Depressão, sintoma que interroga o viver

Pesquisa Vigitel diz que 11,3% dos brasileiros se encontram com diagnóstico de depressão, porcentagem que é superior aos 9% dos brasileiros com diabetes

Marcos Antonio Ribeiro Moraes

Especial para o Jornal Opção

Os modos de sofrimentos psíquicos se manifestam como enigma que interroga os laços sociais em cada momento da história. Dentre esses, a depressão se caracteriza predominantemente pela alteração do humor, que leva o sujeito a se retirar da cena cotidiana.

O termo depressão alude a um grande buraco no caminho. Trata-se de um mal-estar que sempre esteve presente em diferentes momentos. Um tema que atravessa as artes, a literatura, a investigação filosófica e científica. Com muito mais relevância ainda em nossa contemporaneidade.

Imagem: Rosi Martins, fotoperformance

A esse respeito, nos últimos dias, os principais jornais e revistas do Brasil publicaram dados da mais recente pesquisa, revelando que, no Brasil, mais de 24 milhões de pessoas sofrem com a depressão. Esses dados comparados revelam que a pandemia da Covid-19 e a atual instabilidade econômica agravaram esse quadro. Uma projeção divulgada pela Pesquisa Vigitel 2021, do Ministério da Saúde revela que 11,3% dos brasileiros se encontram com diagnóstico de depressão, porcentagem que é superior aos 9% dos brasileiros com diabetes.

A correlação desses dados com o contexto da pandemia indica que, predominantemente, a depressão seria um modo de reação, de nomeação do mal-estar, decorrente da condição que se encontra o sujeito no mundo em que vive. É isso que chamamos de subjetividade, ou seja, um modo específico de atribuir sentidos aos jogos da vida, de se relacionar e se afirmar sexualmente, amar, ganhar ou perder nesse jogo.

Melancolia, de Edvard Munch | Imagem: Reprodução

O que ganhamos ou perdemos ao longo da vida, tem a ver com as possibilidades e limites do nosso corpo, do mundo externo com suas intempéries e das relações com os outros. É isso o que nos indica Freud (1930) em “O mal-estar na cultura”.  A travessia da vida é feita de conquistas, mas também de perdas e faltas. Sabemos que não é de hoje que o mercado financeiro se vale desse jogo, com promessas de reposição, de que é possível nos livrarmos por completo de nossas perdas e faltas.

A psicanálise, por sua vez, nos possibilita entender que nesse estado de profunda tristeza, ocasionada por uma perda, a energia pulsional que move o desejo não se desliga do objeto perdido, ainda que esse vínculo permaneça sustentado por culpa, nostalgia e recriminação. Lacan (1974), em seu escrito intitulado “Televisão”, aborda esse tema como se tratando de uma desistência do sujeito, que por fim abandona o seu trabalho de lidar como a tensão inerente a sua condição desejante, que é inseparável da falta. Ou seja, da possibilidade de perder, de ter que renunciar ao objeto de seu desejo, em diferentes lugares e ciclos da vida.

Essa condição de renúncia tem sua origem no momento primevo, em que o sujeito se separa do Outro materno. A partir de então, se espera que a sua constituição psíquica siga o seu curso, num suceder de renúncias e novos investimentos do desejo em outros objetos. Ao se recusar a viver esse jogo, o sujeito termina por desistir de sustentar o seu desejo. Os sinais clínicos da depressão tais como: angústia, agitação, sonolência ou dificuldades para dormir e – nos casos mais graves, as ideações suicidas, que muitas vezes culminam na passagem ao ato –  indicam que o sujeito se vê desorientado, acuado, culpado, desacreditado da possibilidade  de retirar sua pulsão do objeto perdido e, com ela, retomar novos investimentos do seu desejo.

Pintura de Edward Hopper

Em sua obra “O Id e o Ego” Freud (1923) nos leva a compreender que a culpa e a recriminação indicam que o sujeito pode estar como presa de um superego feroz, que responde por altas exigências pautadas num Ideal de Eu, ligado à pulsão de morte. Se viver dói, na depressão essa dor de existir tem uma proporção ainda muito maior.

A depressão, portanto, se inscreve na história concreta de um sujeito e no modo de subjetividade em que se encontra. Modo que funciona como uma lente, com a qual irá enxergar e medir a sua história, o modo como irá encarar suas perdas, a possibilidade de corresponder ou não ao seu Ideal de Eu.

Segundo Joel Birmam (2012) em seu livro “O sujeito na contemporaneidade”, os signos ou pontos de referência que orientavam o sujeito no mundo não são mais estáveis como outrora, gerando um sentimento de vazio e desorientação, no que tange a sustentação do seu desejo e ideais. Para ele, o mal-estar contemporâneo se manifesta especialmente em três modos de padecimento. Primeiro, marcando os corpos com estresse, pânico, dores e outros sinais. Como modos intensos de ação, hiperatividade, ritmo enlouquecido, diferentes formas de violência e crimes contra a vida. E, finalmente como intensidades ou afetações emocionais. Nessa última modalidade se destaca a depressão como uma maneira de se retirar da cena ou na busca de   alívio no uso de droga e consumismo estimulado pelo mercado.

Pintura de Edward Munch

Tudo isso funcionando como tentativas de contornar o vazio existencial. Outro sintoma bastante atual é o denominado “bipolar”. Nesse, o sujeito se vê numa gangorra, onde de um lado se posiciona na mania, que é caracterizada pela elevação de um gozo sem falta. E do outro a depressão, quando tem que se a ver com limites impostos pelo Outro, a esse gozo elevado.

Nesse sentido, é interessante considerar que a depressão, enquanto sintoma, acompanha o curso histórico da modernidade, com suas diferentes reedições do sistema capitalista. E isso se configura como um grande paradoxo. Pois se a depressão é um estado de retirada da pulsão, de adormecimento do desejo, sabemos que o capitalismo, ao contrário, exige “soldados e consumidores sem sono”; que o sujeito esteja a todo tempo acordado para produzir e consumir.

No livro “24/7 O capitalismo tardio e os fins do sono” Jonathan Crary (2014) afirma: “a imensa parte de nossas vidas que passamos dormindo, libertos de um atoleiro de carências simuladas, subsiste como uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo.” Essa obra é uma importante referência para entendermos aspectos relevantes da depressão e de outras modalidades de sofrimentos psíquicos atuais. Ou seja, a relação de contradição entre esses modos de padecimento e o modelo social em que vivemos. Modos de contradizer, de se furtar à lógica estabelecida, de resistir e sobreviver a lógica do mercado, expressão de um sistema no qual o próprio ser humano é um empecilho à acumulação ilimitada e sem fim, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Nesse cenário, a depressão parece ser um desses modos de resistir, pela via de um longo sono.

Vale lembrar que a psicanálise também comparece historicamente no contexto da modernidade capitalista e dos seus modos de subjetivação. Mas como um apelo a acordar, a falar do que se passa, no âmbito do sujeito e da cultura. A falar daquilo que se recusa ou se recalca nesse sono/sonho. Um trabalho de confrontação com a referida falta, com as perdas inerentes ao curso do viver. Como possibilidade de reconhecer a falta sem se deixar paralisar ou cair no buraco.

Com muita frequência, nossos analisandos, quando se deitam no divã, suspiram e dizem: “que bom aqui… acho que vou dormir!” Mas sem que percam o aconchego da cena analítica, sem que sejam afrontados por mais uma ordem superegóica, os convidamos a falar, a recordar, a elaborar e acordar o desejo. A saber fazer algo de bom e possível com sua força pulsional.

Marcos Antonio Ribeiro Moraes é psicanalista. Professor da PUC-Goiás e membro da Appoa. É colaborador do Jornal Opção.

Referências

Birman, J. (2012). O sujeito na contemporaneidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

CRARY, J.(2014). 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono. São Paulo: Cosac & Naify.

Lacan, J. (1974/2003). Televisão. In: Outros Escritos (pp. 508-543). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Freud, S. (1923/1996). O Ego e o Id (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 19). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1930/2020). O mal-estar na cultura. In: FREUD, S. Obras Incompletas de Sigmund Freud, vol. O mal-estar na cultura e outros escritos de cultura, sociedade, religião. Belo Horizonte: Autêntica.

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