Euler de França Belém
Euler de França Belém

Doutor Jivago, de Boris Pasternak, ganha tradução de Sonia Branco (prosa) e Aurora Fornoni Bernardini (poesia)

O romance é uma crítica corrosiva da destruição do indivíduo pelo totalitarismo comunista

Montagem

Boris Pasternak (1890-1960) era poeta. Um grande poeta russo. Ióssif Stálin o admirava e, por isso, sobreviveu. Stálin admirava outros prosadores e poetas e não teve nenhum pejo em mandar matá-los ou aprisioná-los. Há forte suspeita de que Maksim Górki, escritor laureado do comunismo, tenha sido envenenado. Havia se tornado maldito de uma hora para outra. O ditador totalitário desconfiava até de sua sombra. Pasternak era vigiado, o regime proibia suas publicações (sobrevivia traduzindo, inclusive Shakespeare), mas, de algum modo, era “protegido”. O sucessor de Lênin parecia temer os poetas, sobretudo os grandes.

Fora da União Soviética, finada desde 1991, Pasternak se tornou mais conhecido, não pela poesia, altamente sofisticada, e sim pela romance “Doutor Jivago”. Parece, na forma, o trato do conteúdo, um daqueles livrões do século 19 russo. Uma espécie de simulacro de, quem sabe, “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, e, aqui e ali, “Pais e Filhos”, de Ivan Turguêniev. Perto de sua poesia, talvez seja mesmo uma obra menor. Mas uma obra menor às vezes é maior do que muitas obras. É provável que seja o caso.

Há quem diga que “Doutor Jivago” é uma vingança literária contra o stalinismo — que tragou, entre outros, Isaac Bábel e Óssip Mandeltam (sobre o qual Pasternak e Stálin travaram um diálogo tão dramático quanto enigmático). De fato, é. Trata-se mesmo de um romance-vingador (“Os Sertões” do comunismo). Um belo romance, por sinal. O médico Iúri Jivago é o indivíduo que tenta se preservar íntegro — que tenta se preservar (como) indivíduo sob um regime que dissolvia o indivíduo em nome do coletivo; na verdade, para ficar à mercê do controle do Estado — e é destroçado pelo sistema.

O leitor brasileiro tem sorte, até muita sorte. “Doutor Jivago” (Record, 630 páginas) foi traduzido com esmero por Zoia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes, em 2002. As poesias acopladas ao romance ganharam tradução do notável Marco Lucchesi, o que valoriza a qualidade da edição. Agora, nas comemorações dos 100 anos da Revolução Russa de 1917, a Companhia das Letras patrocina uma nova edição de “Doutor Jivago” (616 páginas), com tradução a cargo de Sonia Branco (a prosa) e Aurora Fornoni Bernardini (a poesia), professoras de Russo e das mais gabaritadas tradutoras do país. Como têm experiência com tradução de prosa e poesia, a edição deve ser, muito provavelmente, altamente qualificada.

O romance foi publicado na Europa em 1957, graças ao editor italiano Giacomo Feltrinelli, que o contrabandeou para fora da União Soviética. Os soviéticos só puderam ler o livro, numa versão russa, em 1987, durante a glasnost do governo de Mikhail Gorbachev. Isto resume o que é uma ditadura totalitária, que também impediu a publicação de “Vida e Destino” (Alfaguara, 920 páginas, tradução de Irineu Franco Perpétuo), de Vassili Grossman, durante anos.

Aos que dizem não ter tempo para ler, e perdem um tempo infinito dizendo isto, recomenda-se o belo filme “Doutor Jivago”, do diretor britânico David Lean, com Omar Sharif (Jivago), Julie Christie (Lara) e Geraldine Chaplin. A ressalva é que o filme não consegue capturar a poesia do romance. Mas capta bem como a falta de liberdade individual pode destroçar o amor, a vida.

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