Do sofrimento emocional ao adoecimento mental em massa: a hipótese de uma 4ª onda da Covid-19

É imprescindível a compreensão de que as questões relativas à saúde mental fazem parte dos serviços essenciais

Renata Wirthmann

Especial para o Jornal Opção

Melancolia, de Edvard Munch |

Desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou, no dia 11 de março de 2020, a pandemia da Covid-19, cada região do planeta está buscando um modo de lidar com essa realidade e a saída mais importante, e que impõe uma transformação radical no nosso cotidiano, é o afastamento social ampliado que, por sua vez, tem levado a população ao adoecimento mental em massa e ganha os contornos do poderá vir a ser a quarta onda da Covid-19.

Frente às dificuldades impostas pela pandemia e acreditando no importante papel que a universidade pública tem de oferecer acesso a informação para toda a sociedade, tenho me dedicado a escutar, interpretar e intervir, por meio de falas e textos desencadeados por inquietações que chegam até mim. Uma dessas se refere ao constante e inevitável embate entre as duas posições que encontramos hoje no Brasil diante da pandemia.

De um lado, pessoas aterrorizadas com a expansão do vírus em território nacional, buscando frear o desastre que se anuncia e, de outro, um grupo significativo de pessoas que insistem em retomar às atividades escolares, comerciais e econômicas, a despeito da potência da doença e do seu alastramento. Tal embate tem levado, não só ao considerável aumento de casos e mortes decorrentes da Covid-19, como tem potencializado o sentimento de impotência e, consequentemente, o adoecimento emocional, sobretudo de quem compreende a grandiosidade de uma pandemia.

Pintura surrealista

Para compreender esse adoecimento emocional que se impõe ao sujeito como consequência das escolhas e comportamentos de outros, recorro a Freud a partir de uma importante distinção entre a responsabilidade do sujeito e a irresponsabilidade da massa.

A responsabilidade do sujeito

Na clínica psicanalítica, nos deparamos com um sujeito iludido e angustiado, que procura tratamento para se desvencilhar de seu sofrimento. Ao receber um sujeito em análise não reconhecemos outra norma que a singularidade, o que significa dizer que a análise está mais do lado do sujeito do que da sociedade, com o objetivo de autorizar o sujeito a deixar de ser apenas mais um exemplar, uma classificação, um pedaço pré-determinado pela sociedade.

Desde o surgimento da psicanálise, há mais de um século, percorremos um caminho em que as categorias e as classificações sofrem uma perda, cada vez mais rápida, de sua consistência e de sua universalização. Essas modificações se devem, fundamentalmente, às frequentes mudanças que vêm ocorrendo no mundo — muitas delas impulsionadas pela própria psicanálise.

Pintura de Vladimir Kush

A psicanálise é a experiência que permitiria ao sujeito explicitar seu desejo, na sua singularidade. Segundo Jacques-Alain Miller, “se o psicanalista representa alguma coisa, essa coisa é o direito, é a reivindicação, é a rebelião do não como todo mundo. É o direito a um desvio que não se mede por nenhuma norma”. Todas essas modificações são fundamentais para que o sujeito possa vir a desvencilhar de seus sintomas, de suas ilusões e angústias, mesmo que parcialmente.

Todo esse movimento tem um preço, ou ainda, uma responsabilidade. Se não somos determinados pela sociedade, esta também não pode mais responder por nossos atos. Eis que surge com a psicanálise a ideia de responsabilidade do sujeito: “Qual é sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”, nos indaga Freud, em 1905. Com essa pergunta a psicanálise autoriza o sujeito a ir, pouco a pouco, singularizando sua demanda e, consequentemente, ir se responsabilizando pelos seus próprios ditos, ou ainda, de se localizar frente à sua própria enunciação. O processo analítico se dá a partir desta constatação de que não se trata mais de ser determinado por um Outro, mas de ser escrito por si mesmo, com todo o peso que tal tarefa carrega.

A irresponsabilidade da massa

Apesar de todo este percurso, impulsionado pela psicanálise, rumo à rebelião e ruptura com a parte mais rígida e adoecedora da sociedade, percebemos que, de tempos em tempos, determinados grupos insistem em retornar para o discurso de massa e isso nos leva à importante questão: o que um sujeito pode ganhar ao se despir assim de sua singularidade?

Pintura de Vladimir Kush

Freud aponta para o sentimento de poder que a massa confere aos indivíduos, pois, sendo a massa anônima, esses poderão apoiar sobre ela toda sua irresponsabilidade como sujeitos. Esse movimento conduz a um perigoso desaparecimento do sentimento de responsabilidade dos indivíduos, uma vez que a massa passa a determinar o que estes pensam, sentem e agem por um determinado momento e para um determinado fim.

Em 1921, Freud, em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, descreve a massa como “impulsiva, volúvel e excitável” e que obedece a “impulsos que podem ser, conforme as circunstâncias, nobres ou cruéis, heróis ou covardes, mas, de todo modo, são tão imperiosos que nenhum interesse pessoal, nem mesmo a autopreservação, se faz valer”. Assim, embora a massa tenha como ganho a desresponsabilização do indivíduo por seus ditos, a mesma o coloca em risco a medida que a singularidade, que incluiria, um esforço de se preservar e se proteger, é substituída pela coletividade em defesa da massa, mesmo que isso custe a vida de cada um de seus participantes.

O sujeito, a massa e a pandemia

A Tristeza, pintura de Thaís Coelho

Podemos, segundo Freud, identificar que a evolução psíquica da humanidade está, justamente, na progressão da irresponsabilidade das massas para a responsabilidade do sujeito. Assim, ao “pertencer a uma massa, o homem desce vários degraus na escala da civilização”, pois, ao invés de assumir responsabilidade sobre cada um de seus pensamentos e atos, como resultado às exigências da cultura, o indivíduo, movido pelo comportamento de manada (ou de massa), adere a um funcionamento instintivo, ou seja, se comporta como um bárbaro.

O resultado dessa barbárie pode ser visto na curva, cada vez mais íngreme, da Covid-19 no Brasil. Difícil uma palavra mais adequada que barbárie para circunscrever a potência destruidora que a massa tem sobre todo o país à revelia dos demais, ou, ainda, a despeito da autorização da outra parte. Eis o fator insuportável e emocionalmente adoecedor de todo este processo: a irresponsabilidade da massa leva seus indivíduos a abrirem mão da autopreservação, se expondo à possibilidade de contaminação em massa. Entretanto, condenam também os sujeitos responsabilizados à iminente contaminação e morte, uma vez que colocam o vírus em circulação numa velocidade e dimensão maiores do que as capacidades do sistema de saúde brasileiro, ou seja, ao abrir mão da autopreservação colocam em risco a preservação de todos.

Pintura de Munch

Quatro ondas da pandemia no Brasil

O risco que a irresponsabilidade da massa impõe a todo o país nos leva a constatação de que haverá, ao menos, quatro ondas da pandemia no Brasil.

A primeira onda, que estamos vivenciando neste momento, corresponde ao primeiro ataque do vírus propriamente dito.

A segunda onda advém do aumento exponencial de mortos e contaminados causados pelo afrouxamento do afastamento social, falta de leitos para internação de pacientes com Covid-19 concomitantes a outras urgências que também exigem recursos de saúde, como acidentes e transplantes. Nessa, teremos listas de espera de pacientes oncológicos e de transplante disputando uma vaga na UTI com pacientes da Covid-19, afinal, o sistema de saúde é o mesmo para atender a todas as demandas (em cidades em que o sistema de saúde já estava muito comprometido a primeira e segunda ondas acontecem quase concomitantemente, como parece ser o caso de Manaus e Rio de Janeiro).

A terceira onda virá pouco tempo depois como consequência do agravamento de doenças mais lentas e silenciosas, denominadas doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, cardiopatias, obesidade, dentre outras. Os pacientes que antes da pandemia eram monitorados regularmente, com um custo menor do sistema de saúde, irão demandar intervenções hospitalares mais complexas, num sistema hospitalar já sobrecarregado pelas duas ondas anteriores.

Finalmente, a quarta onda, decorrente dos danos emocionais provocados pelas três ondas anteriores e pelo agravamento dos pacientes crônicos do serviço de assistência psicossocial que ficaram sem atendimento durante todo o período da pandemia. Com o fechamento de grande parte dos serviços de saúde mental no país, vários pacientes com quadros de ansiedade, depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, autismo, dependência química, alcoolismo, ideações suicidas, automutilação, dentre outros, tiveram seus tratamentos abruptamente interrompidos. Somados a estes teremos a inclusão de uma porcentagem considerável da população que terá adoecido emocionalmente como consequência do luto pela morte de um familiar pela Covid-19, do sofrimento resultante do afastamento social, dos danos financeiros, da perda do emprego, pela sobrecarga do trabalho doméstico e escolar dos filhos ou pelo aumento da violência doméstica.

Retomando a questão inicial, do adoecimento emocional causado pelas escolhas e posicionamentos de outros, e observando os dados relativos à pandemia não só no Brasil, mas em todo o mundo, parece imprescindível a compreensão de que as questões relativas à saúde mental fazem parte dos serviços essenciais, assim como o acompanhamento continuado de todas as doenças crônicas e é responsabilidade do sujeito saber sobre si e sobre seu corpo a ponto de reivindicar o direito de cuidar de si, singularmente.

Renata Wirthmann é psicanalista e professora-doutora do curso de Psicologia da Universidade Federal de Catalão.

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