Euler de França Belém
Euler de França Belém

Disco de alta qualidade sugere que o Brasil precisa descobrir a grande cantora Cláudia Vieira

O CD Entre Tantos Entretantos revela uma cantora madura, afinadíssima, capaz de interpretações que reinventam as músicas

Divulgação

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Há cantores-cantores e cantores-intérpretes. Elis Regina e Gal Costa são cantoras e intérpretes. Nas suas vozes algumas músicas são tão reformuladas que, às vezes, parecem outras músicas. Para a gaúcha e para a baiana, a tradição sempre tem a ver com o novo, com obra em construção. O caso de Chico Buarque é um dos mais curiosos. Não se trata, é certo, de um grande cantor, de um artista vocalmente tão completo quanto Gilberto Gil e Milton Nascimento. Pertence à categoria dos intérpretes, quem sabe como Paulinho do Viola e a magnética Tetê Espíndola.

As brasileiras Elis Regina e Clara Nunes e a portuguesa Eugénia Melo e Castro gravaram composições de Chico Buarque — e muito bem, sem retoques. Elis Regina é quem calibra de maneira mais precisa a razão dominante com a emoção em suspenso da música do compositor. Mas “Construção” — apesar da ótima gravação de Elis Regina — e “Fado Tropical”, espécie de hino alternativo e sardônico ao Hino Nacional, ficam bem mesmo, com encaixe perfeito, é na voz de Chico Buarque. Aí funciona o intérprete, que nem sempre precisa ser um cantor de alto nível, como Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Milton Nascimento e Gilberto Gil (em termos estritamente musicais, sem discutir letras e importância cultural global, muito superior a Caetano Veloso e Chico Buarque).

Cláudia Vieira, como Elis Regina, Gal Costa e Tetê Espíndola, é uma cantora-intérprete, uma rompe-fronteiras. As músicas na sua voz caliente, à vezes dançante e quase sussurrante, são músicas, de tão transformadas, ainda que com certa delicadeza, de Cláudia Vieira.
O disco “Entre Tantos Entre­tantos”, que Cláudia Vieira está lançando, contém tesouros musicais que merecem ser ouvidos pelo país e, quiçá, pelo mundo. Trata-se de uma cantora que, embora tendo voz possante — de quem canta jazz, e bem —, canta, neste CD, com voz levemente contida e com textura levemente adocicada das cantoras da Bossa Nova. Mas instigante mesmo é o que faz com as letras, mascando-as, construindo músicas praticamente autorais.

O disco de Cláudia Vieira mostra uma cantora afinada, com uma voz camaleônica, que enriquece e fortalece as composições, reinventando-as

O disco de Cláudia Vieira mostra uma cantora afinada, com uma voz camaleônica, que enriquece e fortalece as composições, reinventando-as

Ouvi, no Youtube, Bruna Mendez cantando “Dizem por aí”, em si um belíssimo poema moderno de amor e desamor. A composição é de Bruna Mendez, mas Cláudia Vieira a supera, mudando timbres, esticando as palavras, forçando-as musicalmente — com rara doçura, mesmo ao cantar uma certa amargura da, insistamos, ótima letra.

Com tiques de poeta exímia, Bruna Mendez constrói uma letra-música enviesada, com interrupções — soando como um lamento e, ao mesmo tempo, um não-lamento, algo disfuncional e paradoxal (como, no fundo, são os seres humanos, sempre ambíguos) —, o que por certo a torna difícil de cantar. “Dizem por aí/Na verdade, não dizem,/Eu vi/Que ’cê anda tratando alguém/Bem melhor do que eu/Quando estive em ti/Não que eu esteja/Cobrando alguma coisa,/Mas senti falta/De uma classificação/Que me fizesse sentir/Bem mais do que/Um amigo ou/Um ombro, um coração bom/Pra ancorar/Vai, larga essa agonia pra lá/Que eu posso ser o vento/E mais leve que isso não há/Vai deixa esse rancor pra trás/Que a vida nem terminou/E a gente nem se deu tudo”. Pois Cláudia Vieira, com sotaques da música popular, praticamente cria uma espécie de blue à brasileira, com uma voz de rara delicadeza, construindo uma sintonia estreita com a letra-música de Bruna Mendez. Aqui e ali, como quando diz “Eu vi”, Cláudia Vieira estica a música, criando nuances. Nossos ouvidos sentem a leveza do vento, conduzido pela leveza da voz da cantora e pela poesia escorregadia da compositora.

A parceria com Bruna Mendez funciona também em “Canto”. Pode ser que se trate de uma leitura forçada, mas há nas composições de Bruna Mendez um mix de ceticismo e humor refinado, ainda que que, por vezes, latente (há um feliz e dialético jogo dos contrários). Há tristeza, mas o lamento parece em suspenso, como se, embora fale em rancor, não houvesse, de fato, ressentimento, e sim um certo prazer, o dos que sabem superar as perdas, ao contar as dores. Cláudia Vieira capta, com extremo vigor e rigor, as filigranas dúbias da poesia da compositora. “Que não sou só voz,/Corpo, ar/E sou capaz/De distinguir o que é/De coração/E o que é/De sacanagem/Eu não sou só/De sentimento, não”, diz a música. Adiante, acrescenta: “Eu canto/Senão o corpo dói/E não tem dança”. Cláudia Vieira capta muito bem, com suavidade e firmeza, aquilo que, na falta do mot just, parece, digamos, uma assintonia, um dito não-dito (ou mistura de vozes, de diferenças, costuradas pela habilidade da letrista). A cantora põe calidez na música, como a dizer: “Somos, eu e você, Bruna Mendez, autoras”. De fato, o intérprete, diferentemente do mero cantor — que em geral só repete gravações anteriores —, se torna o segundo “autor”, ou, se se preferir, a segunda mas decisiva voz.

Numa música bem diversa, “Um blue”, com assinatura de Maurício Valle, percebe-se o talento, a capacidade de mudar de ritmo, sem perder qualidade, de Cláudia Vieira. Parece outra cantora. É e não é. Quer dizer, é a mesma, lógico, mas cantando de maneira diferente, captando a leveza da letra. Pode-se não se apreciar a comparação, por certo equivocada, mas há um “cheiro”, vago, de Guilherme Arantes sincronizado com, quem sabe, Marisa Monte. É a música que Cláudia Vieira canta com mais leveza, como se estivesse na praia numa tarde de verão, observando gaivotas e navios ao longe.

Fora a excepcional parceria com Bruna Mendez (noutra parceria se diz: “Nega, ’cê acha que é assim?/Vai arrumar um bom menino/Sem sorrir?), um dos pontos altos do disco é a interpretação de Cláudia Vieira para “Agora”, de Orlando Morais. Trata-se de uma música longa e Cláudia Vieira não perde o fôlego, mantendo o ritmo com precisão, dialogando com prazer com os músicos, que também cantam por meio dos instrumentos. Curiosamente, a letra ecoa a poeta americana Emily Dickinson: “Que o tempo não é remédio e nem cura a dor/O sofrimento é um sentimento iluminador”. “A solidão é triste, mas pra mim foi bom” e “Que esquecer é elegante, sedutor” — sugere a letra, que canta o sofrimento com certo distanciamento. Cláudia Vieira está bem à vontade cantando esta bela música.

“Viver”, de Dulce Abreu, parece que foi feita para a voz afinada de Cláudia Vieira. O ouvinte poderá dizer: “Mas a letra não diz muito”. Talvez seja possível dizer de outro modo: diz, mas não parece dizer. É uma biografia da vida, cantada e contada com extrema agilidade e suavidade. Sobretudo, é uma poesia, um remexer, uma dançada com as palavras. Cláudia Vieira representa, por assim dizer, os dois dançarinos e, ao mesmo tempo, canta e marca o ritmo da “festa”.

À primeira vista, “Labirinto”, de Fabiano Lin e Victor Oliveira, parece ser difícil de adaptar-se para voz. Parece mais um poema de amor, com ótimas frases — “Sabe que pode pousar em mim”, “Ao te olhar sei que pode voar” e “De sermos seres tão errantes/Despreocupados em viver” —, complexo da primeira à última linha. Mas Cláudia Vieira, criando espaços, preenchidos pelos ótimos músicos, que esmagam os vazios, se sai muito bem, criando um certo intimismo sem melodrama.

Quando Cláudia Vieira começa a cantar “Sol da manhã” (de Fernando Perillo e Carlos Ribeiro), pensei em Tetê Espíndola, Nara Leão e, vá lá, Marisa Monte. Porém, ouvindo mais atentamente, percebe-se que não há nada ou pouco a ver. O que se tem é uma interpretação segura de Cláudia Vieira mesmo. Trata-se de uma bela música sobre o sentimento, supostamente o amor feminino. “Que o amor é areia nas mãos/Há de escapar/De repente entre os dedos e então/Quando foge não volta atrás/Quando vemos é tarde demais/E o meu coração/Que era cama pro amor se deitar/Que era casa pra te receber/Hoje é porta querendo fechar/É uma chama querendo morrer”, poetisa a música. Na voz de Cláudia Vieira ganha-se um intimismo preciso, sem melodrama.

O fecho do disco é uma música de Front Jr. e Cláudia Vieira — “Viu?!” “Se o meu olhar não consegue te encontrar/Se meu olhar não consegue traduzir/O que eu quero/Meu desejo/Você não olha/Você não vê/Você não vê a noite sem estrelas/Você não vê a noite sem luar!/Você não vê a noite/Não sabe que não tem sertão/Você não adivinha a dor do meu coração/Eu atirei o meu olhar/Eu atirei o meu olhar/Olha pra mim/Olha pra mim, meu bem”. Belíssimo ao revelar a feiura da desconexão entre os seres. Cláudia Vieira canta esta música, altamente perceptiva e lamentosa, como se fosse uma cantora de blues (talvez esteja mais próxima do jazz), o que não deixa de ser.

As músicas do disco de Cláudia Vieira tratam, no geral, do sofrimento individual, o mais doloroso, mas também da beleza da superação, da escapada da dor, e, ao mesmo tempo, desta como enriquecimento, e não apenas como lamento incontornável. Definitivamente, o país, se quiser, pode ouvir uma grande cantora. Porque uma cantora só se torna globalizada quando é badalada nacionalmente. Feliz ou infelizmente, é assim.

Transcrevi trechos das letras, como se estivesse a examinar um livro de poesia — por sinal, a poesia, de alta qualidade —, e tentei explicar como Cláudia Vieira as adaptou. Mas só ouvindo o disco é possível se ter a verdadeira dimensão da bela voz da cantora, de como ela recria as (e se apropria das) composições.

Um disco se faz com uma boa cantora, sobretudo, mas também com letristas e músicos do primeiro time. Bruno Rejan (baixo), Fred Valle (bateria), Henrique Reis (acordeom, piano, violões e guitarra) e Sérgio Pato (percussão) enriquecem o disco de Cláudia Vieira. Tudo indica que cantora e músicos fizeram um disco com prazer. Mas o prazer maior é do ouvinte.

2 respostas para “Disco de alta qualidade sugere que o Brasil precisa descobrir a grande cantora Cláudia Vieira”

  1. Avatar Amauri Garcia disse:

    Muito bom o texto de Euler Belém, que se mostra sempre um jornalista que vivencia experiências para escrever, algo raro em tempos de comunicação online.
    Cláudia Vieira é um grande talento, cujos discos e shows sempre marcam pela excelência.
    Parabéns por mais esta obra, Cláudia!

  2. Avatar Reny Cruvinel disse:

    Bela análise. E fazendo jus à trajetória e ao talento dessa ótima cantora-intérprete. Parabéns a Cláudia Vieira, aos músicos e produtores do álbum.

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