Euler de França Belém
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Crítica literária Eneida Maria de Souza morre aos 78 anos e deixa uma obra substancial

A característica marcante dos ensaios de Eneida Maria de Souza é a alta qualidade média. Há uma densidade crítica rara e não há superficialidade nos seus textos

Eneida Maria de Souza: uma das mais eminentes críticas literárias do Brasil | Foto: Reprodução

A pesquisadora e crítica literária Eneida Maria de Souza morreu na terça-feira, 1º, aos 78 anos, de câncer (teria sido detectado tardiamente). Era professora emérita da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao lado de Telê Ancona Lopez, era considerada uma das maiores especialistas na obra de Mário de Andrade, autor de “Pauliceia Desvairada” (poesia) e “Macunaíma” (romance). Escreveu com brilhantismo sobre vários autores, como Pedro Nava, o maior memorialista do país, espécie de Proust da Língua Portuguesa, e Guimarães Rosa.

Lúcida e atenta, uma leitora excepcional — o que todo bom crítico é —, Eneida Maria de Souza lançou, em 2021, seu último livro, “Narrativas Impuras” (Cepe Editorial, 465 páginas). Ao lançá-lo, a scholar mineira disse: “As ideias surgem e desaparecem rapidamente no meio acadêmico, contaminadas pela insurgência do novo e pelo apelo das redes sociais. É um desafio entregar aos leitores os ensaios produzidos ao longo de duas décadas”. Dada a qualidade de sua crítica, do apuro e empatia com o qual lia os livros comentados, a tendência é que a crítica da mestre mineira permaneça — como o café, Balzac e Madame de Stäel.

Na Faculdade de Letras, Eneida Maria de Souza era uma fonte de luz, de inovação, criatividade e espírito realizador. Em 1985, ao lado das mestras Ana Lúcia Gazzola, Vera Casanova e Ruth Silviano Brandão, fundou o doutorado em Literatura Comparada. Ele foi presidente da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).

Com o apoio dos professores Wander Melo Miranda e Melânia Silva de Aguiar, Eneida Maria de Souza criou o Acervo de Escritores Mineiros, com sede na Biblioteca Universitária, com um acervo de 25 mil livros, teses de doutorado, dissertações de mestrado, fotografias, manuscritos e correspondência entres escritores, como Henriqueta Lisboa, Cyro dos Anjos e Murilo Rubião.

A dissertação de mestrado de Eneida Maria de Souza, sobre o escritor mineiro Autran Dourado, foi apresentada na UFMG em 1975. Em seguida, na Universidade de Paris 6, defendeu sua tese de doutorado, que, publicada em livro, com o título de “A Pedra Mágica do Discurso”, se tornou uma referência na área dos estudos sobre o modernismo

Outros livros da prolífica Eneida Maria de Souza: “Crítica Cult”, “Pedro Nava — O Risco da Memória”, “Tempo de Pós-Crítica1, “O Século de Borges”, “Correspondência — Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa”, “Ensaios de Crítica Biográfica” e “Modernidade Toda Prosa” (o último em parceria com Marília Rothier).

A característica marcante dos ensaios e dos livros de maior fôlego de Eneida Maria de Souza é a alta qualidade média de tudo que escreveu. Mesmo nos textos mais curtos, afigura-se uma densidade crítica rara, não há superficialidade nos seus textos. Sua alta produção crítica sugere que viveu mais dos que os 78 anos reais.

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