Euler de França Belém
Euler de França Belém

Dom Helder Câmara, de fascista a esquerdista, deve se tornar santo católico

O arcebispo de Olinda e Recife era um defensor dos pobres. Contraditório, apoiou o integralismo de Plínio Salgado, a ditadura de Getúlio Vargas, criticou a ditadura dos militares pós-1964 e pediu censura para filme de Martin Scorsese

Dom Hélder Câmara, religioso do establishment da Igreja Católica, pode se tornar santo ainda este ano

Um filósofo não muito requestado disse uma frase que é um marco do realismo: “Quer pureza? Não vá ao convento”. Não é uma crítica aos conventos, e sim uma constatação de que não há pureza em lugar algum. Por que, tendo uma vida desregrada, ainda assim Agostinho, padre e intelectual da Igreja Católica, se tornou santo? Porque, tendo experimentado a vida e buscado redenção por intermédio da religião e das coisas do espírito, tinha uma compreensão mais acurada da vida e, deste modo, poderia ter uma visão mais distanciada e compreensiva das falhas humanas (afinal, como assinala uma escritora, “não é possível fazer o bem apenas aos inocentes”). Fez algum milagre? É possível, considerando o que a Igreja Católica e seus adeptos entendem por milagre — o que, independentemente da religião que se tenha ou se se é ímpio, merece ao menos respeito. Dom Hélder Pessoa Câmara (1909-1999), que foi bispo auxiliar do Rio de Janeiro e arcebispo de Olinda e Recife, merece ser considerado santo pela Igreja Católica? Religiosos brasileiros e de outros países acreditam que sim. Em Roma, comenta-se que deve ser finalizada, no primeiro semestre de 2017, a primeira fase do processo de canonização.

Há duas etapas para que a Igreja Católica santifique uma pessoa. Na fase diocesana, examina-se a história pessoal do santificável e elabora-se um documento que é enviado ao Vaticano. Aí o Vaticano indica um relator. Se comprovado um milagre, o religioso se torna beato. O processo de beatificação já foi aceito pela cúpula da Igreja Católica. Para que dom Hélder se torne santo, é preciso comprovar que tenha feito pelo menos dois milagres.

O frei Jociel Gomes, um dos articuladores do processo de canonização, disse ao “Correio Braziliense”: “Dom Hélder atuou na proteção dos mais fracos durante o regime militar e foi muito difícil. Ele era opositor de todo aquele sofrimento, das torturas e das violações contra a liberdade de expressão. Ele sempre pensava nas necessidades que as pessoas mais pobres passavam. A lição que ele nos deixa é que devemos realizar o enfrentamento por meio do Evangelho. Os cristãos devem se preocupar com a sociedade, não apena com os próprios problemas. Toda essa vida voltada aos necessitados nos fez pedir sua santificação”.

Religioso complexo

Dom Hélder é um religioso dos mais complexos: começou a atuar politicamente como integralista — quer dizer, como fascista —, liderado pelo escritor Plínio Salgado, e, a partir da década de 1960, aproximou-se da esquerda, definindo-se como socialista, defensor de uma “socialismo de face humana”.

A pesquisadora Verônica Veloso, no incontornável “Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro Pós-1930”, da Fundação Getúlio Vargas, sintetiza a biografia de Hélder Câmara, que será usada neste texto. Nascido em Fortaleza, em 1909, Hélder Câmara se tornou padre em 1931. Organizou a Juventude Operária Cristã, que se integrou à Legião Cearense do Trabalho, “inspirada no salazarismo português”. Daí, o religioso aderiu à Ação Integralista Brasileira, de extrema direita e com forte simpatia pelo fascismo italiano e pelo nazismo alemão.

Anticomunista, mas também crítica do capitalismo e do liberalismo, a AIB conquistou o apoio do jovem padre.

Ao assumir a chefia do setor de educação da AIB no Ceará, o padre Hélder disse que era “comunista” um manifesto elaborado pelos ideólogos da Associação Brasileira de Educação, como Anísio Teixeira e Manuel Lourenço Filho. Em 1933, quando o país, no governo de Getúlio Vargas, se preparava para eleger os integrantes da Assembleia Constituinte, a Liga Eleitoral Católica, criada pelo cardeal dom Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro, patrocinou candidatos em todas as regiões. O padre Hélder fez campanha em todo o Estado do Ceará, pedindo apoio para candidatos conservadores, contrários, por exemplo, ao divórcio.

Eleito Francisco de Meneses Pimentel para o governo, o padre Hélder assume o cargo de diretor do Departamento de Educação do Ceará, em 1935. Porém, atritado com o governador, deixa sua equipe e aceita assessorar o secretário da Educação do Distrito Federal, Francisco Campos (autor da Constituição de 1937, a fascista Polaca). Muda-se para o Rio de Janeiro.

O cardeal dom Sebastião Leme decidiu afastá-lo das atividades políticas, inclusive da militância no integralismo, e o padre Hélder assumiu a diretoria-técnica do ensino de religião da arquidiocese, “com a missão de implantar o ensino religioso nas escolas públicas do Rio de Janeiro”.

Vocacionado para o serviço público, o padre Hélder foi nomeado, em 1937, para a seção de Medidas e Programas do Instituto de Pesquisas Educacionais do Distrito Federal. Em 10 de novembro de 1937, com o pretexto de combater o “golpe comunista” — uma fantasia criada com o apoio do integralista Olímpio Mourão Filho, o militar que criou o Plano Cohen, suposta ameaça de golpe dos reds patropis —, Getúlio Vargas fecha o Congresso, outorga uma Constituição e cria o Estado Novo.

Plínio Salgado e o padre Hélder apoiaram o golpe de Getúlio Vargas — que levou várias pessoas à prisão (já antes do Estado Novo, depois da Intentona Comunista, o governo, ainda dito democrático, deteve várias pessoas, entre elas o escritor Graciliano Ramos, que contou a história das prisões arbitrárias no livro “Memórias do Cárcere”). Convidado por Plínio Salgado, e liberado pelo cardeal Leme, o padre Hélder tornou-se integrante do conselho supremo da Ação Integralista Brasileira. Como a AIB só tinha 12 membros, fica registrada a importância do religioso como fascista. Logo Getúlio Vargas baniu os partidos políticos e a AIB, proscrita, rebelou-se, inclusive tentou um golpe de Estado.

O que explica o fascismo do padre Hélder? O religioso definiu sua militância integralista como “um erro de juventude”. “O aspecto social não era o forte de meus mestres”, disse. “Tanto assim que a nossa visão era a de que o mundo se dividiria entre direita e esquerda, entre capitalismo e comunismo. E nos sopravam [os líderes da Igreja Católica], discretamente, que, dos males, o menor. Pouco a pouco foi fácil ver que não era verdadeiro este embate.”

O papa Paulo 6º e dom Hélder Câmara discutiram o envolvimento estreito da Igreja Católica com o povo

A serviço do povo

Se deixou o integralismo, que havia perdido espaço político, o padre Hélder continuou nas proximidades da ditadura de Getúlio Vargas. O ministro da Educação e Cultura, Gustavo Capanema — que se cercava de escritores, como o poeta Carlos Drummond de Andrade, e intelectuais, alguns de esquerda —, convocou um concurso e o religioso foi aprovado para o cargo de técnico em educação.

Em 1946, no governo do general Eurico Dutra, o padre Hélder deixa o governo. O cardeal dom Jaime de Barros Câmara tenta transformá-lo em bispo-auxiliar, mas a nunciatura católica veta a promoção. O papa impediu sua ascensão pelo fato de o religioso ter sido fascista-integralista. A Igreja Católica havia sido omissa em relação aos crimes de Benito Mussolini, na Itália, e Adolf Hitler, na Alemanha, e, para se purgar, passou a boicotar religiosos ligados à direita política. Mesmo assim, vários religiosos católicos organizaram a fuga de nazistas — como Josef Mengele e Adolf Eichmann — para a América do Sul.

Articulador nato, o padre Hélder organiza o secretariado nacional da Ação Católica Brasileira (ACB), em 1947, com a intenção de integrar leigos e a Igreja. Ele foi seu primeiro assistente-geral. Em 1949, assume a direção da “Revista Catequética”.

Como conselheiro do núncio dom Carlo Chiarlo e, depois, de dom Armando Lombardi, agora como bispo, dom Hélder passa a trabalhar para a fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ele começa a pensar numa igreja a serviço do povo, distanciando-se do pensamento integralista.

Ao estudar “as 18 teses selecionadas para o Congresso de Leigos, realizado no Vaticano em 1950”, dom Hélder escreve num parecer, a pedido do núncio Carlo Chiarlo: “Isto será impraticável sem a criação da Conferência dos Bispos do Brasil”. Em Roma, discutiu o assunto — o envolvimento da Igreja com o povo — com o monsenhor Giovanni Montini, que, em 1963, se torna o papa Paulo 6º.

Em 1952, o Vaticano deu autorização para a criação da CNBB e dom Hélder se torna bispo-auxiliar do Rio de Janeiro. O religioso foi eleito secretário-geral da CNBB, criada em outubro de 1952. Em 1955, organizou o 36º Congresso Eucarístico Interna­cional, no Rio de Janeiro.

Mesmo tendo apoiado a gestão democrática de Getúlio Vargas, quando seu vice, Café Filho (conspirava contra o presidente), assumiu o governo, depois do suicídio do titular, dom Hélder Câmara decidiu apoiá-lo.
Prestigiado pela cúpula da Igreja Católica, foi promovido, em 1955, a arcebispo-coadjutor do Rio de Janeiro, participa da criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) e se torna integrante do Conselho Nacional de Educação.

Em 1956, com o objetivo de “urbanizar, humanizar e cristianizar” as favelas do Rio de Janeiro, dom Hélder cria a Cruzada de São Sebastião. “Em menos de um ano construiu os primeiros conjuntos habitacionais da cidade”, relata a pesquisadora Verônica Veloso. As classes médias não aprovaram o fato de que o bispo estava construindo casas para pobres na Zona Sul, conectando, física e geograficamente, pobres e ricos. No mesmo ano, indiferente às críticas, articula o 1º Congresso Geral das Favelas Cariocas, no Teatro João Caetano.

Irrequieto, dom Hélder cria, em 1959, o Banco da Providência, que atendia sobretudo os pobres — “recolhendo e distribuindo para pessoas necessitadas alimentos, remédios, roupas e dinheiro, além de dar-lhes orientação para trabalho, moradia e educação”, relata Verônica Veloso. Depois, funda a Feira da Providência.

Cada vez mais influente e posicionado na Igreja Católica, dom Hélder “foi eleito segundo vice-presidente do Concelho Episcopal Latino-Americano (Celam)”, em 1960. Dois anos depois, cria o Centro de Abastecimento São Sebastião.

Socialismo humano

Em 1962, se torna membro da Comissão para Disciplina do Clero, prévia do Concílio Vaticano 2º, que havia sido convocado pelo papa João 23º. O chefe da Igreja Católica “pregava uma reformulação na forma de apresentar a fé cristã ao mundo moderno, onde a ciência e a crítica tivessem acesso. A preocupação era sempre colocar o homem no centro das discussões e a religião católica em face das exigências do mundo, enquadrando cada povo na sua realidade política, social e econômica”, anota Verônica Veloso. O papa queria “preservar a cultura cristã no essencial e apreciar os aspectos relativos à mutabilidade do progresso humano”. Não muito diferente do que está fazendo, neste momento, o papa Francisco, o argentino convocado para atualizar a Igreja Católica, mas sem alterar seus princípios básicos, o que, na verdade, lhe confere universalidade. Não se trata de aderir aos modismos, àquilo que é passageiro, e sim de adaptar-se ao que está cristalizado pelos novos tempos.

Pelos preceitos propagados pelo papa João 23º, que dom Hélder acata de bom grado, a Igreja Católica, sem perder seu caráter universalista e sem deixar de ser pastora de todos — e não de classes sociais específicas —, fez uma “opção pelos pobres” e definiu que tinha a “intenção de trabalhar com eles e não apenas para eles”. Dom Jaime Câmara e dom Hélder se desentenderam a respeito da temática e o segundo teve de se afastar do Rio de Janeiro.

João Paulo 2º, papa tido como conservador, elogiou as ações sociais do arcebispo dom Hélder Câmara

Jango e ditadura

Como presidente da CNBB, dom Hélder e o arcebispo de São Paulo, com Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, encontram-se com o presidente João Goulart, em março de 1964, para adverti-lo, sublinha Verônica Veloso, “contra uma atitude precipitada e lhe mostraram a falta de um plano sério de reformas das estruturas, a falta de um plano para estabelecimento de um verdadeiro socialismo humano” e explanam sobre a reação da extrema-direita.

Socialismo humano parece uma contradição, porque o socialismo não é humanista, mas certamente os bispos eram próximos da socialdemocracia, mas, como a esquerda sempre demonizou-a, tratando-a como “reformista” — uma espécie de tática capitalista para salvar o capitalismo —, era menos inadequado falar em “socialismo humano”. O equívoco dos religiosos era pensar que João Goulart era socialista. Não era. Era defensor do capitalismo, mas certamente pensava num capitalismo ao estilo do norte-americano dos tempos de Franklin D. Roosevelt, nos Estados Unidos, que investiu fortemente no social, ou no estilo do bem-estar social da Inglaterra.

Curiosamente, a esquerda e a direita nunca entenderam Jango de maneira ampla: sempre pensaram-no como um homem de esquerda, até socialista.

Em abril de 1964, sob a ditadura de Castello Branco, ainda moderada, a cúpula da Igreja Católica afasta dom Hélder da CNBB e o papa Paulo 6º o transforma em arcebispo de Recife e Olinda.

As relações entre o regime civil-militar e dom Hélder eram ruins. O bispo “foi acusado de proteger padres suspeitos de subversão, entre os quais dom José Lamartine e os padres Almeri e Sena”. Ele começou a discutir políticas de desenvolvimento e, consequentemente, a tecer críticas ao governo de Castello Branco. “Em 31 de março de 1966 dom Hélder recusou-se a celebrar uma missa em comemoração ao segundo aniversário do movimento de 1964”, anota Verônica Veloso. O general Itiberê Gouveia do Amaral, comandante da 10ª Região Militar, critica-o asperamente. O general Itiberê sustenta que dom Hélder desagrega “o rebanho católico em consequência de suas atitudes” e o aponta como “esquerdista” e associado à Ação Popular (AP).

De fato, dom Hélder era de esquerda, ou estava na esquerda, mas não era, ao contrário do que pensavam militares mais ortodoxos, comunista. Ele propugnava por uma sociedade mais igualitária, mas não sob o comando dos comunistas. Era, acima de tudo, um homem do establishment da Igreja Católica — como o papa Francisco.

Dom Hélder denunciava injustiças contra trabalhadores e isto, em tempos radicalizados — os da Guerra Fria, do “nós contra eles” —, era interpretado pelos militares, sobretudo os da Linha Dura, como ser comunista. O presidente Castello Branco, um dos melhores quadros políticos da ditadura, chega a conversar pessoalmente com dom Hélder. Mantêm uma conversa cordial, pois Castello Branco, se era resoluto, não era truculento. Porém, ao criticar a atuação de bispos da Igreja Católica, o presidente desagrada dom Hélder e seus aliados. “Vários setores da Igreja se mostraram solidários a dom Hélder. O arcebispo de Goiânia [Dom Fernando] denunciou como subversivos os oficiais que o criticavam”, conta Verônica Veloso.

Em 1967, no governo de Costa e Silva, da Linha Dura, o intimorato dom Hélder defende uma América Latina “livre, não apenas no plano político, mas também no plano econômico” (curiosamente, os militares, embora apoiados pelos Estados Unidos, mantinham o país independente, com posições firmes). O bispo adverte que “só a ação social da Igreja poderá fazer fracassar a revolução violenta no Nordeste”. O religioso estava dizendo que o socialismo do tipo bolchevique poderia ser evitado — a tomada do poder pela força (a violência como parteira da história) —, desde que a ação social pudesse ser feita pela Igreja, mas por certo era um “convite” a uma ação do governo. Por exemplo que defendesse a reforma agrária, que, a rigor, é uma medida típica tanto do sistema capitalista quanto do socialista (no caso da União Soviética, com sua reforma agrária coletivista, resultou em milhões de mortes e baixa produção agrícola).

No mesmo ano, a CNBB condena, por meio de um manifesto, a subversão de esquerda e, ao mesmo tempo, solidariza-se com os clérigos perseguidos pelo regime.
Em 1968, as relações entre o governo e a Igreja Católica — ou parte dela — pioram com a declaração de um bispo de Santo André: “Uma revolução armada pode ser lícita quando reina a opressão e quando vigoram salários de fome”. Dom Hélder, corroborando a crítica, afirma que, ao menos no Nordeste, o regime, mais do que capitalista, era feudal. Radicalizado, frisa sua “convicção na marcha inelutável do socialismo”. Tese, aliás, que não era compartilhada por toda a Igreja Católica e muito menos pelo Vaticano. Era, no máximo, discurso radicalizado de um religioso, de proa, dadas as circunstâncias políticas do país e, sobretudo, do Nordeste (no qual os trabalhadores rurais eram tratados praticamente como escravos ou servos). Havia, na região, formas pré-capitalistas de lidar com o trabalhador. Assim como na União Soviética socialista trabalhadores escravos foram usados para construir obras pesadas — com milhares deles morrendo de fome e de excesso de trabalho. Um quadro muito pior, até incomparável, do que o brasileiro.

A Igreja Católica, que havia apoiado o golpe de 1964, com a restrição de alguns grupos, passa a defender, no complicado ano de 1968, com a ditadura do AI-5, reformas e as liberdades individuais, além de criticar a violência política.

Na 2ª Assembleia Geral do Celam, em 1968, dom Hélder defende uma opção preferencial pelos pobres e um desenvolvimento de fato inclusivo e lança o movimento Ação, Justiça e Paz. O governo militar critica abertamente o clero dito progressista. “Em maio de 1969, o padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Juventude no Recife e assessor do arcebispo, foi sequestrado, torturado e assassinado, sendo o crime atribuído a extremistas de direita”, assinala Verônica Veloso.

Em Paris, em 1970, falando para 10 mil pessoas, dom Hélder denuncia torturas de presos políticos no Brasil. “O que fiz foi defender a justiça. Se combato as injustiças quando são cometidas em qualquer parte do mundo, por que haveria de me calar quando essas injustiças e arbitrariedades se passam dentro do meu país?” O principal sociólogo do país, Gilberto Freyre, autor do seminal clássico “Casa Grande & Senzala”, pontua que dom Hélder era “aliado do comunismo internacional”. Líderes da Arena, como Clóvis Stenzel e Roberto Abreu Sodré, o atacam. Em retaliação, a ditadura proíbe o arcebispo de “discursar no país, assim como de falar no rádio e na televisão. A imprensa”, censurada “pelo governo, foi proibida de mencionar seu nome”.

Impossibilitado de falar no país, dom Helder começa um périplo pelo mundo. Mas não esteve em países comunistas, porque, frisou, “não teria ali a liberdade de falar o que quero” No exterior, afiançava que era indispensável mudar o mundo, dada a integração das economias, e não apenas o Brasil. Suas viagens eram autorizadas pelo papa.

Nobel da Paz

Em 1974, dom Hélder foi indicado para o Nobel da Paz. “Ficou acertado, por todos os jurados, que o prêmio lhe seria conferido. No entanto, dois dos cinco membros do júri terminaram por se demitir, declarando publicamente que os três outros haviam sucumbido a ‘pressões inconfessáveis’, traindo os compromissos prévios em torno do nome de dom Helder Câmara”, escreve Verônica Veloso. O empresário norueguês Tore Munch teria conspirado com militares, empresários e um embaixador, Jaime de Sousa Gomes, contra a indicação do arcebispo.

Em 1978, com a ditadura em fase de abertura, dom Hélder concede entrevista à revista “Veja” e propõe “a implantação de um sistema político capaz de dar fim às estruturas injustas”. “O grave é que ao pensarmos em socialismo humano, que salve efetivamente a pessoa humana e não esmague a liberdade a pretexto de assegurar a igualdade, a pior contrapropaganda vem da Rússia e da China”, diz o arcebispo. “Ao lado do inaceitável socialismo materialista, há lugar para socialismos que, de modo algum, se prendem ao materialismo dialético e ao ateísmo militante. A Igreja vai admitir que o cristão tente um socialismo que, sem a ilusão de realizar paraísos na Terra, evite um mundo de oprimidos e opressores.” Por não conceituar com precisão qual socialismo propõe, inclusive se é possível um socialismo diferente do soviético ou do chinês, não fica-se sabendo o que dom Hélder estava de fato propondo.

Sintomaticamente, as alternativas propostas pela esquerda ao socialismo de matiz stalinista são sempre vagas, imprecisas. O socialismo referencial ainda é o stalinista e o chinês, filho das políticas de Ióssif Stálin, adotou medidas econômicas — produzindo um comunismo na política e um capitalismo na economia — tão-somente para evitar a debacle.

Em 1980, no governo do general João Figueiredo, o papa João Paulo 2º visitou o Brasil e elogiou dom Hélder devido ao seu trabalho com os pobres de Pernambuco. A ovelha era rebelde, mas muito menos rebelde do que comumente se pensa. O papa, nesse ano, era um dos combatentes do comunismo, ao lado de Ronald Reagan, dos Estados Unidos, Helmut Khol, da Alemanha Ocidental, e Margaret Thatcher, da Inglaterra. O trabalho que reconhecia era o evangélico, o fato de dom Helder atrair o povão para Igreja Católica.

Em 1983, dom Hélder recebeu o prêmio Niwano da Paz, “por seu trabalho em favor dos pobres e por sua vida dedicada à valorização da dignidade humana, à libertação da opressão e da pobreza e à promoção da cooperação religiosa com outros países”. O prêmio é concedido pela Fundação Niwano, organização budista do Japão.

Em 1984, dom Hélder passou a se dedicar à Fundação das Obras de Frei Francisco, cujo objetivo é ajudar os pobres. Em 1985, com a posse de José Sarney na Presidência da República, dom Hélder defende a reforma agrária, “como forma de evitar a violência”, e a Assembleia Constituinte.

A aposentadoria do cargo de arcebispo de Olinda e Recife se dá em 15 de julho de 1985. Dom Hélder elogia o Plano Nacional de Reforma Agrária do governo Sarney. Era um “bom começo”.
Em 1986, o chefe do Gabinete Militar, general Rubens Bayma Denis, o condecora, no Itamaraty, com a Ordem do Rio Branco. “Eu não mudei. Mas se isto está acontecendo é sinal de que alguma coisa mudou”, frisa dom Hélder. Nesse ano, a Prefeitura de Roma concede-lhe o Prêmio Roma-Brasília, Cidade da Paz.

Numa decisão estranha, dom Hélder não assinou um documento da Comissão Pró-Diretas da OAB-Seção de Pernambuco, que cobrava eleição direta para presidente da República. Ele alegou que era preciso “equacionar os problemas do país”, pois, se isto não fosse feito, o sucessor de José Sarney “não resistiria nem seis meses”. Fernando Collor foi eleito em 1989 e durou mais do que seis meses. Caiu não por pressões dos militares, e sim devido a uma escalada de corrupção irrefreável no seu governo.

No fim da década de 1980, alinha-se ao presidente Sarney e aos conservadores da Igreja Católica e condena “o filme ‘A Última Tentação de Cristo’, de Martin Scorsese, por enfocar de maneira desrespeitosa a figura de Jesus Cristo”. O arcebispo, um defensor da liberdade, unia-se aos censores.

Em 1990, defendeu as medidas econômicas do governo de Fernando Collor, que, ao final, revelaram-se desastrosas. Dom Hélder morreu em 27 de agosto de 1999, aos 90 anos.

Dom Hélder era um homem e religioso contraditório? Era. Mas, sem dúvida, era um grande homem da Igreja Católica. Merece ser santo? É provável que sim, pois, ao lado das coisas terrenas, de suas lutas políticas, era um evangelizador. Mas o homem espartano gostaria de ser santo? Não dá para saber, mas é provável que não. Se sagrado santo, porém, não “envergonhará” nenhum outro santo.

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ADILSON

NUNCA SERÁ, POIS A IGREJA NÃO CANONIZA EXCOMUNGADOS. A CNBB NÃO É A IGREJA CATÓLICA (NA VERDADE, A CNBB É UM SINDICATO). AQUI NO BRASIL, TUDO É UMA BAGUNÇA; LÁ, NÃO!
Ora, Pio XI escreveu: “Católico e socialista são termos antitéticos.(…) Socialismo religioso, socialismo cristão são termos contraditórios. Ninguém pode ser, ao mesmo tempo, bom católico e verdadeiro socialista” (Pio XI, Quadragesimo Anno, Denzinger, 2770). LOGO, NÃO ERA CATÓLICO!

Irmão

Me mostra onde esta o documenta que ele excomungado pelo que eu saiba ele morreu em plena comunhão com a igreja é sua beatificação foi aceita pela Congregação para as Causas dos Santos cujo o trabalho é analisa toda a vida do suposto candidato a santo para achar alguma irregularidade igual foi no caso do Padre Léon Dehon fundador da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, larga de bitolagem reze pela igreja aceite suas decisões obediente como um verdadeiro católico não dividindo nem xingando falando mentiras de achismo sobre algo que vc claramente desconhecer ou obteve informação de… Leia mais

José Luiz Maranhão

> Ele costumava dizer: ‘se falo dos famintos, todos me chamam de cristão; se falo das causas da fome, me chamam de comunista’ > Em 31 de março de 1966 dom Hélder recusou-se a celebrar uma missa em comemoração ao segundo aniversário do movimento de 1964. > O governo militar, temendo que algo acontecesse a Dom Hélder e a culpa recaísse sobre a ditadura, enviou delegados da Polícia Federal para lhe oferecer proteção. Dom Hélder reagiu: — Não preciso de vocês, já tenho quem cuide de minha segurança. — O senhor não pode ter um esquema privado. Todos que têm… Leia mais