Euler de França Belém
Euler de França Belém

Dossiê soviético garante que Hitler tomou cianureto e atirou em si. Não fugiu para a Argentina

A pesquisa rigorosa foi encomendada ao serviço secreto pelo ditador Stálin

Este é o livro mais completo sobre o que realmente aconteceu com Hitler em 1945, quando se matou com um tiro e cianureto. É o resultado de uma pesquisa encomendada por Stálin, que exigiu informações objetivos

Este é o livro mais completo sobre o que realmente aconteceu com Hitler em 1945, quando se matou com um tiro e cianureto. É o resultado de uma pesquisa encomendada por Stálin, que exigiu informações objetivos

Jornalistas argentinos são mestres na “arte” que mistura história com ficção, com a segunda quase sempre sobrepujando a primeira. Vários de seus livros garantem que Adolf Hitler não se matou, na Alemanha, e fugiu para a Argentina, onde morreu. Não há nenhuma evidência disso. Nenhuma. O que há são muitos boatos que alimentam e fortalecem boatos.

O leitor que quiser de fato ler dois livros sérios sobre a morte de Hitler — com todas as evidências apresentadas com o máximo de clareza, atendo-se aos fatos, e fugindo da boatolândia — deve consultar a biografia “Hitler”, de Ian Kershaw, e “O Dossiê Hitler — O Führer Segundo as Investigações Secretas de Stálin” (Record, 627 páginas, tradução de Kristina Michahelles), de Henrik Eberle e Matthias Uhl (organizadores).

 

O livro de Ian Kershaw é a verdadeira bíblia sobre Hitler. O que há de importante para a história está no livro do historiador inglês. Nada ou quase nada escapa-lhe. A edição publicada no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Pedro Maia Soares, é a edição condensada pelo próprio pesquisador. Tem 1160 páginas. A obra garante: Hitler matou-se na Chancelaria do Reich, no dia 30 de abril de 1945, em Berlim, e seus ossos foram levados para Moscou pelos comunistas de Stálin. Este “recebeu a notícia sobre o suicídio cerca de 13 horas depois”. Ne­nhuma outra versão é levada a sério pelo autor e pelos demais historiadores qualificados — como Richard Evans, Allan Bullock, Richard Evans, Andrew Roberts e Antony Beevor.

Mas não há nada melhor, ao menos em português, do que “O Dossiê Hitler”. “Este é um importante documento; a partir de agora, terá lugar garantido entre as fontes sobre a vida de Hitler”, escreveu Ian Kershaw. O fantasma de Hitler na Argentina desaparece, em questão de segundos, quando o leitor abre as primeiras páginas deste livro. Stálin tinha verdadeira fascinação por Hitler e queria saber tudo a seu respeito, mesmo depois da morte do ditador nazista. Mandou prender aqueles que estavam com Hitler no bunker e levou-os para Moscou, tratando-os com extrema brutalidade. As principais fontes do livro — baseado na pesquisa encomendada por Stálin — são Heinz Linge e Otto Günsche, dois dos assistentes mais próximos de Hitler. O dossiê foi organizado pela Operação Mito.

Corpo carbonizado do ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, um dos  nazistas mais proeminentes, antes da autópsia feita pelos médicos soviéticos

Corpo carbonizado do ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, um dos
nazistas mais proeminentes, antes da autópsia feita pelos médicos soviéticos

Os oficiais da SS Heinz Linge e Otto Günsche receberam ordens de Hitler para “incinerar seu cadáver” e o de Eva Braun, sua mulher. Eles deram vários depoimentos aos soviéticos (separadamente, e sem contradições) — até que se pudesse formatar o texto definitivo do dossiê, a cargo do coronel Fiódor Karpovitch Parparov. “O ‘Dossiê Hitler’ tornou-se um documento ao mesmo tempo único e insólito: apoiado no material de dois SS-Sturmbannführern, um grupo de autores do serviço secreto soviético trabalhou mais de quatro anos na biografia de Hitler, até adequá-la aos hábitos de leitura de quem a encomendou” (Stálin).

Eis um relato sobre a descoberta dos corpos de Hitler e Eva Braun: membros do serviço secreto soviético “desenterraram os restos mortais de Hitler e de sua mulher nos jardins da Chancelaria do Reich. Os soldados do serviço de contra-espionagem militar Smersch do 79º Corpo de Fuzileiros do 3º Exército haviam descoberto os cadáveres na véspera. No entanto, como supunham que os restos mortais de Hitler e de Eva Braun ainda estivessem na Chancelaria do Reich, voltaram a enterrar os corpos. Na manhã de 5 de maio [de 1945], o pessoal do serviço secreto percebeu o erro e desenterrou apressadamente de dentro de uma cratera de bomba, situada a aproximadamente três metros de distância da saída de emergência do bunker sob a Chancelaria do Reich, ‘dois corpos carbonizados’ e os cadáveres de dois cachorros. Os restos mortais foram embrulhados em cobertas e embalados em caixas de munição. Os cadáveres foram contrabandeados em segredo pelos colaboradores do Smersch para o seu novo QG em Berlim-Buch”.

Heins Linge e Otto Günsche: oficiais da SS que deram informações precisas aos soviéticos sobre o suicídio de Adolf Hitler, em 1945. Não falsearam os dados

Heins Linge e Otto Günsche: oficiais da SS que deram informações precisas aos soviéticos sobre o suicídio de Adolf Hitler, em 1945. Não falsearam os dados

Os soviéticos localizaram os dentistas Hugo Blaschke e Käthe Heusermann, que “confirmaram, no dia 11 de maio, que eram mesmo os “corpos de Adolf Hitler e Eva Braun”. O Smersch relatou, por fim, que o ditador e sua mulher “tinham cometido suicídio por ingestão de cianureto”. E Hitler havia atirado em si mesmo. Detalhe: o líder nazista tinha muito medo de que os soviéticos pudessem pegá-lo vivo.

Como o “Dossiê Hitler” era para consumo de Stálin, o serviço secreto soviético não tinha interesse nenhum em inventar histórias. Os livros sobre Hitler na Argentina, pelo contrário, são ficção — e, pior, má ficção.

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