupos! Está lá no texto do MEC!

— E por que está escrito? Para alertar ou para louvar? Para explorar toda a realidade do problema ou para encobrir suas partes espinhosas, justamente as que mais exigem coragem e preparo?

— A escola não pode confrontar os valores da família cristã.

— Apenas se abandonarmos a educação formal das ciências, da filosofia e das artes e adotarmos em seu lugar a catequese. Correndo, lógico, o risco de doutrinação, a não ser que demos outro nome a essa repetição incansável de valores que não podem ser problematizados.

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  1. Escólio

De forma geral, e para além do caso particular e emblemático da (hidro)fobia em relação à “ideologia de gênero”, existe hoje uma forte tendência à repetição na sociedade brasileira. Tendência, aliás, é generosidade: o que há mesmo é uma verdadeira compulsão a repetir.

A radicalidade das vanguardas artísticas, dos trabalhos intelectuais e dos movimentos políticos do século 20 provavelmente deixou como herança maldita a desconfiança na ruptura, no dissenso e nas formas duras, inassimiláveis, insolúveis em água com que nossas relações foram moldadas, reformuladas e, por que não dizer?, até mesmo suspensas e inviabilizadas.

Essa incompreensão diante daquilo que às vezes nem mesmo se quer colocar na ordem da interpretação e da comunicação tem tomado em tempos recentes a forma de uma redoma especular, que isola e reflete qualquer diferença. Tal como num labirinto de espelhos, o efeito ótico (e sobretudo social) obtido é a eterna reiteração do mesmo, do Uno, do si. Não há, não pode haver — sob o suposto risco de desaparecimento — nenhuma forma, nenhuma imagem que não repita.

Não é difícil perceber como saímos do terreno da linguagem para entrar, ou melhor, para recuar ao mundo do puro eco. O espaço vazio deixado por nosso furor de originalidade, que matou os deuses e o próprio homem (os franceses dos anos 60 e 70 se empenharam particularmente nessa tarefa), fez brotar outro vazio, o da linguagem mal repetida, gasta, infértil que jurávamos ver reaparecer em estado virgem. Se reapareceu virgem, foi apenas da cal com que a esterilizamos.

Num mundo sem promessa — que não deixa de ser o mais honesto que podemos defender depois dos horrores do século passado —, as promessas antigas, circulares, recuperáveis a qualquer tempo forjam um espaço de apoio mínimo a quem entra em pânico diante de um espelho quebrado. Viver pela promessa, pela má forma de repetição: ai! Cada caco de vidro que tentamos colar nos marca na carne que não sairemos ilesos das tentativas vãs de formar de novo as imagens de um mundo que já não mais há.

Colamos incansavelmente espectros que nos rondam, que nos rodam, que nos rodeiam. Colamos como se esses funestos mosaicos pudessem resgatar o vazio que nos foi legado. Como se esse nada ameaçador que nos espreita pudesse ser conjurado pela repetição compulsiva do idêntico e do unitário.

Cabe a nós, hoje, combater os monumentos aparentemente eternos (sabemo-los evanescentes) ao mesmo tempo em que nosso dissenso não nos matará. Sem esperança de consenso, talvez. Mas sem ceder à facilidade do já-dito como atalho do pensamento.

O pensamento genuíno não admite atalhos. Nem mesmo a covardia dessa forma de repetição incontrolável. A educação pública requer, pois, a coragem de não repetir e a paciência de não encurtar o trabalho do pensamento.

A não ser que a tarefa seja outra que não educar.

Thiago Cazarim é professor de música do Instituto Federal de Goiás, mestre em Filosofia e doutorando em Performances Culturais pela UFG.

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Patrícia Chanely Silva Ricarte

Parabéns pela perspectiva dialógica, Thiago! Para quebrar a palavra autoritária, só a palavra persuasiva.