Defendam as estátuas, não as derrubem

Se for para derrubar todas as estátuas de personagens racistas, sobrará pouco nas praças públicas. Quem está representado é um personagem histórico

Gustavo Bezerra

Sou totalmente contra derrubar estátuas como forma de “protesto”. Além de ser um atentado contra a memória histórica, vandalizar monumentos porque o representado seria racista, machista, misógino (escolha o anátema em evidência) etc. é algo que traz o indefectível mau odor dos anacronismos, servindo apenas para espalhar desinformação em nome da “causa” da moda. É algo que rescinde a tentativas de reescrever a História, não escondendo o ranço stalinista (Stálin costumava “apagar” da memória oficial seus ex-aliados que viravam desafetos, assim como os Antifas de hoje querem “apagar” da História figuras que não se ajustam à sua agenda política).

Estátua de Cristóvão Colombo: sem a cabeça | Foto: Reprodução

Se for para derrubar todas as estátuas de personagens que eram racistas, sobrará muito pouco nas praças públicas. Até porque quem está lá representado é um personagem histórico, não um militante de causas politicamente corretas. Só para dar um exemplo: Thomas Jefferson, um dos Pais Fundadores dos EUA — e, por extensão, da democracia moderna — era dono de escravos (teve até um filho com uma). O mesmo no caso de outras figuras importantes da História mundial e nacional, como o Marquês de Pombal ou D. Pedro I (a propósito, é bom recordar, também houve escravocratas negros). Lembro bem, não faz muito tempo, quando militantes dos direitos dos índios quiseram derrubar estátuas de Cristóvão Colombo, alegando que o navegante genovês seria o responsável, entre outras coisas, pelo extermínio indígena e pela destruição das florestas… (Aliás, acabei de ver que fizeram mesmo isso nos EUA agora.)

Estátua de soldado confederado, nos Estados Unidos | Foto: Reprodução

Começa-se derrubando estátuas e termina-se censurando filmes

Depredar monumentos porque homenageariam escravocratas (Jefferson pode ser descrito como um escravocrata, by the way), ou por outro motivo semelhante, não contribui para entender o que foi a escravidão, nem joga luz sobre o passado. Muito pelo contrário. Se o homenageado não for um ditador asqueroso, como Hitler, Saddam Hussein ou o já citado Stálin — ou (exceção que faço nesta atual onda iconoclasta) o rei Leopoldo da Bélgica, que patrocinou um quase-genocídio no Congo há pouco mais de cem anos —, pôr abaixo monumentos históricos é algo que não faz nenhum sentido, é apenas teatro de rua. É pura demagogia e uma forma de empobrecer o conhecimento da História, que já é pouco. Pode ser com a melhor das intenções, mas o resultado não é dos melhores.

Protestar, contra o que quer que seja, derrubando estátuas é uma idiotice. Aliás, sou contra protestos de rua neste momento, pois geram aglomeração e ajudam a espalhar a pandemia (estamos em meio a uma pandemia, lembram?). Ainda mais se o motor que move essa nova onda de manifestações, deflagradas por um assassinato covarde, é uma pauta identitária de uma fração da esquerda, que serve apenas, no final, para fortalecer a extrema-direita brucutu aqui e alhures. Começa-se derrubando estátuas e termina-se censurando filmes na HBO. O que prova que derrubar estátuas, além de tudo, é coisa de gente intolerante e burra.

Gustavo Marques Bezerra é autor de “O Livro Negro do Comunismo no Brasil” (Jaguatirica, 871 páginas).

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