Euler de França Belém
Euler de França Belém

Doutor pela UnB revela a cadeia de comando militar que combateu a Guerrilha do Araguaia

Vistos como protagonistas no combate aos militantes do PC do B, o capitão Sebastião Curió e o major Lício Maciel não pertenciam ao comando que decidiu combater e matar os guerrilheiros

Emílio Garrastazu Medici, Ernesto Geisel, Orlando Geisel e Sylvio Frota: os presidentes e seus ministros do Exército decidiram que os guerrilheiros do PC do B deveriam ser mortos, e não necessariamente em combate | Fotos: Wikipédia Commons

Emílio Garrastazu Medici, Ernesto Geisel, Orlando Geisel e Sylvio Frota: os presidentes e seus ministros do Exército decidiram que os guerrilheiros do PC do B deveriam ser mortos, e não necessariamente em combate | Fotos: Wikipédia Commons

Vulgarizou-se, na e fora da imprensa, que o Ma­jor Curió — Sebastião Rodrigues de Moura — é o símbolo-mor do combate militar à Guerrilha do Araguaia (1972-1975). Às vezes cita-se o tenente-coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel. Porém, se de fato combateram os guerrilheiros, ambos foram figuras secundárias — em termos de comando, de definição de estratégias e táticas. Em “Em Algum Lugar das Selvas Amazô­nicas: As Memórias dos Gue­rrilheiros do Araguaia”, tese considerada a melhor de 2014 pelo Colegiado do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB), o jornalista e historiador Hugo Studart revela, pela primeira vez, a verdadeira de Cadeia de Comando, com nomes identificados por documentos ou testemunhos orais. A Cadeia de Comando é “uma das questões mais ocultas” da batalha que ocorreu no Norte de Goiás (Tocantins) e no Sul do Pará.

Studart ressalta “que os militares deflagraram seis diferentes operações” de combate aos militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) “ao longo de quatro anos (1972-1975), cada uma delas com sua própria cadeia de comando e com chefes operacionais e agentes distintos”: 1ª — Operação Peixe e Ou­riço; 2ª — Operação Presença; 3ª — Operação Papagaio; 4ª — O­peração Sucuri; 5ª — Operação Ma­rajoara; e 6ª — Operação Limpeza.

“De comum”, registra o doutor em história, “basicamente os cabeças da cadeia de comando, a começar por dois generais-presidentes da República, Emílio Garrastazu Médici (1972-1973) e Ernesto Geisel (1974-75)”. Studart sublinha que, “em muitos momentos, os nomes dos comandantes ou dos principais agentes das operações na região se repetem, contudo, com postos e funções diferentes”.

As Forças Armadas “não eram monolíticas” e tropas regulares en­traram em choque com a Co­mu­nidade de Informações. “O teatro de operações ora estava sob o hegemonia de um grupo; ora sob hegemonia de outro, mas o comando de um ou de outro jamais foi absoluto.” Os conflitos produziram “duas estratégias distintas de repressão aos guerrilheiros do Araguaia, com consequências diretas sobre o maior ou menos grau de práticas de violações aos Direitos Humanos”, anota Studart.

Inicialmente no comando, as tropas regulares “reprimiram a guerrilha buscando seguir as chamadas Leis da Guerra e as Con­venções de Genebra. Os guerrilheiros que foram presos, sobreviveram. Os que morreram, pelo menos tecnicamente, tombaram em combate na mata”. Entre os sobreviventes está o ex-deputado José Ge­noino, do PT. Studart admite que, mesmo nessa fase, houve excessos, “como prisões arbitrárias e violências contra camponeses, o suposto ‘suicídio’ de dois camponeses que estavam presos, uma guerrilheira que poderia ter sido presa mas restou fuzilada”. Mas não há indícios de que havia uma política deliberada do Estado para “exterminar” os integrantes do PC do B.

Em 1972, início dos combates, os militares mataram 12 guerrilheiros — dez deles em combate. Suspeita-se, aponta Studart, “que as guerrilheiras Maria Lúcia Petit da Silva e Helenira Resende Nazareth tenham sido executadas depois de feridas. Somente os corpos de Bergson Gurjão e de Maria Lúcia Petit foram encontrados, ambos no Cemitério de Xambioá um ao lado do outro”.

Ao contrário de outros autores, Studart sugere que as “práticas de exceção institucionalizadas e generalizadas… ocorreram como ‘política oficial’ apenas na Operação Mara­joara. Os comandantes disseram aos subordinados que não deviam fazer prisioneiros; deviam executá-los”. O pesquisador registra que foram mortos de 20 a 25 guerrilheiros em confrontos armados. “E entre 25 e 30 foram aprisionados. Quanto a esses, findaram quase todos executados pelas equipes de inteligência militar, por ordens de Brasília, decisão essa que teria sido tomada pelo presidente Emílio Médici em conjunto com o ministro Orlando Geisel.”

Operação Marajoara

Durante a Operação Mara­joara, a mais sangrenta, “47 guerrilheiros desapareceram no Ara­guaia. A essa conta, deve-se somar a dos camponeses mortos ou desaparecidos, provavelmente 25 na terceira campanha”, escreve Studart. A operação destroçou, de vez, a guerrilha (o Jornal Opção concentra-se nessa operação, mas Studart examina as outras).

O pesquisador diz que só foram divulgados três fragmentos de documentos sobre a Operação Mara­joara. Um pela jornalista e pesquisadora Taís Morais e dois por Studart.

Os nomes dos militares que participaram da Operação Marajoara eram um segredo de Estado, até a pesquisa de Studart listá-los. Antes de sua tese, eram citados o tenente-coronel Lício Maciel, o coronel Aluísio Madruga de Moura e Sousa (te­nente e, ao final, capitão na época da guerrilha), o tenente-coronel Se­bastião Rodrigues de Moura, o Ma­jor Curió, e mais alguns. Os sargentos João Santa Cruz e José Vargas Jiménez eram praças. Deles somente Lício Maciel e Curió participaram “da cadeia de comando da Ma­ra­joara”. Mas não eram chefões e não definiram a estratégia de “matar todos” e “não fazer prisioneiros”.

Uma das principais revelações da tese de Studart, a lista da Cadeia de Comando e dos comandos operacionais da Operação Marajoara — de 3 de outubro de 1973 a 30 de se­tem­bro de 1974 — é divulgada a seguir. Ressalte-se que, embora alguns já tenham sido mencionados noutros livros, é a primeira vez que se traça com precisão a cadeia de comando, incluindo os chefes operacionais.

O chefe do Centro de Infor­mações do Exército (CIE), general Milton Tavares, o Miltinho, revelou ao ministro do Exército Orlando Geisel, em setembro de 1973, o mapeamento dos guerrilheiros e “apresentou duas alternativas ao desfecho do caso. Ou tentaria prendê-los e levá-los para Brasília. Ou deixaria todos mortos por lá”.

O presidente Emílio Médici confirmou, em depoimento ao Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas, “que foi ele quem deu ordens ao ministro Orlando Geisel de eliminar os ‘terroristas’ quando em combate aberto”. Studart ressalta que o presidente-general estava se referindo à guerrilha urbana. Em 1997, o coronel Pedro Corrêa Cabral, autor do romance histórico “Xambioá — Guerrilha no Araguaia” (Record, 252 páginas, de 1993), concedeu uma entrevista ao Jornal Opção na qual disse que o presidente Médici dera ordens para não se fazer prisioneiros no Araguaia. O título da reportagem é: “A ordem para matar era de Médici, diz coronel”. Na guerrilha, capitão-aviador da Aeronáutica, Pedro Cabral não fazia parte do comando.

Depois da primeira conversa, Orlando Geisel convocou Milton Tavares para uma conversa. Mil­tinho retornou da “conversa privada”, no gabinete do ministro do Exército, “transmitindo aos subordinados a ordem de executar uma nova operação no Araguaia, na qual ninguém deveria sair vivo de lá”.

Estava decidida a Operação Marajoara, comandada pelo CIE. Durante um ano, 750 homens das tropas de elite do Exército foram empregados no combate aos guerrilheiros. Militares de outras unidades também foram destacados para a região.

O CIE, conta Studart, montou “um organograma detalhado da cadeia de comando das operações. Haveria um comandante da operação, sediado em Brasília, um coordenador-geral, deslocado para Marabá, e um coordenador-adjunto. Subordinados a eles, dois outros organogramas detalhados. Um para o Comando de Opera­ções na Área Sul, cuja sede seria na Base Militar de Xambioá. Outro para as Operações na Área Norte, na Base Militar de Bacaba”.

A cadeia de comando

Studart sugere que teria sido do presidente Emílio Médici “a decisão final de executar todos os prisioneiros do Araguaia”. O pesquisador assinala que, “entre outubro de 1973 e março de 1974” [quando passou o governo para o presidente Ernesto Geisel], de “10 a 15 guerrilheiros do Araguaia teriam sido executados depois de presos”.

Ernesto Geisel assumiu a Presidência em 15 de março de 1974, “quando a caçada aos guerrilheiros estava em seu ápice. Entre março de 1973 e setembro de 1974, cerca de 15 guerrilheiros teriam sido executados depois de presos”.

Teria sido do ministro do Exército do governo Médici, Orlando Geisel, “a decisão de eliminar todos os guerrilheiros do Araguaia, tomada em conjunto com o presidente Emilio Médici. Entre 8 e 12 guerrilheiros do Araguaia teriam sido executados durante seu comando”.

O ministro do Exército do governo de Ernesto Geisel, Sylvio Frota, deu continuidade à política de extermínio. “Entre 8 e 12 prisioneiros do Araguaia teriam sido executados já sob seu comando.”

O ministro da Aeronáutica do governo Médici, brigadeiro Joelmir Campos de Araripe Macedo, embora não fosse da linha dura, “prestou apoio à repressão política em todos os momentos”.
O general Milton Tavares, chefe do CIE até dezembro de 1973, “con­­cebeu e comandou a Operação Ma­rajoara em seu início”. Teria su­gerido a Orlando Geisel a ideia de não se fazer prisioneiros no Araguaia.

O general Confúcio de Paula Avelino, chefe do CIE, seguiu a determinação do chefe anterior, Milton Tavares. “Todas as execuções de prisioneiros, entre 25 e 30 no total, teriam ocorrido sob seu comando”, relata Studart. Miltinho havia deixado o CIE.

O general Sílvio Ferreira da Silva assessorou Milton Tavares e Confúcio de Paulo Avelino no CIE.
O general Hugo de Abreu “coordenou o treinamento de forças especiais” que combateram no Araguaia. Suas tropas não interrogavam os prisioneiros, atividade que deixara para as equipes de inteligência do CIE.

O brigadeiro Newton Vassallo da Silva chefiou o Centro de In­formações e Segurança da Aero­náutica (Cisa) “no início da repressão à Guerrilha do Araguaia, em março de 1972”. Continuou no cargo no governo Geisel.

O brigadeiro Roberto Faria Lima, chefe do Comando Geral do Ar, “coordenou, em outubro de 1973, a operação secreta de desembarcar tropas descaracterizadas no Araguaia, em apenas dois dias, dando início à Operação Mara­joara”. Era um militar liberal.

Os chefes operacionais

O coronel Carlos Sérgio Torres, chefe de Operações do CIE, “é apontado”, escreve Studart, “como o principal responsável pela concepção estratégica e tática da Operação Marajoara”. Ele chefiava “pessoalmente as esquipes de inteligência” na região da guerrilha. “Acom­pa­nhava cada episódio de perto, inclusive tomando conhecimento prévio dos prisioneiros que seriam executados.”

O coronel aviador Paulo Ro­ber­to Camarinha, comandante da Base Aérea de Belém entre 1973 e 1974, deu “apoio direto ao Exército du­rante toda a Operação Marajoara”.

O tenente-coronel Wilson Brandi Romão, chefe do Estado Maior das Operações no Araguaia, era o coordenador-geral da Ope­ração Marajoara e comandante da chamada Casa Azul. Seu codinome era Dr. Zico. Ele “determinou prisões artibrárias de todos os chefes de família da região, que em sua maioria foram espancados. Tam­bém foi sob seu comando que o Exército começou a recrutar camponeses e índios como guias ou como jagunços. Durante seu período, 11 guerrilheiros morreram, sendo que 10 em combate com militares e um deles caçado por jagunços. Dos 11 mortos, três deles foram decapitados. Não teria ocorrido execuções de prisioneiros sob seu comando”.

Indicado pelo general Milton Tavares, o tenente-coronel Flávio Demarco (codinome Tio Caco), da Comunidade de Informações, substituiu Wilson Brandi Romão como coordenador-geral da Operação Marajoara. Ficou “na chefia geral até o final, em fins de setembro”. Studart sustenta que “nenhum prisioneiro era executado sem sua prévia ordem expressa. De seu período na coordenação-geral, restam 36 guerrilheiros mortos ou desaparecidos. Cerca de 25 deles teriam sido presos e depois executados”.

O tenente-coronel aviador Jonas Alves Corrêa, “especialista em recrutar militantes das organizações da luta armada, acompanhou os conflitos no Araguaia desde a primeira fase, a partir de Brasília”. Esteve uma vez no Araguaia.

Equipes de Operações de Combate

O capitão Sebastião Curió e o major Lício Maciel, vistos como figuras centrais, eram militares subalternos no combate à Guerrilha do Araguaia. Foram atuantes, suas equipes mataram guerrilheiros, mas não eram chefões | Fotos: Divulgação

O capitão Sebastião Curió e o major Lício Maciel, vistos como figuras centrais, eram militares subalternos no combate à Guerrilha do Araguaia. Foram atuantes, suas equipes mataram guerrilheiros, mas não eram chefões | Fotos: Divulgação

Oficiais superiores dirigiam as Operações de Combate.

O tenente-coronel Hydino Sar­denberg Filho,o Dr. Santoro, “chegou ao Araguaia em junho de 1972 como major. Na terceira campanha, como tenente-coronel, era o representante do general Hugo de Abreu no Araguaia e comandante-geral dos paraquedistas da região”. Em termos operacionais, estava subordinado aos coordenadores-gerais, Wilson Romão e Flávio Demarco. Mas “reportava-se diretamente ao ministro Orlando Geisel”. O ministro Sylvio Frota retirou-lhe este “privilégio”. “Teria sido sua a proposta do Exército combater com roupas descaracterizadas. Teria dado ordens expressas aos paraquedistas de ‘combater com dureza’.

Suas equipes são responsáveis pela maior parte dos guerrilheiros mortos em combate na mata. Mas também não permitia que seus subordinados interrogassem prisioneiros. Os guerrilheiros vivos eram entregues imediatamente às equipes do CIE”. Segundo Studart, “não há qualquer notícia de que tenha participado diretamente de atos de exceção no Araguaia”.
O major Celso Seixas Marques Ferreira, paraquedista Dr. Brito, era o adjunto do tenente-coronel Hydino Sardenberg. “Atuava em contato direto com os guias.”

O major Carlos Alberto Di Primio foi o primeiro chefe de Operações do Sul, com base em Xambioá. “Tombaram em sua área de atuação os guerrilheiros Arildo Valadão (morto e decapitado por camponeses), Adriano Fonseca e Jaime Petit da Silva, os dois últimos mortos em combate com paraquedistas e depois decapitados pelos militares”, relata Studart.

O major Nilton de Albuquerque Cerqueira (sua equipe matou o capitão Carlos Lamarca), logo promovido a tenente-coronel (chegou a general), foi o segundo chefe de Operações do Sul, entre dezembro de 1973 e abril de 1974. Foi escolhido pelos generais Milton Tavares e Hugo de Abreu (sua equipe havia matado o capitão Carlos Lamarca, na Bahia). Comunicava-se diretamente com o ministro Orlando Geisel. “Aprofundou a tática de recrutar camponeses como guias-caçadores de guerrilheiros. Apesar das equipes de guerra na selva terem sido responsáveis pelo maior número de baixas dentre os guerrilheiros, foram as equipes de Cerqueira que mataram o comando militar da guerrilha, no Chafurdo de Natal, e Osvaldão, entre outros, totalizando 15 mortos. Além da prisão de outros 10. Não há relatos de que Cerqueira ou seus homens tenham participado de interrogatório de prisioneiros, ou de execuções”. Mas “cortaram cabeças e deixaram corpos insepultos na mata”. Seu codinome era Faixa Branca.

Milton Tavares, o general teria sugerido ao ministro do Exército que se capturassem ou se matassem os guerrilheiros do Araguaia | Reprodução

Milton Tavares, o general teria sugerido ao ministro do Exército que se capturassem ou se matassem os guerrilheiros do Araguaia | Reprodução

O major Lício Augusto Ribeiro Ma­ciel “foi o primeiro chefe de Operações do Norte, o E-3, baseado em Bacaba. Chefiava pessoalmente a equipe que matou os guerrilheiros André Grabois, João Gualberto Calatroni e o camponês Antônio Alfredo Lima, ferindo também o guerrilheiro Divino Ferreira de Souza [goiano, usava o codinome Nunes], que depois veio a falecer em Marabá”.

O tenente-coronel Leo Fre­de­rico Cinelli era, na terceira campanha, “o principal oficial de ligação entre o CIE e as operações no Araguaia, em especial as equipes de inteligência da Casa Azul” (onde presos eram interrogados e torturados). “Teria concebido a Operação Mortos-Vivos e, depois, a Operação Limpeza”. Segundo o Major Curió, era o “principal oficial de inteligência no Araguaia”.

O tenente-coronel Felipe Jorge (chegou a general), que ficava na Casa Azul, atuou como “observador do Comando Militar da Ama­zônia junto ao Araguaia”.

O major José Brant Teixeira, o Dr. César, foi atuante no Araguaia. “Era especialista no recrutamento de informantes.” Studart informa que, “na Operação Marajoara, era um dos observadores do CIE que ficava na Casa Azul. Foi ele quem recrutou os três primeiros mateiros como jagunços”. Eles mataram Arildo Valadão. Brant teria participado da Operação Limpeza, em 1975. O Major Curió revelou que “a guerrilheira Áurea Elisa Valadão e o camponês Batista teriam sido entregues a Brant antes de desaparecerem”. Ele teria levado “a guerrilheira Dinalva Conceição Teixeira, Dina, para execução”.

O major Roberto Sampaio Lou­reiro, o Dr. Ricardo ou Ricardão, subchefe de Operações do CIE em Brasília, “esteve na Casa Azul muitas vezes”.

O major Leônidas Soriano Cal­das, do CIE, chefiou, na Operação Marajoara, as equipes Jiboia e Zebra. As operações “tinham” a missão de “interrogar e executar prisioneiros”.

Militares subalternos

O capitão Sebastião Rodrigues de Moura, codinomes Curió e Dr. Luchini, era, na Terceira Campanha, “subchefe do major Lício Maciel”. Quando este saiu, assumiu a chefia da “equipe de inteligência baseada em Bacaba. A partir de janeiro de 1974, passou a coordenar também uma das duas equipes de operações especiais que tinha por missão interrogar e executar prisioneiros. Nessa função, estava diretamente subordinado ao major Caldas. Sua equipe teria sido responsável pela execução de 10 a 12 prisioneiros. Há indícios de que Curió teria executado pessoalmente pelo menos três deles: Antônio Theodoro Castro, Cilon Cu­nha Brum e Suely Komaiana. Há testemunhos de camponeses de que também estaria presente na execução de Dinaelza Santana Coqueiro. Participou da Operação Limpeza, subordinado ao capitão Brant”, anota Studart. Não foi o grande co­mandante da repressão no Ara­guaia, ao contrário do que se costuma pensar. “Curió era o 26º na ca­deia de comando”, frisa o pesquisador.

O subtenente João Pedro do Rego, codinome J. P. e Javali So­litário, “sob o comando do capitão Moura (Curió), teria sido corresponsável pela tortura e execução de 10 a 12 prisioneiros. Rego teria participado da execução da guerrilheira Lúcia Maria de Souza, a Sônia”.

Lotado no CIE, o sargento Joaquim Artur Lopes de Souza, codinome Ivan, era ligado ao general Bandeira. “Conquistou no Araguaia uma autonomia operacional rara até mesmo para oficiais superiores. Infiltrado no Desta­camento B da guerrilha do PC do B, tornou-se amigo de Osvaldão. “Teria sido responsável pela execução de 12 a 15 prisioneiros, como as guerrilheiras Dinalva Conceição Teixeira e Luiza Augusta Garlipe.”

O sargento José Conegundes do Nascimento, o Cid, do CIE, atuou com o major Lício Maciel. “Participou dos episódios das mortes, em combate, dos guerrilheiros André Grabois, João Gualberto Calatroni, Antônio Alfredo Lima e Divino Ferreira de Souza. Também estava com Lício por ocasião da morte de Lúcia Maria de Souza.”

O sargento João da Santa Cruz Sarmento era o homem de confiança do capitão Curió. “Partcipou da equipe de operações especiais do CIE que interrogou e executou prisioneiros em Bacaba”, escreve Studart.

O sargento José Vargas Jiménez, o Chico Dólar, trabalhou com o capitão Curió. “É o responsável pela prisão do guerrilheiro Antônio de Paiva Costa, desaparecido. Teria torturado prisioneiros.”

Outros militares que participaram do combate à Guerrilha do Araguaia: Álvaro Esteves Caldas, coronel do Exército; Francisco Assis Lopes, coronel-aviador; Ary Presser Bello, tenente-brigadeiro-do-ar, membro do Alto Comando da Aeronáutica; Borges, tenente-coronel, E-2 (Inteligência); Breno Borges Fortes, general-de-exército, chefe do Estado-Maior do Exército; Carlos Masani Kitsuta, comandante, fuzileiro naval; Francisco da Ressurreição de Castro, major de infantaria do Exército, chefe da 2ª Seção do Comando Militar da Amazônia; Edmundo Drummond Bittencourt, vice-almirante, comandante da Força de Fuzileiros Navais da Esquadra; Enio Martins Senna, coronel do Exército; Flaris Guedes Henriques de Araújo, tenente-coronel; Gastão Baptista de Carvalho, tenente-coronel do Exército, comandante da Operação Peixe; Hamilton Ribeiro Saldanha de Menezes, major da 8ª Região Militar, do Exército, relator da Missão Xambioá; Herbert, major do Exército; Honório Pinto Ferreira, tenente-brigadeiro-do-ar, membro do Alto Comando da Aeronáutica e Ítalo Regis Pinto, maior-aviador, chefe da Seção de Análise do Campo Psicossocial do Cisa.

Nenhum outro estudo conseguiu reunir, de maneira precisa, tantos nomes de militares que participaram da Guerrilha do Araguaia. Sobretudo, Studart revelou, pela primeira vez, a cadeia real de comando no combate aos militantes do PC do B.

O capitão Curió e o major Lício Maciel, às vezes apontados como protagonistas em termos de comando, eram basicamente chefes operacionais do combate direto aos guerrilheiros. O comando verdadeiro ficava mais distante e acima. A citação profusa de Curió e Lício Maciel (não há evidência de que tenha torturado ou matado fora de combate) “esconde” a chefia real e que as ações de militares no Araguaia não eram decisões isoladas de um suposto “porão”, e sim determinações emanadas de Brasília e de oficiais graduados que estavam na região do Araguaia.

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Oliveira

Os comunistas mataram mais de 100 milhões de pessoas e vocês estão reclamando de 15 guerrilheiros comunistas que o militares mataram? VÃO CATAR COQUINHOS!!!!

Eduardo Castro

Fotos do coronel Licio Maciel, não e de divulgação, é de Eduardo Castro, do documentário Guerrilha do Araguaia, as faces ocultas da historia