Euler de França Belém
Euler de França Belém

Crítica da Folha de S. Paulo comete erros sobre a série Godless-Sem Deus

Luciana Coelho diz que bandidos mataram os homens de La Belle. Eles morreram devido ao desmoronamento de uma mina

Alice Fletcher é uma das principais personagens da série “Godless”

Luciana Coelho é a comentarista de séries da “Folha de S. Paulo”. É autora da coluna “Crítica Serial”. Suas críticas são, no geral, perspicazes e muito bem informadas. Mas na edição de sexta-feira, 24, no caderno “Ilustrada”, o artigo “Netflix moderniza faroeste em ‘Sem Deus’” contém alguns problemas, felizmente poucos.

Mary Agnes é a personagem mais forte de “Godless”. Ela lidera as mulheres na luta contra um bandido cruel e vingativo

“Sem Deus” (“Godless”), dirigida por Scott Frank, é um faroeste dos bons — ainda que não comparável às obras-primas de John Ford, Anthony Mann e Howard Hawks. Como tem sete episódios, a história pode ser contada mais lentamente, com maior desenvolvimento de vários personagens. A crítica de Luciana Coelho sobre as qualidades e até inovações do filme — quase filmes embutido numa série — é pertinente. A fotografia de Steven Meizler é, como nota a crítica, de rara excelência. Mas, a seguir, exponho alguns de seus equívocos.

O xerife Bill McNue é o herói homérico da série. Enxerga mal, é visto como moleirão, mas é um forte

Personagem principal

1 — Luciana Coelho diz que Alice Fletcher (a bela e competente Michelle Dockery) é a personagem principal. Talvez tenha razão. Porque Alice, uma mulher forte e, ao mesmo tempo, doce, é uma grande personagem. Difícil, quiçá impossível, discordar de que é a protagonista.

Frank Griffin é um grande vilão, um homem que faz suas próprias leis

Porém, do meu ponto de vista, o protagonista é o xerife Bill McNue (Scoot McNairy) — uma espécie de Ulisses (a personagem da “Odisseia” de Homero), que sai à procura do vilão Frank Griffin (Jeff Daniels). Quase cego, Bill McNue peregrina por vários lugares, enfrenta uma série de perigos e volta à sua Ítaca — onde, com o apoio de mulheres decididas e de Roy Goode (Jack O’Connel), consegue vencer o “exército” de criminosos liderado por Frank Griffin. Este é “caçado” pelo filho “adotivo” Roy Goode.

Frank Griffin, Bill McNue e Roy Goode são grandes personagens. Roy Goode talvez seja inspirado no Shane (“Os Brutos Também Amam”) de George Stevens.

O pai do filho da notável Alice Fletcher morreu e o garoto, no seu processo de formação, adota Roy Goode, o bandido com ar de mocinho, como “pai”.

Roy Goode, bandido com ar de mocinho, com Alice Fletcher atrás; ele é uma espécie de Shane, do filme de George Stevens

Desmoronamento da mina

2 — Luciana Coelho escreve: “La Belle, a cidadezinha produtora de prata tomada como cenário, é comandada por mulheres, e eis aí a boa sacada para derrubar o clichê. Os homens foram mortos por bandidos ou fugiram; cabe a elas proteger o lugar de forasteiros que queiram pilhar o povo da forma tradicional ou por meio da pressão de contratos espúrios”. Há, aí, vários problemas.

Os mineiros de La Belle não “foram mortos por bandidos” nem “fugiram”. Oitenta e três mineiros morreram devido ao desmoronamento da mina de prata. Houve apenas um sobrevivente — que enlouqueceu.

Luciana Coelho não percebeu, mas a maioria das mulheres, quando chegam os forasteiros, para ludibriá-las a respeito da mina de prata, aceitam suas propostas. A solidão “fala” mais alto, aparentemente. Mary Agnes (Merritt Wever) reage bravamente, mas fica isolada.

A cidade tem um xerife, Bill McNue, que, embora não seja um pamonha — mas é assim que a cidade o percebe (as pessoas nada sabem sobre sua quase-cegueira; na verdade, miopia) —, praticamente não enxerga (o que resulta em certa fragilidade). Passa a ver direito quando adquire óculos. Ele é um homem corajoso, tanto que sai sozinho atrás do brutal assassino Frank Griffin (a performance de Jeff Daniels é formidável).

A rigor, as mulheres não defendem a cidade inicialmente — inclusive porque o xerife tem um auxiliar, Whitey Winn (Thomas Brodie-Sangster), que, apesar de jovem, é relativamente eficiente. Pode-se dizer que uma mulher, Mary Agnes, comporta-se como delegada da cidade.

Com a quase-cegueira do irmão, Bill McNue, e depois da morte da maioria dos homens de La Belle, Mary Agnes veste calças de homem, comporta-se como homem e defende a cidade. Quase uma xerife honorária, é inteligente, atira bem e é, até, uma estrategista de primeira linha. Trata-se de forte candidata a protagonista. É uma revolucionária até em termos comportamentais (leia adiante).

Quando Frank Griffin decide atacar La Belle, Mary Agnes organiza sua defesa, mobilizando todas as mulheres, que, notavelmente, enfrentam os experimentados bandidos e praticamente os derrotam — antes da chegada de Bill McNue e Roy Goode.

Não diria que as mulheres da série são masculinizadas — exceto a admirável Mary Agnes —, e sim que são mais fortes do que os homens. Homens fortes mesmo só Frank Griffin — que lembra o Hermógenes de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa — e John Cook (quase um Riobaldo com espírito do Ulisses homérico).

Mary Agnes e mais duas mulheres (a da direita é sua namorada): as poderosas de La Belle

Homossexualidade no faroeste

3 — A crítica não menciona outro diferencial da série: a ótima Mary Agnes, quiçá mais forte do que Alice Fletcher, mantém uma relação homossexual com uma prostituta que se tornou professora de crianças. As duas se amam. Trata-se de uma heresia em termos de western.

Marshall e não militar

4 — “Sam Waterston [John Cook] interpreta o militar enviado a cidade” (La Belle). De fato, John Cook, cujo destino é surpreende, procura militares para enfrentar a quadrilha de Frank Griffin. Mas tudo indica que não é militar, tanto que é chamado de “marshall” (um delegado federal, um xerifão), usa uma insígnia (a estrela) e não usa farda.

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Paulo Lima

ou seja, ela não assistiu ou não nasceu pra ser critica de alguma coisa rs

Luciana Barbosa

Boa crítica.Você viu a série.Melhor série do ano.

Joel

Contou a série inteiro, isso não é crítica, acabou com as expectativas de quem ainda não assistiu

Flávio

Você tb errou. Os homens morreram queimados na mina. Não foi desmoronamento. ?

Ibsen

E vc errou Tb fera. Eles não morreram queimados. Morreram intoxicados. Seus corpos estão intactos e em perfeito estado.