Crítica de jornalista da “Folha de S. Paulo” revela ressentimento devido a furo de “O Globo”. Mas tese de que a Globo não tem “lados” reflete certa “ingenuidade” de um editor realista

Marcelo Coelho e Ali Kamel: o primeiro, da “Folha de S. Paulo”, critica “excessos” da Globo e o segundo, seu diretor de Jornalismo, afirma que a rede “não tem lados”

“Quer pureza? Não vá ao convento.” É a recomendação de um filósofo pouco requestado mas de um realismo exacerbado e verdadeiro. Ainda assim, jornalistas se consideram os puros da aldeia e terçam forças na defesa de um jornalismo dito “independente” e “imparcial” — ficções semelhantes aos romances “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Certo está Mino Carta, o polêmico diretor de redação da “CartaCapital”, quando posta, na capa, que apoia o candidato do PT a presidente da República. As demais publicações têm seus candidatos e aliados, mas relutam em prestar a informação aos seus leitores, fingindo adotar um jornalismo “independente” e “imparcial”. Aécio Neves, afastado do Senado pelo Supremo Tribunal Federal, demorou a figurar na capa de uma revista, como a “Veja”, enquanto petistas são figuras carimbadas em quase todas as publicações. Não há como negar que políticos tucanos recebem certa “proteção” do jornalismo aparentemente “objetivo”, mas, na verdade, “subjetivo” praticado no país.

Objetividade é uma utopia, pela qual eventualmente se luta, mas jamais é alcançada. Ou melhor, alcança-se certa objetividade. Frise-se: certa. As denúncias publicadas pelos jornais e revistas ocupam um espaço muito maior do que a resposta dos “suspeitos” ou “acusados”. Finge-se que “o outro lado”, inclusive com o uso de tais palavras, ganhou espaço suficiente para se defender. Na prática, o espaço é mínimo. É certo que, por vezes, “acusados” ou meramente “suspeitos”, na defensiva, preferem falar pouco, quase nada.

Jornalistas apreciam investigar o lodo dos outros, esquecendo, por vezes, que seus pés não pisam nos astros, distraídos. Por isso, as polêmicas entre jornalistas, quando não pisam em ovos, são úteis para revelar os bastidores da imprensa.

O Grupo Globo apoiou o golpe civil-militar de 1964 e todos os governos militares — de Castello Branco a João Figueiredo. Chegou a ignorar o início da campanha pelas Diretas Já, até ser surpreendido pela vitalidade da sociedade civil e das oposições e aí decidiu cobrir o fato de maneira correta. Há algum tempo, quando se tornou positivo ser contra as gestões militares, o Grupo Globo divulgou um documento no qual admitiu que cometeu um erro ao apoiar a ditadura. Uma pergunta ainda carece de resposta: qual Grupo Globo era e é mais crível — o que apoiou ou o que desapoiou a ditadura? Historiadores profissionais, mais do que jornalistas, sabem que não se ajusta a história com uma canetada e com um mero pedido de desculpas. O passado pode ser reconstruído, mas não com certo tipo de mea culpa que nada acrescenta.

O Grupo Folha da Manhã, que edita a “Folha de S. Paulo” e publicou a extinta “Folha da Tarde”, apoiou tanto o golpe de 1964 quanto os governos ditatoriais. A aliança com certos governos militares, inclusive com seus porões, é uma história que os jornalistas da “Folha” até mencionam, mas de maneira cautelosa e lacunar. O apoio decidido às Diretas Já, em 1984, à retomada da democracia, era uma resposta ao apoio anterior, uma tentativa de “limpar” o passado, com o uso do “sistema” de compensação. Porém, do ponto de vista histórico, não se pode sugerir, porque seria falso, que 1984 “limpa” o 1964 da “Folha”. Tampouco que o 1964 do jornal “suja” toda sua história. As histórias de um meio de comunicação — assim como de um indivíduo, político ou não — ficam mais ricas se incorporam suas contradições, acertos e desacertos. Uma história “arrumadinha”, para criar uma imagem heroica — o jornal que quase “comandou” as Diretas Já —, não encobre histórias pouco católicas.

Uma consulta ao livro “Cães de Guarda — Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988”, da historiadora Beatriz Kushnir, desconcerta aqueles que acreditam num jornalismo heroico. A história de uma imprensa resistente, tão em voga mencionar, sai manchada, e não ligeiramente. Mas o chamego entre “O Globo” e a “Folha de S. Paulo” com a ditadura — da qual, depois de amá-la, divorciaram, de maneira litigiosa, e difamando a “ex-companheira” — não deve sugerir que os dois jornais não evoluíram. A democracia, com a recriação da liberdade, contribuiu para recompor o jornalismo das publicações das famílias Marinho e Frias. Hoje, os jornais são de excelente qualidade. A TV Globo melhorou muito seu sistema de apuração jornalística e tem sido rigorosa, na medida do possível, na exposição do contraditório. Chega a ser chato, mas é necessário.

Coelho versus Ali

Quando Paulo Francis, brigado com o ombudsman Caio Túlio Costa, deixou a “Folha de S. Paulo” rumo ao “Estadão”, o diretor de redação, Otavio Frias Filho, parece ter avaliado que seu substituto imediato seria o jornalista Marcelo Coelho, cuja formação é na área de Ciências Sociais. Felizmente, até por sua moderação habitual, Marcelo Coelho não seguiu pela mesma seara de Paulo Francis, revelando-se, com o tempo, um articulista moderado e reflexivo. É muito difícil apresentar um excesso saído de sua pena, sempre cautelosa e refinada.

Leitor do filósofo americano Emerson e do filósofo francês Montaigne, Marcelo Coelho tem o hábito de apresentar as ideias, inclusive de oponentes intelectuais, se os tem, de maneira aberta, sem radicalismos. Isto não quer dizer que não se posiciona. Na quarta-feira, 24, publicou um artigo, “Sem vozes divergentes, Globo embarca em precipitações no caso Temer”, que parece ter sido escrito, dada certa ira, por outro jornalista. Na quinta-feira, 25, num tom de cruzado, o diretor de Jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, de formação similar à de Marcelo Coelho, escreveu um artigo, “Vamos falar de Coelho?” (uma alusão a John Updike, quem sabe, ou à pressa, não raro irmã do destempero, do articulista) para defender o grupo de comunicação no qual trabalha.

Marcelo Coelho começa assim o seu artigo: “Por essa os adversários de Michel Temer não contavam. Veio da Rede Globo o noticiário que torna praticamente inviáveis as reformas liberais de seu governo”. Parece mais um editorial do “Estadão”, aqueles artigos inestimáveis e densamente posicionados, do que um artigo da “Folha” e, sobretudo, de Marcelo Coelho. Em seguida, firma: “A Globo trouxe alegrias à esquerda, e promoveu para Lula e Dilma uma vingança com que eles jamais poderiam ter sonhado”.

Até por equívoco factual, Marcelo Coelho favorece a defesa-ataque de Ali Kamel. O furo de reportagem, no qual se aponta que o delator premiado Joesley Batista, chefão do grupo JBS-Friboi, havia gravado o presidente da República, Michel Temer, sugerindo que aprovava o controle, por meio de dinheiro, do ex-deputado federal Eduardo Cunha, que está preso em Curitiba, é de responsabilidade do notável repórter e colunista Lauro Jardim, de “O Globo” — não é da TV Globo. Independentemente das preocupações com a economia — a “Folha” raramente se preocupa com isto ao publicar denúncias contra autoridades —, havia um furo de reportagem a ser, senão elogiado, ao menos notado.

Se era contra a divulgação (e a repercussão) da notícia dada em primeira mão pelo “Globo”, por que, do alto de sua autoridade de membro do Conselho Editorial, Marcelo Coelho não impediu que a “Folha de S. Paulo” publicasse a mesma notícia (“33 minutos depois” do furo de “O Globo”, nota Ali Kamel)? Leia trecho da reportagem da “Folha”: “O presidente Michel Temer foi gravado por um dos donos do grupo J&F, proprietário do frigorífico JBS, falando sobre a compra do silêncio do ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A informação foi dada pelo colunista Lauro Jardim, do jornal ‘O Globo’, e confirmada pela ‘Folha’”. O jornal de Otavio Frias Filho e Luís Frias endossou a reportagem do concorrente.

Marcelo Coelho acrescenta: “Ninguém tinha ouvido a gravação. Foi a meu ver uma irresponsabilidade”. Se a “Folha” tivesse dado o furo, o jornalista estaria criticando ou comemorando? A crítica é “mágoa” ou “ressentimento” de quem foi furado? Talvez. O jornalista não deveria ter feito uma crítica — cerrada ou não — à Procuradoria da República e aos delatores premiados da J&H/JBS, como Joesley Batista, as matrizes da denúncia que abalaram Michel Temer e seu governo?

“Em intensidade e concentração no tempo, os ataques a Temer e Aécio foram piores do que qualquer coisa já feita pela Globo”, escreve Marcelo Coelho. A resposta de Ali Kamel é adequada: “Um leigo em jornalismo pode escrever isso sem que se possa falar em má-fé; um jornalista, nunca. A Globo não atacou ninguém: a Globo, noticiou, com fidelidade, as acusações que a Procuradoria faz”. As críticas ao PT, no limite do brutal, não são apontadas nos artigos do articulista da “Folha”.

Uma das mais notáveis repórteres da “New Yorker”, Janet Malcolm escreve, no livro “O Jornalista e o Assassino”: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. No final de seu artigo, Ali Kamel anota: “A postura da Globo, está comprovado, é a de quem não tem lados. Deixo aos leitores que julguem a postura de Coelho”. Talvez seja o principal equívoco do diretor de Jornalismo da TV Globo. O Grupo Globo, não só a Globo, tem “lado” ou “lados”. Como todos os demais meios de comunicação. Jornalismo não é só jornalismo — é também negócio. Ninguém vive de fantasia. Jornalismo é mais distópico do que utópico.