Euler de França Belém
Euler de França Belém

Cyro dos Anjos é mais do que um mero Machado de Assis do segundo time

Numa entrevista ao crítico italiano Giovanni Ricciardi, o escritor mineiro diz que o ofício de “ghost writer”, inclusive para Juscelino Kubitschek, prejudicou sua produção literária

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Cyro dos Anjos (1906-1994; em agosto faz 20 anos que morreu) é um escritor poderoso, mas, como ficou com a imagem de Machado de Assis do segundo time, praticamente caiu no esquecimento, do qual sai, de vez em quando, pelas mãos de críticos perspicazes e avessos a modismos como Ronaldo Costa Fernandes (autor do excelente ensaio “O diário intimista e melancólico de Cyro dos Anjos. Leia no link: http://bit.ly/1v9JLil). Seus romances “O Amanuense Belmiro” e “Abdias” são obras-primas — muito lidas durante certa época e ainda lidas (e estudadas) por cultores da literatura de alta qualidade. Ao contrário de outros mineiros, era discreto, vivia mais na sombra e quase nada se divulgava. Por isso sua entrevista ao italiano Giovanni Ricciardi, publicada no livro “Escrever — Origem, Ma­nutenção, Ideologia da Escrita Literária” (Libreria Universitaria, 409 páginas), tem um valor especial. Para esta obra, o crítico italiano entrevistou, entre 1986 e 1987, vários escritores brasileiros, como José J. Veiga, Otto Lara Resende, Raquel de Queiroz, Autran Dourado, Miguel Jorge, Caio Fernando Abreu e, entre outros, João Silvério Trevisan. As perguntas são semelhantes às feitas pelos entrevistadores da “Paris Review”.

Ricciardi inquire: “Seu último livro é um livro de memória: por quê?” Cyro dos Anjos diz que, ao se aposentar do serviço público, aposentou-se “também da literatura”. Ele conta que “A Menina do Sobrado”, seu último livro, “são memórias com um toque ligeiramente ficcional, mas apenas mudando nomes de pessoas e, às vezes, de localidades, para evitar as identificações dos personagens; mas o que está lá é exato, com esse pequeno toque ficcional. São as memórias da infância e da juventude, realmente. Não quis continuar as memórias da vida madura, porque me parecem destituídas de poesia. (…) A vida madura é uma vida sem poesia, vida de luta”. Mas ressalva que seu livro “Montanha” contém a história de sua “passagem pela administração” pública e “um pouco de política”.

À pergunta “quando começou a escrever?”, Cyro dos Anjos relata que começou escrevendo crônicas, pois não pretendia escrever um romance. “Mas finalmente nasceu um romance daquelas crônicas; depois houve episódios sentimentais que deram vida ao livro. Eu tinha 30 anos quando publiquei meu livro, em 1937. Publiquei-o, a primeira vez, às minhas custas.” Ele enviou a obra para o editor José Olympio, que informou que “o publicaria no ano seguinte”. “Pedi os originais de volta, pois eu estava aflito para publicar o livro e o publiquei.” O livro saiu em Belo Ho­rizonte. “O título era ‘O Ama­nuense Belmiro’; distribuí o livro entre amigos e dei-o para o José Olympio distribuir. Aí, ele fez a 2ª edição e várias outras.”

“O Amanuense Belmiro” mudou a vida de Cyro dos Anjos? “O livro teve boa sorte; foi acolhido com muita simpatia. Naquele tempo, havia crítica literária; hoje não há mais, desapareceu a crítica literária. Hoje os jornais dão pequenas resenhas muito desenxabidas, insossas, insípidas. Naquele tempo havia bons críticos. (…) Eu me senti lançado na vida literária. ‘O Amanuense Belmiro’ encontrou o terreno preparado. Toda a minha vida transcorrida até ali, até aos 30 anos; todas as experiências sentimentais, líricas foram metidas no livro, de modo que eu estava amadurecido para um livro.”

Espécie de E. M. Forster patropi, em termos de (escassa) produção quantitativa, Cyro dos Anjos viveu 87 anos (e o inglês, 90 anos) e escreveu seis livros. “Levei uma vida de funcionário muito atribulada, muito trabalhosa e, por isso, não me sobrava tempo”, desculpa-se. Sempre envolvido com políticos poderosos, como Juscelino Ku­bitschek, ele escrevia discursos para secretários, ministros e até para um presidente. “Se não tivesse sido tão absorvido por essa atividade de ‘ghost-writer’, talvez tivesse produzido mais literatura. Eu exerci essa atividade por toda a minha vida, até me aposentar. (…) ‘O Amanuense’ saiu de um período de férias.” Uma desculpa? Pode ser. O presidente Juscelino Kubitschek o premiou com uma sinecura, o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal. “Eu não entendia nada de contas, mas era um cargo burocrático bem remunerado e podia descansar um pouco.” Então, se é assim, poderia ter escrito mais? Ora, ninguém é perfeito.

Indagado sobre seu processo criativo, Cyro dos Anjos cita o autor de “Madame Bovary”. “Flaubert, na correspondência dele com George Sand, dizia que escrevia cinco, seis vezes uma página ou um período. Eu acho que ele escrevia apenas cinco, seis vezes, porque escrevia com pena de pato e aquilo machuca as mãos. Eu escrevia uma página dez, vinte vezes; sou perfeccionista, de modo que, para mim, era uma tortura escrever; isso, ao mesmo tempo que era uma inclinação, era um suplício.”

Machado de Assis

Sobre “sua relação com a linguagem, com o estilo”, Cyro dos Anjos assinala: “Recebi uma in­fluência muito forte do Ma­chado de Assis, pois ele é o mestre do estilo. Eu me deliciava com ele. Eu dei tudo que podia dar de mim nos livros para apurar a forma naturalmente”.

“O que significa escrever?”, pergunta Ricciardi. “Eu sempre me fiz essa pergunta e até escrevi um pequeno livro chamado ‘A Criação Literária’, estudando o que leva a pessoa a escrever.” Quando professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Minas Gerais, um aluno quis saber porque o mestre escrevia. Ele, de pronto, não soube explicar. Por isso escreveu um livro.

“Termino meu livro com Pi­randello. ‘Que autor poderá dizer como e por que um personagem nasceu em sua fantasia? O mistério da criação artística é idêntico ao do nascimento natural!’ Isso diz Pirandello; e continua: ‘Mulher pode sentir o desejo de ser mãe, mas esse desejo, ainda que veemente, não basta para fecundá-la. Um belo dia ela se sentirá mãe, sem ter sido advertida de como começou isso. Assim um artista, em seu viver, acolhe, a todo instante, germes de vida, mas nunca poderá dizer como e por que, em certo momento, um desses germens penetrou em sua fantasia para se converter em criatura viva, num plano de vida superior ao da versátil existência cotidiana’. E eu concluí, de uma maneira um pouco brincalhona: ‘Jamais perguntem ao romancista porque ele escreve romances; melhor é pedir como um certo personagem de Shakespeare, que sejam bem encadernados e nos falem de amor…’. Esta é uma frase de Shakespeare em ‘La Bisbetica Domata’ [‘A Megera Domada’]. (…) Eu cheguei à seguinte conclusão: é próprio do espírito ser criativo; então todo mundo é dotado da faculdade de criar, em qualquer ramo das ciências ou das letras. (…) Escrevi porque tinha tendências para escrever, tinha prazer nisso. Prazer e sofrimento ao mesmo tempo.”

A literatura tem objetivos sociais, pode mudar a sociedade? Cyro dos Anjos duvida de qualquer missão social da literatura: “Não, acho que não. Acho que isso é uma distorção da literatura; é um objetivo da política e não da literatura. A arte deve ser gratuita; como definiu Kant, a arte é a finalidade sem fim; é a pura busca de emoções. (…) A arte é gratuita e espontânea”. Mas ressalva que “A Divina Comédia”, de Dante, “uma obra imensa, é um livro político”.

A literatura é produto da inspiração ou de um trabalho intenso? “Disse um escritor, com muito espírito, que na arte há mais transpiração do que inspiração. Flaubert sustentava que é preciso a gente sentar à mesa com disposição ou não, mesmo que saia apenas um período, uma página ou uma linha. Mas é do hábito de sentar-se todo dia que nasce o trabalho. Evidentemente há momentos excepcionais, mas a arte nasce do trabalho artesanal, artístico.”

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Livro do crítico italiano Giovanni Ricciardi publica entrevistas com Raquel de Queiroz, José J. Veiga, Murilo Rubião, Autran Dourado, Silviano Santiago, João Silvério Trevisan e Caio Fernando Abreu

Os artigos favoráveis ao romance “O Amanuense Bel­miro” incentivaram Cyro dos Anjos a se firmar como escritor. “O acolhimento dado ao primeiro livro me trouxe muita satisfação, muita alegria.” Ele conta que foram publicados mais de 100 artigos. (Hoje, quando lançado, um bom livro é resenhado numa semana por alguns jornais e revistas e, depois, é esquecido. A imprensa está voltada para o mercado, quer dizer, para divulgar lançamentos.) O sucesso do romance, no lugar de liberá-lo, praticamente o paralisou. “Levei cinco anos para escrever outro e dez anos para escrever o terceiro.”

O que incentivava Cyro dos Anjos a escrever? “Às vezes, um livro nasce de um pequeno episódio. O meu livro ‘Abdias’ nasceu de uma palavra. Um amigo meu convidou-me a dar aulas num colégio secundário de irmãs. Você precisa ver o que é ‘la rentrée’, quando as mocinhas voltam das férias nos primeiros dias de aula, como um bando de juventude. E naquelas mocinhas, de 15, 16, 18 anos, na ‘rentrée’, naquela mocidade, eu me inspirei e escrevi ‘Abdias’, o meu segundo romance”. Abdias é o nome do professor. Cyro dos Anjos relata que “‘O Amanuense Belmiro’ nasceu de um episódio de carnaval, tanto que em italiano o livro tem o título de ‘Carnevale a Belo Ho­rizonte’, do Spinelli. Foi um pequeno flerte, numa noite de carnaval, que inspirou o livro.”

Influência do modernismo

O Modernismo influenciou a literatura de Cyro dos Anjos, menos como movimento e mais em decorrência da leitura de um escritor mineiro. “Recebi uma grande influência de um dos modernistas: Carlos Drum­mond de Andrade, a quem eu conheci na redação do ‘Diário de Minas’; ele era redator-chefe e eu redator. Fui um modernista retardatário porque eu tinha uma formação mais clássica: leituras de Machado de Assis, de Anatole France, dos clássicos franceses. Mas, ao surgir o Movimento Modernista de 22, fiquei fascinado pela poesia de Drummond; pela poesia e pela prosa, porque ele é um grande prosador”. Drummond é considerado, pela maioria dos críticos, como o maior poeta brasileiro. Cyro dos Anjos o aponta também como prosador de alta qualidade, “Fi­camos amigos” — Cyro dos Anjos e Drummond — “em 1928; eu já entrei no Mo­dernismo quando ele estava saindo da moda; já havia passado aquele ímpeto modernista, eu fui da undécima hora…”.

Talvez um mais modestos escritores brasileiros, avesso à badalação que às vezes garante fama e ao menos estrelato momentâneo, Cyro dos Anjos, contrariando os críticos, disse ao entrevistador italiano: “Tenho uma obra modesta, pequena e já me sinto aposentado da literatura. Hoje sou apenas um leitor e não sou um deslumbrado comigo mesmo; pelo contrário, sou um escritor que tem uma autocrítica excessiva e inibidora. Talvez por eu ter escrito tão pouco essa autocrítica inibe”. Felizmente, sua literatura permanece viva — nada aposentada. Ele é menos irônico e mais suave do que Machado de Assis, mas é um par, um degrau abaixo, no máximo.

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Capitu Nascimento

Tive o prazer de ser aluna de Cyro dos Anjos na UFRJ.

Erick Camilo

E com esse nome, nada mais apropriado!!! Deve ter sido um prazer!!!

Margaida Lage

Seu livro ” A Criação Literária ” é uma jóia !