Euler de França Belém
Euler de França Belém

 É falso tratar Donald Trump como se fosse o Nicolás Maduro dos Estados Unidos

O presidente da Venezuela pode dizer: “O Estado sou eu”. O presidente americano é contido por instituições sólidas

Donald Trump governa um país democrático e seus arroubos são contidos pelas instituições, que são sólidas, enquanto Nicolás Maduro, que se tornou o Estado na Venezuela, controla as instituições, que são frágeis

Parte do jornalismo impresso e televisual patropi trata o presidente Donald Trump como se fosse o Nicolás Maduro dos Estados Unidos. A retórica às vezes meio amalucada do líder do Partido Republicano de fato, aqui e ali, lembra a do presidente da Venezuela. Mas a comparação morre aí.

Maduro comanda uma ditadura, com juízes, políticos e empresários tendo de escapar do país para não serem presos e, mesmo, assassinados. A Justiça, na Venezuela, e o presidente se confundem, pois se tornaram uma coisa só. Trump é diferente, pois governa um país inteiramente democrático.

A imagem sobre os Estados Unidos que predomina no Brasil é a do país intervencionista em outras nações, como o Iraque. O país do big stick, que teria sobrevivido ao tempo de Theodore Roosevelt. Mas internamente, apesar dos vários conflitos e da presença e atuação da Ku Klux Klan, os Estados Unidos são uma democracia plena — com escassos reparos. O historiador e jurista francês Alexis de Tocqueville e a filósofa alemã Hannah Arendt, entre outros mais atuais, destacaram a fortaleza da democracia americana, com suas instituições sólidas que resistiram a presidentes muito mais fortes do que Trump.

Apesar do discurso, de que vai fazer e acontecer, Trump não arrosta a democracia americana, com suas instituições. Suas críticas à imprensa são duras, sempre excessivas, mas não cogita, na prática, censurá-la, porque não é possível; a lei não permite. O destempero do presidente vai levar a imprensa à perda de controle? Não vai. A imprensa americana não sobrevive às custas dos governos, nem federal nem estaduais, e por isso pode acompanhar de perto e criticamente quaisquer um deles. Trump tem razão num ponto: a mídia tratava Barack Obama, quando era presidente, com luvas de pelica. Obama era um presidente tão duro quando George W. Bush, e quanto certamente será Trump, porque governava um Império, o país número um em termos de economia e poder bélico, mas sua retórica amena soava como pacifismo, o que agradava a mídia, inclusive a americana, e o mundo. Trump não agrada ninguém, nem mesmo aqueles que o apoiam, daí as baixas frequentes na sua equipe.

Pode-se dizer que Trump “enfrenta” o Judiciário americano? Não. Ele confronta, critica, mas aceita as decisões da Justiça. Porque, apesar do barulho que lembra Hugo Chávez e Maduro, o presidente americano é um democrata. Nada simpático, é certo.

Os supremacistas americanos, que incitam a violência contra os negros e contra aqueles que discordam deles, devem mesmo ser acompanhados de perto pela polícia, pela Justiça e pelo governo. Mas arrancar as estátuas dos generais e políticos sulistas, como uma punição tardia ao Sul escravista e atual aos supremacistas brancos, é uma forma equivocada de reparação histórica. Robert Lee lutou pelo Sul para manter a abominável escravidão, mas não só. O Norte queria submeter o Sul em termos econômicos, e não apenas políticos, porque este funcionava, de alguma maneira, como uma espécie de colônia inglesa. O que se queria era que fosse uma colônia, se o termo pode ser utilizado, americana, quer dizer, do Norte.

Arrancar as estátuas é apagar uma parte da história dos Estados Unidos. Derrubá-las vai esconder que os Estados Unidos, diria o escritor William Faulkner, enriqueceu, em larga escala, graças à maldição da escravidão? É muito mais inteligente — e justo do ponto de vista histórico — deixá-las expostas publicamente até para que os americanos e o mundo entendam que, um dia, os Estados Unidos foram escravocratas. Retirar as estátuas é sonegar (e uma tentativa de esconder) uma parte cruenta, desumana e constrangedora da história dos Estados Unidos.

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juca

e como trump agiria se grupos paramilitares tentassem derrubar seu governo, como acontece com maduro?

não pera, isso nao pode acontecer pois quem inflama esse grupos sao os proprios EUA ;)