Euler de França Belém
Euler de França Belém

Demissão de Renato Machado e Francisco José sugere que velhos não têm vez na Globo

O diretor Ali Kamel, no lugar de demitir, deveria convocar os “velhos” para orientá-lo na criação de mais “abrangência” para o jornalismo da campeã em audiência

O romance “Onde os Velhos Não Têm Vez” (Alfaguara, 252 páginas, tradução de Adriana Lisboa), de Cormac McCarthy, contém, no mesmo espaço, homens de tempos diferentes. Estão vivendo no mesmo espaço o psicopata Anton Chigurh, violento — uma violência estilizada e sem limites —, o veterano da guerra do Vietnã Llewelyn Moss e o xerife Bell.

McCarthy conta a história de dois tempos, mesclando-os, porque os homens, embora muito diferentes, estão no mesmo espaço — na luta pela sobrevivência. Bell, um homem ético, diz: “Quando as mentiras já forem todas contadas e esquecidas a verdade ainda estará lá. Não se move de um lugar para o outro e não muda de tempos em tempos. Você não pode corrompê-la assim como não pode salgar o sal. Não pode corrompê-la porque é o que ela é. Ouvi compararem a verdade à pedra”. O prosador parece ter lido o poeta João Cabral de Melo Neto.

José Hamilton Ribeiro: um ás do jornalismo: brilhou na “Realidade” e no “Globo Rural” | Foto: Reprodução

Adiante, na página 164, Bell assinala: “Boa parte das vezes em que eu digo qualquer coisa sobre como o mundo está indo para o inferno as pessoas meio que sorriem e dizem que estou ficando velho. Que esse é um dos sintomas. Mas meus sentimentos a esse respeito são que alguém que não saiba a diferença entre estuprar e assassinar pessoas e mascar chicletes tem um problema muito maior do que o meu”.

Pistoleiro irredutível, Chigurh aprecia matar, e o faz quase com arte, se se pode dizer assim. Detê-lo é quase impossível. Moss não é bandido, mas sua ética é elástica. Talvez seja uma versão light ou embrionária de Chigurh. Bell, homem “de” dois tempos, é ético (sua fala são sermões). Há espaço para gente como ele? Talvez sim, ainda que a história de McCarthy seja, no geral, pessimista.

Globo precisa de nuance jornalística

Os velhos (ou fracos) não têm vez no romance de McCarthy? O xerife-“pregador” Bell, por ser velho, parece um dos fracos. Mas sua força não está nos músculos, e sim na linguagem que, impregnada de humanismo, é atemporal. É um fraco-forte; necessário, pois.

Já no Grupo Globo, sobretudo na TV Globo, os velhos não têm vez. São descartáveis. Recentemente, a empresa demitiu Renato Machado, de 78 anos, Francisco José, de 77 anos, e José Hamilton Ribeiro (perdeu uma perna ao cobrir a guerra do Vietnã), de 86 anos. Foram despedidos porque estão velhos?

Francisco José: o longevo sucesso do “Globo Repórter” é produto, em larga escala, de seu trabalho rigoroso  | Foto: Reprodução

O argumento da Globo, o ventilado em sites, é outro: a empresa, em processo de contenção de despesas — o prejuízo anual, o último divulgado, é de 144 milhões de reais —, decidiu que um dos caminhos para reduzir a crise financeira é demitir aqueles que ganham mais. Comenta-se, também, que há um processo de renovação de quadros.

Quaisquer empresas têm o direito de trocar funcionários. No caso do jornalismo — com a idade, se não houver acomodação, o profissional fica cada vez mais preparado —, é mais complexo ou problemático.

Não há dúvida de que o canal GloboNews é de qualidade, com profissionais competentes. Porém, aqui e ali, percebe-se que há um resquício de ideias de grêmio estudantil em certas “análises”. Até profissionais gabaritados às vezes são “pilhados” pela orientação editorial de que jornalismo de qualidade — “independente” — é “bater” sem dó no danoso presidente Jair Bolsonaro. As críticas são, quase sempre, pertinentes, mas o excesso é evidente. Mas fica-se com a impressão de que a Globo News cobre não o Brasil, e sim Bolsonaro, como se este fosse o país, o macro, e aquele, o micro, não tivesse tanta importância.

Renato Machado: correspondente e apresentador de primeira linha | Foto: Reprodução

Na semana passada, Fernando Gabeira, de 80 anos, disse que, nas suas andanças pelo país, notou que as pessoas, cuidando de suas vidas, estão pouco preocupadas com política, sobretudo a sucessão presidencial. É percepção de repórter atento. Porque, se atuasse ideologicamente, logo apresentaria uns dois depoimentos “críticos” para sugerir que Bolsonaro é um morto-vivo. Estranhamente, por alegados problemas técnicos, o repórter-comentarista saiu do ar.

Há uma crise no país, Bolsonaro é responsável por parte significativa dela — inclusive pela morte de milhares de pessoas —, mas os brasileiros continuam trabalhando e produzindo, à revelia de quem está governando ou desgovernando. Apesar da queda do PIB, da “recessão técnica”, as pessoas resistem, por isso a economia resiste. É preciso exibir esta nação que, apesar de gestores como Dilma Rousseff e Bolsonaro, não vai à lona. Ou, se vai, levanta-se e segue.

Ali Kamel: vai ficar na história como o diretor que demitiu os mais talentosos jornalistas da TV Globo? | Foto: Reprodução

Para escapar ao jornalismo de grêmio estudantil — politicamente correto, estaria dizendo o que a sociedade “quer” e “precisa” ouvir —, é necessário mesclar profissionais jovens e mais velhos (velhice não significa, necessariamente, perda de lucidez). Os mais experimentados certamente saberão sugerir nuances e dizer que todos não devem pensar da mesma maneira. No excelente “Em Pauta”, por vezes, fica-se com a impressão de que todos, por serem “humanistas” e antibolsonaristas, pensam por “uma” só cabeça (ou repetem o que formula uma só cabeça, certamente iluminada). Demétrio Magnoli e Jorge Pontual são dos poucos que, eventualmente, discordam da linha dominante. No geral, há um “alinhamento” que, se é crítico, perde em termos de nuance e abrangência jornalísticas. Às vezes, há opiniões demais para argumentos de menos.

O diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel, no lugar de demitir, deveria convocar os “velhos” para orientá-lo na criação de mais “abrangência” para o jornalismo da campeã em audiência. José Hamilton Ribeiro, Renato Machado e Francisco José, além de outros, poderiam fazer parte de um conselho editorial — com salários revistos, dada a situação de crise da empresa — para aconselhá-lo. Eles certamente concordam que Bolsonaro é ruim, muito ruim, mas saberão dizer que o país é maior do que o presidente e, por isso, carece de uma cobertura mais adequada. (Kamel corre o risco de ficar na história do jornalismo brasileiro como o diretor que demitiu os maiores talentos da Globo.)

Um pouco de velhoceticismo talvez faça bem ao juveniilismo da Globo.

(Bob Woodward, de 78 anos, permanece firme no “Washington Post”, como repórter e conselheiro do jornal de Jeff Bezos, o empresário que criou a Amazon.)

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