Euler de França Belém
Euler de França Belém

Divórcio de Melinda e Bill Gates aponta para o óbvio: um dia o amor acaba

Reconstrução da vida afetiva é mais salutar do que a exploração de ressentimentos. Solidário, o casal doou 53,8 bilhões de dólares para pobres e pesquisas científicas

Pintura de Marc Chagal

Na novela “A Sonata a Kreutzer” (Editora 34, 120 páginas, tradução de Boris Schnaiderman), o escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) escreve: “Dizer que a gente vai amar uma pessoa a vida toda é como dizer que uma vela continuará a queimar enquanto vivermos”. O poeta Vinicius Morais escreveu, no “Soneto de fidelidade”: “Eu possa lhe dizer do amor (que tive):/Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure”.

O amor existe, às vezes é sina, mas também, às vezes, termina, quiçá menos rapidamente do que o fogo fátuo da paixão. A chama um dia tende a apagar. Por mais cordato que seja, um vai se sentir “lesado” — sugerindo que perdeu os melhores anos ao lado da vida do “fujão” ou da “fujona”. Tanto os amantes que não se amam mais quanto os terceiros — os curiosos da vida alheia, espelho das suas — iniciam uma profusão de especulações. Quem traiu quem e com quem? O que importa mesmo são as histórias comuns do casal — as boas, as médias e as ruins. Quem sabe, avaliando pela média e não pelos extremos — as brigas e a paixão, que são amor afogueado —, o casal acabe por descobrir que os bons momentos talvez superem os maus. Porém, na fogueira da separação, há pouco espaço para a razão e avaliação equilibrada dos acontecimentos. Alguém tem de ser nomeado como vilão, sobretudo para o linchamento público nas redes sociais (que superam a imprensa quando se trata de barbárie).

Bill Gates e Melinda Gates: empreendedores e filantropos | Foto: Reprodução

Neste momento, jornais, revistas, redes de televisão, sites e o público discutem, até com certa parcimônia, a separação entre os bilionários William Henry Gates III e Melinda Ann French Gates.

Bill Gates e Melinda Gates se casaram há 27 anos. Por certo, se amavam. Agora, Bill Gates, com 65 anos, e Melinda Gates, com 56 anos, se separaram. A rigor, não são velhos, embora o criador da Microsoft (que inventou o Windows, nosso amigo de todos os dias), ao lado de Paul Allen, pareça mais idoso do que é. Há tempo para redescobrir o amor e a paixão. Recontar o passado, não para torná-lo “melhor” — o que a nostalgia faz —, e sim mais justo e abrangente, é imensamente positivo. Piorá-lo, com as tintas do ressentimento, não faz bem à alma dos seres. Filhos? Ah, os filhos não costumam aceitar bem o divórcio dos pais. Mesmo quando o casamento já acabou, e os parceiros nem mais são companheiros de jornada — apenas se torturam, no dia a dia, com o desamor —, os filhos tendem a exigir que os pais permaneçam juntos, sem querer entender que a felicidade deles não é a mesma dos ex-amantes.

Os três filhos de Bill Gates e Melinda Gates, todos com mais de 18 anos, não aceitaram a separação com tranquilidade e ficaram ao lado da mãe. Estariam irritados com o pai. O que terá acontecido? O filantropo teria se apaixonado por outra mulher? Talvez sim. Fica-se com a impressão de que pessoas um pouco mais velhas, quando se apaixonam, são julgadas pelo tribunal da inquisição moral. “Velho sem vergonha”, dizem. “A mulher não se está dando o respeito”, afirmam. Mas a vida real não é assim. As pessoas se apaixonam em qualquer idade e têm direito de “reconstruir” o que acreditam ser a sua felicidade e bem-estar.

Antes de se relacionar e se casar com Melinda Ann French, Bill Gates havia se relacionado com Ann Winblad. Quando decidiu se casar, ligou para a amiga (confidente), hoje com 70 anos, e pediu sua aprovação, segundo Walter Isaacson. “Eu disse que ela seria uma boa combinação para ele porque ela tinha vigor intelectual”, contou a empreendedora de software ao repórter, ex-editor da revista “Time”.

Ann Winblad: amiga e, talvez, confidente de Bill Gates | Foto: Reprodução

Melinda Gates e Bill Gates fizeram um acordo pelo qual o criador do Windows poderia passar um fim de semana com Ann Winblad, na casa de praia dela, na Carolina do Norte. “Podemos jogar minigolfe enquanto discutimos biotecnologia”, disse o empresário a Isaacson. “Compartilhamos nossos pensamentos sobre o mundo e nós mesmos”, sublinhou Ann Winblad. O que os dois faziam, além de jogar minigolfe e discutir biotecnologia, fica por conta da imaginação de cada um. Mas sexo não é o único dos prazeres dos humanos.

Donos de uma fortuna avaliada em 146 bilhões de dólares — a partilha será feita na Justiça, porque não há um acordo firmado sobre como seria a divisão —, Melinda Gates e Bill Gates divulgaram uma nota conjunta sobre a separação. “Não acreditamos mais que podemos crescer como um casal. Depois de muito pensar e trabalhar muito em nosso relacionamento, tomamos a decisão de encerrar o nosso casamento”, relataram. Pelo teor do comunicado, os dois tentaram manter o casamento. Bill Gates já repassou para a ex-mulher 1,8 bilhão de dólares em ações.

Aniversário, de Marc Chagal | Foto: Reprodução

A imprensa está especulando sobre a separação e, até onde li, não vi excessos. O ex-casal pede respeito à privacidade. Sim, tem razão. A imprensa precisa de limites, inclusive porque, na falta de informação ampla, pode começar a exceder e, até, a inventar. Mas, no caso de pessoas famosas como Melinda Gates e Bill Gates, não há como manter a privacidade de maneira integral. Por vezes, uma separação pode interferir até na valorização ou não das ações das empresas dos divorciados. Não é o caso. O empresário detém apenas 1,36% das ações da Microsoft.

A Fundação Bill e Melinda Gates, dirigida pelo ex-casal, investiu 53,8 bilhões de dólares em dezenas de projetos filantrópicos, inclusive na pesquisa para produção da vacina contra a Covid-19. Eles vão continuar juntos no empreendimento, que, a rigor, é o quarto “filho” da dupla. “Bill e eu somos parceiros iguais. Homens e mulheres devem ser iguais no trabalho”, frisa Melinda Gates. Uma das preocupações do empresário são as mudanças climáticas.

Ao lado de Warren Buffett e outros bilionários, Melinda Gates e Bill Gates participam do Giving Pledge (Promessa de Doação). Os muito ricos se uniram para doar parte de suas fortunas para causas humanitárias. Melinda Gates é uma grande mulher e Bill Gates é um grande homem — solidários, humanistas. É o que, de fato, importa. O resto é brejeirice de novela de segunda categoria.

Bill Gates é o quarto homem mais rico do mundo — atrás apenas de Jeff Bezos (dono de 10% da Amazon), Elon Musk e Bernard Arnault.

Se começamos com Tolstói, é de bom-tom terminar com o início do romance “Anna Kariênina” (Cosac Naify, 801 páginas): “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira” (tradução de Rubens Figueiredo). O fato é que uma separação às vezes contribui — superada a obsessão de que se pode ser “proprietário” de alguém — para tornar os ex-parceiros mais felizes do que se continuassem juntos. Quem sabe, daqui um tempo, Melinda e Bill Gates possam jogar minigolfe e, até, discutir biotecnologia.

Vale a leitura do poema “Mais profundo que o amor”, do escritor britânico David Herbert Lawrence, que morreu com apenas 44 anos, de tuberculose, em 1930 — deixando toda a sua riqueza para nós, leitores: uma prosa (os romances “Mulheres Apaixonadas” e “O Amante de Lady Chatterley” são de uma beleza avassaladora) e uma poesia de alta qualidade.

Mais profundo que o amor
D. H. Lawrence

O amor existe, e é coisa funda,

mas há coisas mais profundas que o amor.

Antes de tudo, há o homem só.

Que nasce sozinho, que morre sozinho

e que sozinho vai vivendo no seu ente mais fundo.

Como as flores, o amor é a vida que cresce.

Mas por baixo estão as rochas profundas, a rocha viva que leva a vida sozinha,

e ainda mais por baixo está o fogo ignoto, ignoto e pesado, pesado e só.

O amor é coisa dual.

Mas o homem, por baixo de qualquer dualismo, está sozinho.

E por baixo das grandes emoções do amor turbulentas, da violenta

parte verde de fora,

jaz a rocha viva do orgulho de uma singular criatura,

o orgulho cândido, escuro.

E ainda mais por baixo do leito de rocha firme do orgulho

jaz o fogo ponderoso da vida sem atavios

com sua estranha consciência primordial de justiça

e sua consciência primordial de conexão

conexão com o fogo-vida mais fundo, mais terrível,

e a velha, velha e final verdade-vida.

O amor é dual, e é amorável

como a vida que viceja na terra,

mas por baixo deste leito do orgulho acha-se o fogo primordial do meio

que se mantém conectado ao para sempre incognoscível fogo mais remoto

de todas as coisas

e que se embala com um senso de conexão, religião

treme com um senso de verdade, consciência primordial

e cala com senso de justiça, o imperativo primordial de fogo.

Tudo isso é mais profundo

mais profundo que o amor.

(“Poemas”, de D. H. Lawrence, editora Alhambra, tradução de Leonardo Fróes)

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