Euler de França Belém
Euler de França Belém

Críticos examinam de maneira incisiva e corrosiva O Irmão Alemão, romance de Chico Buarque de Holanda

Alcides Villaça e José Castello destacam as qualidades do novo romance do escritor brasileiro. Alcir Pécora e Marcelo Coelho exibem certas inconsistências da arquitetura literária do trabalho

“O Irmão Alemão” conta, pelo artifício da ficção, a história de um filho alemão do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Sergio Günther, irmão mais velho de Chico Buarque de Holanda, era jornalista, cantor e apresentador de TV na Alemanha Oriental, a comunista

“O Irmão Alemão” conta, pelo artifício da ficção, a história de um filho alemão do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Sergio Günther, irmão mais velho de Chico Buarque de Holanda, era jornalista, cantor e apresentador de TV na Alemanha Oriental, a comunista

Em cima da pinta, quando os autores tinham acabado de lançar seus melhores livros, o crítico literário Edmund Wilson publicou ensaios de alta qualidade reunidos em “O Castelo de Axel”. Neste livro, muito bem formulado, no qual se revela um leitor-crítico agudo, Edmund Wilson examinou a literatura de, entre outros, Marcel Proust e James Joyce, lançando as bases para estudos mais detidos. Entre as décadas de 1920 e 1930, em cima da hora, o scholar de Princeton explicou e vulgarizou as prosas complexas do francês e do irlandês. Os acertos do americano, porém, nem sempre podem ser generalizados. Há obras — como as dos próprios autores de “Em Busca do Tempo Perdido” e “Ulysses” — que demandam análises mais detidas e menos apressadas.

Leituras rápidas, ainda que bem feitas e atentas, às vezes deixam escapar, senão a essência, filigranas que são igualmente importantes, porque compõem a base da história. Um bom romance pode ser escrito em seis meses ou um ano? Claro que pode. Mas resulta, muitas vezes, de um longo processo de maturação. Porém, uma obra que leva tempo para ser arquitetada pode ser desmontada, como se num passe de mágica, por um texto de 40 ou 60 linhas, ou, como se diz hoje, por um comentário de 2 mil a 3 mil caracteres? Talvez sim. Talvez não. Há análises curtas de alta qualidade e há análises longas de baixa qualidade.

O romance “O Irmão Alemão” (Companhia das Letras, 239 páginas), de Chico Buarque de Holanda, acaba de ser lançado e recebeu quatro comentários rápidos mas de qualidade de críticos qualificados: Alcir Pécora, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), Marcelo Coelho, mestre em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e colunista da “Folha de S. Paulo”, Alcides Villaça, professor da Universidade de São Paulo, e José Castello, crítico de “O Globo”. Os quatro artigos são muito bons, examinam a obra com atenção, apontando seus altos e baixos — uns menos, outros mais —, mas o leitor, o que se interessa por críticas literárias mais detidas, fica com a sensação de… “quero mais”. Ou melhor, de “preciso de mais para saber sobre as virtudes, ou falta delas, do romance”.

Porém, não raro mesmo as primeiras críticas mais aprofundadas de uma obra literária — Edmund Wilson fez história, mas outros autores aprofundaram suas teses e formularam outras, não raro mais agudas e perceptivas, sobre Proust e Joyce — são similares às críticas de jornal. O que torna uma obra de arte mais canônica, por assim dizer, é a qualidade, e até a quantidade, da crítica que se vai publicando de tempos em tempos. Um romance vai se tornar melhor e mais rico a partir de leituras variadas. O tempo pode tornar uma obra literária melhor ou, também, pior. Fala-se, às vezes, em “crítica definitiva” de uma obra de arte. Há críticas mais percucientes, é certo, mas definitivas, não. A obra de arte, de algum modo, vai, ao longo do tempo, “reinventando” sua crítica. A releitura — sinônimo para crítica, quiçá — reformata o romance e este reformata sua crítica. Assim, quanto mais densa uma obra, a que sobreviver à corrosão do tempo, mais atrai uma crítica vigorosa. As obras de arte, tanto no campo da prosa quanto da crítica, não são concorrentes — são complementares. A largueza de visão de um crítico, sua capacidade de conectar autores e leituras, pode tornar aquilo que examina mais sólido e reverberante.

“O Irmão Alemão” recebeu críticas matizadas, apesar do escasso espaço concedido pelos jornais, mas fica-se com a impressão de que não houve tempo para a digestão de sua suposta qualidade. Alcides Villaça, na crítica “Humor e ritmo do discurso são o forte do romance”, publicada no “Estadão” (sábado, 15), admite: “Sim, já estou falando de minha recentíssima e ainda não digerida leitura de ‘O Irmão Alemão’”.

Alcides Villaça começa falando dos narradores “ardilosos e estratégicos” da literatura de Chico Buarque. “Incisivas notas realistas e imaginosas transfigurações permeiam-se numa mesma passagem, possibilitando tanto o reconhecimento de uma situação familiar como a estranheza de um súbito lance de nonsense que a desvia do prosaico”, afirma um dos mais importantes críticos da literatura brasileira.

Ainda que aberto à prosa de Chico Buarque, Alcides Villaça anota: “Pergunto-me se o narrador não exorbita aqui e ali em seu direito de se divertir nas artimanhas, direito que é também dos leitores, mesmo dos mais sisudos. O humor é uma das forças do romance, como também o são o domínio da frase, da oralidade, do ritmo do discurso, das remissões cultas e eruditas com ou sem efeito paródico”. Marcelo Coelho, na crítica “Não há na obra nenhuma palavra mal escolhida nem frase fora do ritmo” (“Folha de S. Paulo”, sábado, 15), segue pela mesma seara, ecoando o título: “Não há nenhuma palavra mal escolhida, nenhuma frase fora do ritmo, nenhum parágrafo a que falte estrutura ou concatenação, nenhum capítulo que não acabe no momento certo”.

Marcelo Coelho nota que, “de novo, um tom de ironia uniforme, sem tiradas nem saliências, domina a narração, que administra surpresas sem que tudo pareça um truque. O entrecho, sem ter a sofisticação de ‘Benjamin’, é bastante satisfatório”.

A crítica mais dura, quem sabe mais precisa, é a de Alcir Pécora (“Folha de S. Paulo”, sábado, 15) — “Armadilhas na trama tornam livro de Chico Buarque uma autoficção insossa”. “A novela poderia guardar o encanto secreto das narrativas de busca, articuladas à tópica do duplo, não caísse em armadilhas fatais, que a tornam basicamente insossa”.

Para Alcir Pécora, a primeira armadilha “é a incapacidade de ajustar o tom picaresco da narração, associado à rivalidade sexual dos irmãos, ao pitoresco italiano da mãe e ao caricato alheamento intelectual do pai, com o tema dos desaparecimentos”. Marcelo Coelho, navegando noutra corrente, coloca pingos nos is: “Os problemas e as qualidades de ‘O Irmão Alemão’ surgem a partir da transparente película ficcional com que o autor quis revestir o episódio biográfico do pai [leia texto abaixo]. De um lado, a tensão narrativa ganha bastante com o recurso”. Mas, segundo o crítico, “os limites de Chico Buarque como ficcionista” ficam explícitos: “Os personagens da história carecem de vida própria. A mãe do narrador tem as características estereotipadas de uma italiana que cozinha lasanhas e exclama ‘Mamma mia!’. Sergio Hollander resume-se a uma sombra que lê, fuma e tosse”.

Ao apontar a suposta deficiência, Marcelo Coelho faz uma concessão: “Talvez esse esquematismo dos personagens faça parte do plano”. Alcir Pécora não é nada condescendente: “A segunda armadilha está dada pela forma de construir o passado com um realismo postiço, composto de marcas de carros, nomes de ruas, restaurantes de uma São Paulo de 1968. Tudo junto, vira só etiqueta de um burocrático retrô, não imagem convincente da cidade da época”.

Para Alcir Pécora, “até os festivais da canção são referidos” de maneira “distante, desmaiada — o que demonstra que a experiência da vida, sozinha, não basta para fazer falar o texto”.

A terceira armadilha, avalia Alcir Pécora, “diz respeito à produção de relatos pessoais que tomam a forma de investigações livrescas aleatórias, cheias de coincidências e achados. O resultado não é a representação de uma vivência única, mas um deixar cair de nomes que atua como pegadinhas literárias para o leitor esperto. A biblioteca do pai vira então uma listagem de livros cujos enigmas não apontam para nada, a não ser um culturalismo genérico, anódino. É nesse ponto que a chamada autoficção se encontra com a gripe que mais pega na literatura atual, não apenas brasileira: a temível Borgiária, o mal da emulação de Borges”. Uma crítica dura, a de Alcir Pécora? Pois sim, mas abre espaço para um debate saudável e refratário à louvação típica de província.

Os traumas políticos do Brasil, imerso em ditaduras, e da Alemanha, sob o totalitarismo de Hitler, “se equilibram na história, criando uma simetria talvez arriscada, que o autor prefere não explorar diretamente”, analisa Marcelo Coelho. O toque sutil “pode parecer”, anota o crítico, “sinal de certa pressa em terminar o livro. Faltam alguns momentos de respiro, de contemplação e reflexividade na escrita, sempre inteligente e bem construída, de Chico Buarque. As palavras estão perfeitas; a música de ‘O Irmão Alemão’, contudo, deixa a desejar”.

Alcides Villaça caminha numa estrada paralela e, ao mesmo tempo, diversa de Alcir Pécora e Marcelo Coelho: “Diria que Chico ironiza, sem descartar, recursos da nouvelle vague, dos filmes de Antonioni e de Godard, da força desafiadora dos sonhos, das sombras e dos simulacros que pontuam e mesclam gêneros artísticos da modernidade. O efeito de uma história grave assentada em base fluidas, ou da mescla entre as vivências fundas do sujeito e a potencialização delas numa outra órbita engenhosa, é o da relativização permanente dos fatos, do contínuo deslocamento entre o espaço da experiência e o da imaginação, entre a concretude de uma casa sólida, recheada e sustentada por histórias pessoais e livros, e a ampla alegoria um universo cultural que já se tornou espectral. A pujante engenharia retórica é também irônica e machucada perspectiva histórica”.

José Castello, na crítica “No limite de uma busca alucinante” (“O Globo”, sábado, 15), escreve: “Como uma dobradiça, o romance se desdobra em duas chapas de tamanho e forma semelhante — ora encaixado em fatos, nomes e documentos que prometem o real, ora erguido sobre as sombras não menos verdadeiras da imaginação. (…) Fantasmas — visões — se espalham pelas páginas. O que confere à literatura o caráter vital, ainda que assombrado, de máquina propagadora da realidade”.

As críticas de Alcir Pécora e Marcelo Coelho são mais distanciadas — curiosamente, a “Folha” ressalva que o primeiro considera o romance como “regular” e o segundo como “bom” —, destoando do típico coro dos contentes do País, e as críticas de Alcides Villaça e José Castello são mais “positivas” ou empáticas. Nenhuma é ruim.

Uma síntese da história: Sérgio Buarque de Holanda (Hollander, no romance), o notável autor do livro “Raízes do Brasil”, um clássico da estirpe de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, teve um filho com a alemã Anne Margerithe Ernst, em 1930, na Alemanha. Jornalista, era correspondente de “O Jornal”, publicação de propriedade de Assis Chateaubriand. Na Alemanha, o jovem Sérgio Buarque descobriu, ao entrevistá-lo, que o escritor Thomas Mann, autor de “A Montanha Mágica”, era filho de uma brasileira, Júlia da Silva Bruhns, com um alemão que havia residido no Brasil. O romance “busca” a história de Sergio Georg Ernst (Sergio Günther), o irmão de Chico Buarque e filho de Sérgio Buarque. Não deixa de ser curioso: o autor de “Doutor Fausto” tinha uma mãe brasileira e o autor de “Monções” e “Visões do Paraíso — Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil”, um filho alemão.

7 respostas para “Críticos examinam de maneira incisiva e corrosiva O Irmão Alemão, romance de Chico Buarque de Holanda”

  1. Avatar camila disse:

    Concordo com o Alcir Pécora a meu ver Chico mtas vezes quer mostrar seu arcabolso e não nos faz viajar para a cidade da época

  2. Avatar Regina disse:

    Oh, querida Camila, o que seria um arcabolso? Melhor consultar um dicionário. Interferir em discussão de críticos literários requer muita bagagem, meu bem.

  3. Avatar Benedito Pires de Araujo disse:

    Realmente arcabouçou tudo…O livro é bom , vou ler de novo na esperança que ele fique ótimo…

  4. Avatar Estevam Von Claus disse:

    Chico é um autor etilista e cheio de emaranhados. Suas narrativas são tão ralas… que elas precisam de malabarismos linguísticos, entre digressões e referências eruditas, para darem refinamento à trama. Li todos os seus livros e são sonados, esculpidos para serem uma obra de arte: mas extremamente cartesianos e monótonos. Seus livros não têm história: são esticamentos de frases que não querem dizer nada… E só.

    • Avatar Tainah Subtil disse:

      Não consigo descrever o alívio que sinto por ler uma crítica que abrange exatamente o meu sentimento! Estou travada no livro, história tão desinteressante que me fez conferir várias vezes o nome de um dos meus cantores preferidos no espaço “autor da obra” .
      Decepcionada com o livro.

  5. Avatar Fruto Vermelho disse:

    Pois é, O irmão alemão não me impressionou. Não atribuo isso a literariedade do texto de Chico, mas sim a minha expectativa acerca da obra. Depois de Leite derramado, que para mim é o auge do projeto literário desse autor, ele terá dificuldades para atingir o poder de síntese e amplitude alcançados com os murmúrios de Eulálio. O Irmão Alemão é cansativo, cheio de capítulos redundantes, sem contar a tentativa de se criar uma melopeia, cujo resultado são ruídos narrativos que em nada complementam ao enredo. Enfim, fico com os anteriores.

  6. Avatar Francisco Nobre Santos disse:

    Concordo que “O irmão alemão” não tem a mesma inventividade encontrada em “Leite Derramado” ou a mesma comicidade de “Budapeste”, mas trata-se de algo mais íntimo, algo feito mais para si mesmo, que remete a lembranças e impressões pessoais de ambientes e pessoas, coisas fragmentadas e, portanto, as partes faltantes precisam ser preenchidas como queira cada um, ou não. Dada a diferença gritante de estilo e enredo entre “Budapeste”, “Leite derramado” e “O irmão alemão”, discordo do comentário de alguns que os acham uma coisa só.

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