Euler de França Belém
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Críticos dizem que o filme “O Irlandês”, de Martin Scorsese, é uma obra-prima

Luiz Carlos Merten, do “Estadão”, e Inácio Araújo, da “Folha de S. Paulo”, ressaltam a qualidade do filme que é digno do rival Coppola

Paulo Francis dizia que cada jornal tinha pelo menos 315 críticos de cinema. Mudou: hoje todo mundo é crítico de cinema. Mas, brincadeira à parte, a crítica de cinema patropi tem um grau de excelência rara. A “Folha de S. Paulo” publicou um texto do “Times” sobre o filme “O Irlandês”, de Martin Scorsese, que comenta a parceria entre o diretor e os atores Roberto De Niro e Al Pacino, mas nada explica sobre a película — o que Luiz Carlos Merten e Inácio Araújo fazem com categoria.

Antes de apontar as qualidades dos comentários de Luiz Carlos Merten e Inácio Araújo, um breve comentário sobre o livro “O Irlandês — Os Crimes de Frank Sheeran a Serviço da Máfia” (Seoman, 310 páginas, tradução de Drago), de Charles Brandt — que foi primeiro-suplente do procurador-geral do Estado do Delaware e é advogado.

Martin Scorsese, Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino: quatro mestres do cinema | Reprodução

Frank “O Irlandês” Sheeran trabalhava para o presidente do Sindicato dos Caminhoneiros, Jimmy Hoffa, um associado da Máfia. O Irlandês era aliado de primeira hora de Hoffa. Mas acabou voltando-se contra seu protetor. “Virado” por seu “padrinho” — o mafioso Russell “McGee” Bufalino.

O Irlandês era um assassino profissional. Um matador. Hoffa, de aliado, começou a falar demais e cometeu o desatino de ameaçar a Máfia. “Cada vez que abria a boca, ele dizia algo sobre como iria expor a Máfia, e como iria varrer a Máfia do sindicato. Ele até mesmo chegou a dizer que impediria a Máfia de utilizar o fundo de pensão. Não consigo imaginar que certas pessoas tenham gostado de saber que a sua galinha dos ovos de ouro seria morta, caso ele [Hoffa] reassumisse a presidência [dos Caminhoneiros]”, relata o Irlandês. Ele chegou a alertar o “amigo” de que corria perigo. Sem sucesso. Hoffa, segundo o pistoleiro, havia levado a Máfia para o poderoso sindicato, “franqueando-lhe acesso ao fundo de pensão. Jimmy me trouxera para o sindicato” por intermédio “de Russell”.

Russell “Russ” Bufalino mandou matar Hoffa porque, ao sair da prisão, ele queria voltar ao comando do Sindicatos dos Caminhoneiros — cujo fundo de pensão era de 1 bilhão de dólares. Russ avisou Hoffa para deixar Frank Fitzsimmons na direção. O sindicalista resistiu.

O Irlandês lutou na Segunda Guerra Mundial, na Itália, e, fato raro, ficou em combate durante 411 dias. O futuro mafioso integrava a 45ª Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos.

Frank Sheeran (à esquerda) é interpretado por Robert De Niro | Fotos: Reproduções

Passemos às críticas de Luiz Carlos Merten, do “Estadão”, e de Inácio Araújo, da “Folha de S. Paulo”. O filme “O Irlandês” entrou em cartaz em alguns Estados na quinta-feira, 14, e será exibido pela Netflix a partir de sexta-feira, 22.

Crítica de Luiz Carlos Merten

Merten registra que “historiadores de crimes nos Estados Unidos dizem que o livro não é confiável e que Sheeran é um mitômano”. O jornalista deixa de registrar que outros críticos levam o autor, um pesquisador tido como criterioso, a sério. Como “O Poderoso Chefão”, de Mario Puzo, o livro de Brandt não é excelente, mas não é ruim. O filme “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, é muito melhor que o romance homônimo — deu-lhe grandeza. Pode-se dizer que melhorou o livro. Ainda não vi o filme de Scorsese, mas é possível que tenha ampliado a qualidade do livro, que não é um romance.

Al Pacino como Jimmy Hoffa e Robert De Niro como Frank Sheeran, o Irlandês | Foto: Divulgação

“A História é boa”, diz Merten. E é mesmo, e estou falando do que há no livro. A história da morte de Hoffa, assassinado pela Máfia, por mais que se tenha feito livros e até filme a respeito, permanece nebulosa. Há histórias que nunca são esclarecidas inteiramente, apesar de pesquisas exaustivas. É o caso das mortes de Hoffa — sim, liquidado pela Máfia — do presidente dos Estados Unidos John Kennedy. Brandt examinou toda a documentação e ouviu o Irlandês meticulosamente — dando uma lógica ao crime. Lógica que alguns contestam, mas não colocam nada igual no lugar. O ótimo Merten parece não perceber isto, quer dizer: há outras histórias, mas a contada por Sheeran é a mais plausível e não parece falsa. Por isso Scorsese baseou-se no livro de Brandt para contá-la num filme. No máximo, o Irlandês exagera sua importância na Máfia, mas o resto é, digamos, verdade. A verdade resulta de informações às vezes desencontradas — é uma síntese delas. Talvez estejamos sempre roçando a verdade, mas nunca, em determinados casos, encontrando-a integralmente.

Jimmy Hoffa e Frank “O Irlandês” Sheeran (o mais alto) reais: os amigos que se tornaram inimigos | Foto: Reprodução

“No centro do filme”, aponta Merten, “está um enigma: o desaparecimento de Jimmy Hoffa, o todo-poderoso presidente do Sindicato dos Caminhoneiros. Pacino é quem faz o papel. São todos amigos: Frank [Robert De Niro], Jimmy, Russell Bufalino (Joe Pesci). Amigos, amigos, negócios à parte. Hoffa prejudica negócios do crime organizado. Torna-se uma ameaça que é preciso eliminar”. Mas como matar “o segundo homem mais poderoso dos Estados Unidos” — atrás apenas do presidente da República?

Pois Russell Bufalino, o Russ, acredita que “nada é impossível”. Afinal, doze anos antes, em 1963, o presidente John Kennedy havia sido assassinado, possivelmente com a participação da Máfia — um “dedinho” que seja. Então, em 1975, a Máfia liquidou o “inoportuno” Hoffa — que simplesmente desapareceu. Aos 62 anos.

Merten observa, com propriedade, que “O Irlandês” é um “filme sobre velhos — que se reúnem para validar e executar assassinatos, é sobre poder e dinheiro, amizade e lealdade. Alguém, o próprio Scorsese, ou [Steve]  Zaillian [o roteirista], já disse que é sobre laços dissolvendo-se na longa noite das almas, quando ocorrem todas as traições”. Um trecho que, de tão bom, leva a assistir o filme.

“Sendo um filme de velhos, é bom que o espectador preste atenção no processo de envelhecimento de Niro, Pesci e Pacino, e inversamente no rejuvenescimento do trio — e também Harvey Keitel, que tem um papel importante no longa”, anota Merten. O crítico informa que Scorsese recomendou a De Niro que visse filmes de gângsteres com o ator francês Jean Gabin. Porque queria o mesmo tom de interpretação. “Isso talvez ajude a entender por que ‘O Irlandês’ é mais meditativo que os demais filmes de gângsteres do diretor. Olha o spoiler: a grande cena ocorre aos 45 do segundo tempo. O encontro de Frank com a filha. Tudo em ‘O Irlandês’ leva até ali.”

O título do texto de Merten é “Martin Scorsese volta ao universo da máfia em ‘O Irlandês” e foi publicado na quinta-feira, 14, no “Caderno 2”.

Crítica de Inácio Araújo

O artigo “Obra-Prima de Scorsese, ‘O Irlandês’ o revela como um anti-Coppola” (quarta-feira, 13), de Inácio Araújo, toca num ponto crucial: nem todos os grandes filmes sobre a Máfia são filhos de “O Poderoso Chefão”.

Noutros filmes, pontua Inácio Araújo, Scorsese prioriza pequenos gângsteres. “É um tanto diferente o que se passa em ‘O Irlandês’, em que pela primeira vez Scorsese opta por um tratamento realmente épico para a saga da organização criminosa nos EUA, ou de parte dela”, pontua o crítico.

“A máfia vista por Scorsese não tem nada de romântica. Nem mesmo possui a cerebralidade dos Corleones. Ela é suja, baixa, sangrenta visceralmente. Mas não simples. E a narrativa passa pelas alianças provisórias, pelas lealdades movediças, que se fazem e desfazem ao sabor dos acontecimentos, das ambições de cada um e dos problemas que se apresentam”, relata Inácio Araújo.

A história do Irlandês e de seus aliados, chefes e parceiros, é, sublinha Inácio Araújo, “cheia de realizações (criminosas, em geral) e percalços”. O crítico frisa que “é narrada de maneira prodigiosamente clara, dada sua complexidade (e complicação também), por Scorsese”.

Inácio Araújo diz que Scorsese “sempre foi um narrador exemplar. Desta vez ele se excede, seja ao detalhar as baixezas que caracterizam os grandes momentos dos gângsteres, ao descrever sem palavras um assassinato seco e vil, ou ao se deter nos diálogos cheios de não-ditos em que são pródigos esses supermarginais, ou ainda ao alternar as festas luxuosas (e sempre um tanto cafonas) com os bares um tanto infectos em que conspiram uns contra os outros, em que se dão os seus grandes e em geral sórdidos arranjos”.

Scorsese, portanto, é, em termos de máfia, “um anti-Coppola”. “Também em relação ao ritmo esses dois cineastas optaram por caminhos bem diversos. Onde o andamento de Coppola ao tratar a máfia é elegíaco, em Scorsese é nervoso, como se quisesse chamar a atenção não à cerebralidade dos, digamos, Corleone, o de Scorsese parece voltar-se sobretudo à vitalidade, a essa força que impulsiona os seus personagens na aventura e que o levam, aqui, a compor uma de suas obras-primas”.

Inácio Araújo não está dizendo, possivelmente, que Scorsese é superior a Coppola. Mas sim que o diretor de “O Poderoso Chefão” não esgotou o filão da máfia e é possível contar a história dela de modo diferente e com a mesma mestria do filme que se tornou um clássico (nunca frases de um assassino dos mais brutais, Michael Corleone, foram tão citadas, até como caminho a seguir).

O filme “O Irlandês” tem mais de três horas de duração. Longo? “Mas também pode-se dizer o mesmo dos romances de Dostoiévski. E nem por isso…”, afirma, com propriedade, Inácio Araújo.

Merten e Inácio Araújo escrevem tão bem sobre filmes que, de repente, o leitor fica até imaginando que cinema é arte.

(O brutal Irlandês morreu em 2003 e não poderá ver o filme de Scorsese. É provável que ficaria mesmerizado, não com sua violência, exposta sem glamour, mas com o fato de aparecer no cinema — o que, por si, é glamouroso.)

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