Euler de França Belém
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Demissão de Mauro Naves tem a ver mais com moralismo do que com erro do repórter

O jornalismo está cedendo tanto ao politicamente correto que, daqui a pouco, não se terá jornalistas críticos, e sim eunucos mentais nas redações

Mauro Naves: mais uma vítima da máquina do politicamente correto | Foto: Reprodução

Qual jornalista não repassou telefone para pessoas se contatarem? A maioria, por certo. Por fazer isto, o profissional deve ser qualificado como “intermediário” de negócios? Na maior parte das vezes, não. Mauro Naves, em 31 anos de TV Globo, era considerado um repórter exemplar, admirado e respeitado pelos telespectadores e pelos colegas. De um dia para o outro, passou a ser tratado quase como “criminoso”. Por quê? Trata-se de mais uma vitória da onda moralista, cujos defensores, instalados inclusive na Globo, parecem acreditar na “construção” do homem perfeito — aquele que, em nome da ética, jamais erra e é um paladino da moral. Jornalismo, diriam Goethe e Thomas Mann, é um pacto com o demônio — ao menos para repórteres, que, diferentemente de certos editores, têm de pôr a mão na massa e dialogar com quaisquer pessoas, decentes ou não.

Está comprovado que Mauro Naves intermediou negociações — como lobista — entre advogados de Neymar e Nájila? Não está. Mesmo assim, cedendo à onda moralista, tão externa quanto interna, a Globo o demitiu. O histórico de 31 anos, mais de um quarto de século, não foi levado em consideração. Os “atletas” das redes sociais vibram. Porque contribuíram para “linchar” mais um. A Globo “vibra” porque exibe ao telespectador que está ao lado da “correção moral”, daquilo que supostamente é “certo”.

Thiago Asmar, ex-repórter da “Globo”, comenta: “Estou aqui para falar que esse desligamento do Mauro é um absurdo porque ele, em 31 anos de Globo, ele fez muito mais pela emissora do que grande parte dos chefes que estão demitindo ele agora. Mauro Naves é sinônimo de esporte da Rede Globo. Quem não o conhece? Quem não gosta do trabalho dele? Eu conheço jogadores, conheço jornalistas e todos gostam do Mauro Naves”. Apesar de certo exagero, é um comentário correto.

As relações pessoais de Mauro Naves sempre facilitaram as coisas para a Globo, assinala Thiago Asmar. “O próprio Neymar sempre deu entrevista para o Mauro Naves porque gostava dele, porque o Mauro tinha uma relação pessoal com o Neymar, com o pai, com a família. Aí, para se beneficiar pelos contatos dele, eles adoravam. Aí quando o cara erra pelo excesso dessa relação pessoal demitem o cara? Tem que deixar claro que já se aproveitaram muito dessas relações pessoais”, afirma o jornalista.

O jornalismo está cedendo tanto ao politicamente correto, à farsa da correção moral, que, daqui a pouco, não se terá jornalistas críticos, e sim eunucos mentais nas redações.

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Silvio luiz

Perfeito. Faltou respeito ao homem e ao profissional.