Euler de França Belém
Euler de França Belém

Despertar das classes médias, fortalecendo as instituições, é o grande fato das manifestações de rua

Os indivíduos que foram e estão indo às ruas não estão defendendo partidos e políticos, e sim a necessidade de se salvaguardar as instituições

Manifestação de rua em Goiânia, no domingo, 13, pediu a renúncia,  a cassação ou o impeachment da presidente Dilma Rousseff, do PT| Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Manifestação de rua em Goiânia, no domingo, 13, pediu a renúncia,
a cassação ou o impeachment da presidente Dilma Rousseff, do PT| Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Jornalistas e leitores partilham uma guerra sem vencedores quando debatem, até fanaticamente, se das manifestações de rua a favor do impeachment, da cassação ou da renúncia da presidente Dilma Rousseff e contra a corrupção participaram 30 mil ou 60 mil pessoas (só em Goiânia). As duas “contas”, avalizadas pelo olhômetro ou pela Polícia Militar, provavelmente são imprecisas. O que não se pode ignorar é que havia uma multidão “misturada” nas ruas de Goiânia (e do Brasil). Todas as classes sociais estavam representadas — umas menos, outras mais. Há quem tenha criticado a presença maciça das classes médias nas ruas — e certamente é consensual que não se consegue reunir 30 mil ou 60 mil ricos numa “passeata” — com o objetivo de impor a tese de que não se tratava de uma manifestação popular. Como se manifestação popular fosse apenas as dos pobres.

Na verdade, um dos fenômenos sociológicos mais ricos da manifestação de domingo, 13, foi exatamente a presença maciça das classes médias nas ruas. Pode-se dizer que há uma certa letargia social envolvendo os setores médios da sociedade — que, entorpecidos pelo consumo de variados matizes (como viagens, passeios diários ou semanais pelos shoppings, automóveis e motocicletas, programas de televisão cada vez mais variados e interessantes, como as séries dos canais pagos), se recusam a participar da vida coletiva, optando, por vezes, pela mera assistência social ou pela convivência em quase-guetos.

Pois agora está ocorrendo uma mudança, que os sociólogos não engajados ideologicamente (há muito sociólogo se comportando como militante em suas análises) certamente vão avaliar de maneira mais precisa nos próximos meses e anos. As classes médias — o plural é necessário, porque não há uma classe média — saíram da toca e voltaram às ruas.
Quando as classes médias “despertam” é que as coisas acontecem. A Educação e a Saúde públicas estão ruins porque, em larga medida, as classes médias enviaram seus filhos para as escolas particulares e contrataram planos de saúde privados. Parte considerável de sua renda mensal é devorada pela educação dos filhos e planos de saúde para a família. Quase 30% do que recebem todo mês, a título de salário, são descontados nas folhas de pagamento para o Imposto de Renda. Os empresários pagam vários impostos, escorchantes, e pouco ou nada recebem em troca. É dinheiro que “dão” ao governo para financiar Educação, Saúde e Segurança Pública e, se está constatando, “socializar” os produtos da corrupção com aliados políticos.

As classes médias estão cansadas e, portanto, explosivas — embora pacíficas (e, até não raro, passivas). Elas saíram às ruas para protestar contra um quadro político que está paralisando o país do ponto de vista econômico e entorpecendo-o moralmente. Trata-se de um movimento político poderoso, porque, não sendo partidário, não é controlável nem manipulável. Quem acredita que as pessoas que saíram às ruas no dia 13 — o número do PT — defendem partidos e ideologias de direita entende muito de preconceitos, mas nada da sociedade brasileira real que está se manifestando.

Os indivíduos estão dizendo que querem seu país de volta, mas um outro país — menos corrupto (não se tem ilusão de que a corrupção vai acabar totalmente) e que os investimentos com o dinheiro público sejam nas áreas apropriadas, e com menos custo —, mas não estão sugerindo que se deve trocar o PT pelo PSDB.

Há uma irritação geral com os políticos — todos. Há quem diga que isto é ruim: porque estão contribuindo para desmoralizar a política. Mas as pessoas das ruas sabem que quem está desmoralizando a política são os políticos — e não apenas Lula da Silva, Dilma Rousseff, Eduardo Cunha, Renan Calheiros. Há uma safra de políticos, por certo, menos pior — talvez até melhor. Mas a desconfiança das classes médias é generalizada. O risco é, desiludida com todos, cair nas mãos de moralistas fantasiosos, como o populista autoritário Ciro Gomes, do PDT (Leonel Brizola deve revirar-se no túmulo toda vez que ouve o nome do “lobo” que o dirige), e a populista ambientalista Marina Silva, da Rede Sustentabilidade.

Mas as classes médias, ainda que não racionalizem bem o que pensam e dizem — porque não são ideológicas, como é o MST gerido por Lula, a distância, e João Pedro Stédile, na linha de frente —, entenderam muito bem, e não de maneira difusa, que as mudanças verdadeiras estão ocorrendo dentro das instituições e por isso, nas suas manifestações, fez a defesa tanto do Poder Judiciário — por intermédio do juiz Sergio Moro — quanto do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.

Instituições sólidas, infensas ao controle político e empresarial, com agentes bem pagos e livres, são a garantia de que a sociedade encontrará um rumo de fato moderno — em que todos têm os mesmos direitos e deveres. É preciso, portanto, insistir neste ponto: as manifestações de rua defenderam as instituições — simbolizadas num homem, Sergio Moro, da Justiça, na Polícia Federal e no Ministério Público Federal — e não partidos políticos. São os políticos que terão de acompanhá-las, fazendo também a defesa das instituições, dos valores coletivos.

Os brasileiros, de todas as classes sociais, estão cansados de ilusões e querem mudança já. O recado das ruas é este: o Brasil é um organismo vivo que está “expelindo” aquilo que se recusa a mudar. Os brasileiros abandonaram o PT e seu governo, mas, não tendo percebido substitutos adequados, agarraram-se às instituições. As pessoas dão vitalidade às instituições e as instituições dão vitalidade às pessoas. É a troca produtiva que está ocorrendo debaixo dos olhos de todos.

Quem ficar para trás, acreditando no frágil poder do governo Dilma Rousseff — que, do ponto de vista público, já caiu —, será esquecido ou, pior, atropelado pela delicadeza vital do novo, a sociedade decidindo por meio das instituições, democraticamente, sem golpes de força. Não queira, leitor, ficar para trás.

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