Augusto Diniz
Augusto Diniz

Críticas à imprensa são bem-vindas. Melhor resposta do jornalismo é continuar a fazer seu trabalho

Com redes sociais, aumenta pressão sobre trabalho dos profissionais de veículos de comunicação, que devem compreender como natural no processo democrático e ignorar o que vem da polarização virtual do debate político

Estreia da jornalista Vera Magalhães (Estadão, ex-Jovem Pan) no comando do Roda Vida, da TV Cultura, conseguiu manter a qualidade na condução do programa | Foto: Reprodução/TV Cultura

O programa Roda Viva de segunda-feira, 20, foi mais um dos que dividiu os lados virtualmente polarizados do debate político nacional. De um lado os apoiadores do ministro da Justiça e da Segurança Pública, ex-juiz Sergio Moro, entrevistado da noite. Do outro quem gostaria de ver uma entrevista mais pesada, com perguntas ainda mais comprometedoras. No meio ficaram questionamentos sérios da bancada de jornalistas convidados e da apresentadora, que estreava naquela ocasião, Vera Magalhães (Estadão, ex-Jovem Pan).

“Roda Viva não quer informar, quer constranger o entrevistado. Uma lástima a equipe de entrevistadores”, disse no Twitter o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Lamentamos informar a Heleno, mas o papel do jornalista é perguntar o que as autoridades não querer responder mesmo. O trabalho sempre benéfico, que só levanta a bola para o gestor público ou o governante cortar se chama assessoria de imprensa, trabalho sério, mas voltado à divulgação das ações, dados e eventos do assessorado.

Mas compreendemos que as pessoas não têm a obrigação de compreender perfeitamente o papel de uma imprensa séria e livre. E o Roda Viva de segunda-feira foi uma boa oportunidade para perceber as diferentes linhas editoriais dos veículos representados por seus funcionários, que atuaram como entrevistadores convidados pela TV Cultura.

Muitos sentiram falta de um nome do The Intercept Brasil na bancada, justamente do site de notícias com atuação de esquerda que publicou as primeiras reportagens com denúncias sobre a suposta atuação imparcial do ex-juiz Sergio Moro, procuradores do Ministério Público Federal e policiais federais que atuam e trabalharam na força-tarefa e no julgamento de processos da Operação Lava Jato. O veículo optou por realizar uma live nas redes sociais e comentar a entrevista de longe. O que também é válido.

Houve quem questionou as perguntas feitas pelos jornalistas. Outros ficaram insatisfeitos com a forma como o ministro se esquivou das indagações mais comprometedoras. E a plateia se dividiu também entre os que viram Moro muito bem, firme e seguro em suas respostas. Parte elogiou a atitude profissional dos repórteres e editores, mesmo com críticas pontuais a um dos nomes escolhido para a bancada daquela noite. Há até quem se incomode com a atuação da imprensa e denuncie jornalista como criminoso ao Poder Judiciário sem qualquer base legal.

A estreia de Vera Magalhães foi bem condizente com o que se esperou da jornalista: séria, com boa condução do programa, séria e incômoda nos questionamentos, mas sempre educada. Até quem adotou outra linha conseguiu arrancar boas informações do ministro da Justiça e da Segurança Pública.

Andreza Matais, editora-executiva do O Estado de S.Paulo (Estadão), se destacou em duas ocasiões. Foi ela quem indagou Moro sobre o posicionamento do ministro em relação à federalização da investigação do duplo homicídio da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes e do interesse do ex-juiz em ser candidato a presidente em 2022.

Independente das críticas e elogios, a atuação da imprensa, com ou sem ataques de autoridades, apoiadores, militância virtual ou qualquer pessoa, continuará a ser decisiva para bem informar a população e buscar sempre pelo zelo da coisa pública, com cobranças aos políticos que ocupam cargos eletivos.

Deslizes ocorrem, é claro, mas são devidamente corrigidos e garantem que agentes públicos busquem atuar ou aparentar a busca por práticas corretas ao governar. Mesmo que um ministro entenda que determinado trabalho da imprensa seja “um monte de bobajarada”.

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