Euler de França Belém
Euler de França Belém

Descobertas gravações do funeral de Stálin feitas por um major americano

O major Martin Manhoff, a partir da embaixada dos Estados Unidos em Moscou, gravou cenas do funeral do ditador soviético, morto em 1953, e foi expulso da URSS, acusado de espionagem

Cenas do funeral do ditador Ióssif Stálin, que morreu em 1953, depois de mandar matar de 25 milhões a 30 milhões de soviéticos.
O serviço secreto americano acompanhou de perto para saber quem mais tinha chances de substituir o poderoso czar vermelho

O ditador soviético Ióssif Stálin mandou matar de 25 milhões a 30 milhões de pessoas (não se sabe o número exato). O ucraniano Liev Trotski integra a lista interminável. Paranoico, o czar Stálin via complôs, até de médicos, em tudo. Tanto que quando teve o acidente vascular cerebral, em 1953, quase não havia a quem recorrer. Ele havia mandado assassinar vários médicos e os profissionais qualificados tinham até receio de atendê-lo. Há evidências de que os stalinistas, seus filhos diletos, como Lavrenti Beria e Nikita Kruchev, de olho na sucessão, não se apressaram a buscar socorro médico. Deixar Stálin morrer era uma maneira de escapar com vida amanhã — era o que se pensava. “Medo” era a palavra mais sussurrada na União Soviética entre 1924 e 1953, ano inaugural e ano terminal do império do Homem de Aço. Seu funeral foi uma “festa” cívica controlada pela polícia secreta e pelo exército. O major americano Martin Manhoff filmou-o, sem que o governo comunista percebesse, e o historiador Douglas Smith decidiu divulgar as imagens. Trata-se da única gravação não-oficial.

Veterano da Segunda Guerra Mundial, Martin Manhoff era adido militar da embaixada dos Estados Unidos em Moscou. As imagens são coloridas e de boa qualidade, o que sugere que o major teve treinamento qualificado. Elas mostram centenas de soldados, “vestidos com longos abrigos, formando um cordão para que o cadáver embalsamado de Stálin fosse trasladado dentro de um caixão até a Praça Vermelha. Dezenas de membros do Politburo, como Nikita Kruchev, Lavrenti Beria e Vyacheslav Molotov, levavam coroas de flores ao enterro no dia 9” de março de 1953. O relato é do jornal “La Vanguardia”, de Barcelona (edição de sexta-feira, 2: “El ‘espia’ de EE.UU. que gravó a todo color el funeral de Stalin”, de David Ruiz Marull). A maior parte do material foi colhida a partir da embaixada americana, na Praça Vermelha.

Apontado como espião pelo jornal “Trud”, “a voz dos sindicatos soviéticos”, Martin Manhoff foi expulso da União Soviética em 1954, mas levou seu tesouro — além das imagens do funeral, gravou outras mostrando o cotidiano dos habitantes do país comunista — para os Estados Unidos. Eram rolos de película de 16 milímetros (Kodac e Agfa), com anotações pessoais e cartas. Embora importantes, as filmagens ficaram guardadas por um bom tempo, em caixas de papelão, até serem descobertas pelo historiador Douglas Smith. Nas caixas estava escrito “confidencial” e “top secret”.

O repórter David Ruiz Marull escreve que “há boas razões para crer que as imagens do funeral de Stálin foram revisadas pela CIA para buscar indícios de quem poderia suceder ao líder soviético. Ainda que não haja evidência de que Manhoff havia trabalhado para a agência, há vários detalhes que o vinculam com a Inteligência americana” (ao voltar para os Estados Unidos, tentou trabalhar para a agência). A CIA, se fez isto, agiu com acerto, ainda que óbvio. Na tradição comunista, os primeiros da “fila”, as figuras centrais dos funerais, são os mais importantes e, em caso de sucessão, são os mais cotados. Tudo apontava para Lavrenti Beria, o chefão da polícia secreta que, de fato, começou a mandar. Mas, como era visto como Stalinzinho, decidiram matá-lo, o que fizeram, indicando para secretário-geral Nikita Kruchev, que avaliavam como mais moderado e menos letal.

Martin Manhoff era um espião do Exército. Por isso recebeu formação em criptografia e fez um curso de três meses na Escola de Inteligência Estratégica do Exército.

Homem culto, Martin Manhoff era formado em Belas Artes pela Universidade de Washington. A mãe de sua mulher Jan havia nascido na Ucrânia de Gógol. Ele sabia russo e, por isso, foi enviado a Moscou. Jan mandava cartas para os amigos descrevendo a vida sob a Cortina de Ferro. Numa carta de 1952, escreveu que Moscou era muito vigiada. Numa correspondência, informa que, proibidos de dirigir para locais distantes, só podiam visitar os arredores da capital soviética. Para os soviéticos, todos os americanos eram espiões. Eles eram obrigados a usar os serviços de um “motorista russo”, certamente um integrante da polícia secreta, ao visitar lugares mais distantes. Ao visitar a poeta Anna Akhmátova, na União Soviética, o filósofo anglo-letão Isaiah Berlin provocou, sem que soubesse de nada, uma nova onda de repressão.

A União Soviética parecia estagnada, vista de longe. Martin Manhoff percebeu que, depois da Segunda Guerra Mundial e apesar de Stálin, o país estava mudando. O contato com o mundo ocidental, com a tecnologia da Alemanha, da Inglaterra e dos Estados Unidos, sugeriu que era preciso evoluir. O governo comunista decidiu construir arranha-céus, as “Sete Irmãs”, para simbolizar que a União Soviética havia se tornado uma grande potência. O país de Stálin queria ser os Estados Unidos do comunismo.

Apesar da repressão e do receio de serem presas, as pessoas se divertiam, brincavam e participavam de atos cívicos, mostram as imagens do cotidiano colhidas por Martin Manhoff. “Um de seus numerosos filmes registra a coreografia dos Jovens Pioneiros, algo assim como os escoteiros, na Praça Manezhnaya, num dia de maio. Também se pode observar o Kremlin coberto de neve ou a correria e bulício de uma capital em rápido crescimento.” Apesar da repressão, as pessoas levavam suas vidas. Não havia só tristeza.

Depois da morte de Stálin, sobretudo, Jan e Martin Manhoff puderam visitar outras partes da União Soviética. Uma série de zonas foi liberada para visitação. Eles “visitaram Leningrado (São Petersburgo) e seus palácios “ao menos em três ocasiões”. Estiveram em Musmanski, um porto do Mar Ártico, perto da Finlândia, base da frota soviética do norte.

“La Vanguardia” informa que as viagens do casal “foram amplamente documentadas pela imprensa dos Estados Unidos, interessada por ‘zonas remotas às quais nenhum americano havia viajando antes’”, sobretudo num momento em que a União Soviética estava fechada ao mundo. “Não fazemos nada sem atrair a atenção de 99% das pessoas. O 1% restante não podia olhar, pois estava bêbado, no chão ou em qualquer outro lugar”, escreveu Jan.

Martin e Jan Manhoff estiveram em Kiev, na Crimeia e “viajaram pela Estrada de Ferro Transiberiano até a República de Khakassia, na região central da Sibéria. O casal visitou a longínqua cidade de Khabarovsk, na fronteira com a China”. Nessa visita, especialmente porque fizeram várias anotações, foram denunciados como espiões e, por isso, tiveram de deixar o país quase às pressas. Ficaram mais dois meses no país de Púchkin e Tolstói. Eles foram embora, para sempre, no dia 1 de junho de 1954 — há sessenta e três anos.

O Departamento de Estado americano contestou o governo soviético e afirmou que Martin Manhoff e outros militares não eram espiões. E sublinhou que a expulsão deles era “uma represália das autoridades soviéticas porque” o governo “havia expulsado três oficiais russos do território dos Estados Unidos”. Eles eram acusados de espionagem. O fato é que tanto americanos quanto soviéticos se espionavam — como ocorre até hoje (apesar da suposta ligação do presidente Donald Trump, dos EUA, com o presidente Vladimir Putin, da Rússia).

Reformado do exército “com honra”, Martin Manhoff voltou para Seattle e, junto com sua mulher, abriu uma loja na qual vendia móveis importados de várias partes do mundo. Ele morreu em 2005 e Jan, em 2014. Não deixaram filhos. Numa antiga concessionária de automóveis, ao lado da casa do major, foram encontradas as caixas com os filmes, documentos e um velho uniforme do exército.

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