Euler de França Belém
Euler de França Belém

Cosac Naify põe nas livrarias uma tradução caprichada de Absalão, Absalão!, uma obra-prima de Faulkner

Um dos mais brilhantes romances do Nobel de Literatura americano ganha tradução precisa de Celso Paciornik e Julia Romeu

Grandes escritores são capazes de escrever obras-primas e, ao mesmo tempo, obras medianas. Mas há aqueles que, artesãos refinados, são autores de várias obras-primas, às vezes parecidas, às vezes muito diversas — deixando a impressão de que se tratam de autores diferentes. É o caso de Machado de Assis, criador de pelo menos quatro romances e alguns contos memoráveis, que, de tão modernos, permanecem e permanecerão eternos. O americano William Faulkner, Nobel de Literatura, é autor de vários romances acima da média, como “O Som e a Fúria”, “Enquanto Agonizo” (engraçado: vejo este romance como uma espécie de “Odisseia”, de Homero), “Luz em Agosto” e “Absalão, Absalão!”. Este sai agora pela Editora Cosac e Naify, numa edição caprichada, como tradução precisa, mais próxima das invenções literárias de Faulkner do que a versão anterior (mais seca e menos tortuosa, quem sabe amainada).

Celso Mauro Paciornik e Julia Romeu saíram-se muito bem. Em nenhum momento tentaram refinar o Joyce americano, tornando-o, digamos, mais literário, clássico e facilitado (esclareço, porém, que não tive acesso à tradução completa, exceto ao trecho publicado abaixo). A literatura de Faulkner, como a de Dostoiévski, é cheia de arestas propositais, que, na falta da palavra justa, pode-se chamar de estilo. Paciornik e Romeu legam ao leitor patropi um Faulkner mais próximo do verdadeiro, se esta figura existe — mais enviesado, não raro fragmentário e nem sempre preciso ao contar as histórias. Faulkner não é um escritor “esclarecedor”. Ele conta, se conta, com a cumplicidade do leitor, do bom leitor, que, nas partes obscuras, de matizes mais complexos, deve concluir por si, porque o autor não conclui e não quer concluir, deixando as obras abertas. O leitor de Faulkner é, para exagerar e, até, exasperar os críticos exigentes, meio autor e deve ser por isso que sua literatura densa, perscrutadora, incomoda e apaixona tanto àqueles que, deixando a preguiça de lado, mergulham, com a cara e a coragem, nas profundezas de suas águas sempre turvas. Faulkner não é autor para leituras nos “passeios” de metrô ou para os momentos de descanso. É autor para as “grimpas” do cérebro. Ainda assim, é menos difícil de se ler do que às vezes se pensa. Há uma luminosidade na obscuridade de suas histórias, ao ressaltar que vidas não podem ser explicadas inteiramente — nem mesmo pela história —, mas, contadas, podem ser apreciadas, com as nuances devidas.

O Faulkner que nos chega via “Absalão, Absalão”, na pena precisa da dupla Paciornik e Romeu, nos dá imenso prazer. O prazer dos grandes livros, vertido com rara mestria. Acrescente-se que traduzir Faulkner deveria ser incluído entre as tarefas de Hércules. É uma missão quase impossível, mas, lendo o trecho abaixo, percebe-se que é preciso dizer que, agora, é uma missão quase possível.

Faulkner mimetizou Joyce, porém, com seu tema profundamente sulista — suas histórias de negros, negros-brancos ou brancos-negros, de violências desmedidas —, também se tornou diferente do irlandês. O autor de “Sartoris” é, pois, filho de Joyce, mas com certo grau de autonomia e rebeldia. Diria que é um filho ilegítimo? Não sei. Entretanto, sem a existência de Joyce, teria, quem sabe, se tornado no máximo o Dostoiévski dos Estados Unidos. A brutalidade da prosa de Faulkner lembra a do russo, mas a forma, gerada a partir da obra do autor de “Ulysses”, é diferente e mais complexa. Joyce libertou Faulkner de Dostoiévski, quem sabe de Shakespeare, que amava, mas Dostoiévski certamente deu-lhe uma voz poderosa, o que o torna diferente do criador de “Finnegans Wake”, mas a forma também o torna diferente do autor de “Crime de Castigo” e de “Os Irmãos Karamázov”. Diferente, mas não inteiramente diferente. Porque praticamente todos os escritores, depois de 1922, de “Ulysses”, mesmo quando tradicionais, se tornaram “filhos” de Joyce. Joyce “inventou” uma tradição, à qual pertencem Faulkner e o brasileiro Guimarães Rosa.

O romance “Absalão, Absalão!” é de 1936, mas, 79 anos depois, parece ter sido escrito ontem. A história se passa no tempo da Guerra Civil Americana — espécie de grande parto da história dos Estados Unidos. Nesta batalha brutal, na qual morreram quase 1 milhão de pessoas, os Estados Unidos morreram e renasceram. A obra conta a história da família de Thomas Sutpen.

Trecho do romance “Absalão, Absalão!”

De um pouco depois das duas da tarde até quase o sol se pôr na longa, calma, quente, maçante e ociosa tarde de setembro, eles permaneceram sentados no que a Srta. Coldfield ainda chamava de escritório porque assim o tinha chamado seu pai – um quarto escuro, quente e abafado, com todas as venezianas fechadas e trancadas havia quarenta e três verões porque quando ela era menina alguém acreditara que luz e ar corrente traziam calor e que no escuro era sempre mais fresco, um cômodo que (na medida em que o sol batia com mais e mais força naquele lado da casa) ficava rajado de talhos amarelos repletos de grãos de poeira que, para Quentin, pareciam as lascas da própria tinta velha e seca, soltas das venezianas descamadas como se o vento as tivesse soprado para dentro. Havia uma trepadeira de glicínias florindo pela segunda vez naquele verão numa treliça de madeira em frente a uma janela na qual pardais surgiam de vez em quando em rajadas impetuosas, fazendo um barulho seco, vívido e empoeirado antes de sair voando: e, diante de Quentin, a Srta. Coldfield no luto eterno que vestia havia quarenta e três anos, se por irmã, pai ou não-marido ninguém sabia, sentada tão empertigada na cadeira dura e reta que de tão alta para ela deixava suas pernas penderem verticais e rígidas como se tivessem tíbias e tornozelos de ferro, sem tocar o chão com aquela aparência de raiva estática e impotente como os pés de uma criança, e falando naquela voz soturna, exausta e atônita até que, por fim, o ouvir renunciaria e o sentido da audição se confundiria e o objeto havia muito enterrado de sua frustração impotente mas indômita emergiria como se evocado por ultrajada recapitulação, sereno, distraído e inofensivo, saído do paciente e onírico e vitorioso pó.

Sua voz não cessava, se desvanecia apenas. Havia a escuridão baça cheirando a defunto, adoçada e superadoçada pela glicínia que floria pela segunda vez contra a parede externa, pelo sol inclemente e sereno de setembro, destilada e hiperdestilada, na qual penetrava de vez em quando o farfalhar forte e confuso dos pardais como uma vareta de madeira fina estalada por um menino à toa, e o cheiro rançoso de carne velha de mulher havia muito resguardada na virgindade, enquanto o rosto descorado e exausto o fitava sobre o triângulo pálido de rendas em punhos e garganta da cadeira alta demais onde ela parecia uma criança crucificada; e a voz não cessando mas desvanecendo para dentro e para fora dos longos intervalos como um regato, um filete correndo de banco a banco de areia seca, e o fantasma cismando com sombria docilidade como se fosse a voz que ele assombrava, enquanto outro mais afortunado teria uma casa. De um silencioso trovão ele irromperia (homem-cavalo-demônio) numa cena pacata e decorosa como uma aquarela premiada na escola, um vago cheiro de enxofre ainda nos cabelos, roupas e barba, e, agrupado atrás dele, seu bando de pretos selvagens, como feras meio domadas para andarem eretas como homens, com ares selvagens e tranquilos e, algemado entre eles, o arquiteto francês com sua aparência triste, exausta e esfarrapada.

Imóvel, barbado e com a palma da mão erguida estava o cavaleiro; atrás dele, os negros selvagens e o arquiteto cativo se ajuntavam em silêncio, carregando em incruento paradoxo as pás e picaretas e machados de uma conquista pacífica. Então, no longo desassombro Quentin pensou que estava vendo-os invadir abruptamente as cem milhas quadradas de terra calma e atônita e arrancar violentamente casa e jardins simétricos do Nada silencioso e deitá-los como se fossem cartas de baralho sobre uma mesa diante daquele de palma 7 erguida, o imóvel e pontifical, criando a Centena de Sutpen, o Faça-se a Centena de Sutpen como o ancestral Faça-se a Luz. Então a audição se conciliava e ele agora parecia ouvir dois Quentins diferentes – o Quentin Compson que se preparava para Harvard no Sul, o Sul profundo morto desde 1865 e habitado por fantasmas prolixos, ultrajados, desnorteados, ouvindo, tendo que ouvir um dos fantasmas, que havia mais tempo ainda que a maioria se recusava a descansar, contar-lhe sobre velhos tempos fantasmagóricos; e o Quentin Compson que ainda era jovem demais para merecer ser um fantasma, mas tendo

que sê-lo por tudo aquilo, pois nascera e fora criado no Sul profundo feito ela – os dois Quentins diferentes falando agora um com o outro no longo silêncio de não-pessoas em não-língua, assim: Parece que esse demônio – seu nome era Sutpen – (coronel Sutpen) – coronel Sutpen. Que veio do nada e sem aviso para esta terra com um bando de pretos estranhos e construiu uma fazenda – (abriu violentamente uma fazenda, diz a Srta. Rosa Coldfield) – violentamente. E casou-se com a irmã dela, Ellen, e gerou um filho e uma filha que – (Sem carinho gerou, diz a Srta. Rosa Coldfield) – sem carinho. Que deveriam ter sido as joias de seu orgulho e o abrigo e conforto de sua velhice, só que – (Só que eles o destruíram ou algo assim ou ele os destruiu ou algo assim. E morreram) – e morreram. Sem pesar, diz a Srta. Rosa Coldfield – (Exceto dela) Sim, exceto dela. (E de Quentin Compson)Sim. E de Quentin Compson.

“Porque você vai embora para cursar a universidade em Harvard, foi o que me contaram”, disse a Srta. Coldfield. “Por isso eu imagino que nunca voltará para cá para se estabelecer como um advogado rural numa cidadezinha como Jefferson, já que o povo do Norte já cuidou de deixar pouca coisa no Sul para um jovem. Por isso, talvez entre na profissão literária como tantos cavalheiros e também damas do Sul estão fazendo agora e talvez algum dia se lembre disso e escreva sobre isso. Você já estará casado na ocasião, eu imagino, e quem sabe sua esposa vá querer um vestido novo ou uma cadeira nova para a casa e você poderá escrever isso e oferecer às revistas.

Talvez até se lembre com carinho da velha que o fez passar uma tarde inteira sentado dentro de casa ouvindo enquanto ela lhe falava de 8 pessoas e fatos dos quais você teve a sorte de escapar, quando preferi pessoas e fatos dos quais você teve a sorte de escapar, quando preferiria estar na rua com amigos jovens da sua idade.”

“Sim, senhora”, disse Quentin. Só que isso não é verdade, pensou ele. Ainda era cedo então. Ele ainda trazia no bolso o bilhete que tinha recebido da mão de um negrinho pouco antes do meio-dia, pedindo-lhe que a visitasse – o pedido singular, rigidamente formal que era, na verdade, uma intimação, vindo quase de outro mundo – a estranha folha de papel de carta antigo de qualidade coberta pela caligrafia boa, apagada, miúda que, devido ao espanto dele diante do pedido de uma mulher com três vezes a sua idade e a quem conhecia desde que nascera sem com ela ter trocado uma centena de palavras ou, talvez, devido ao fato de ter apenas vinte anos, ele não reconheceu como revelador de um caráter frio, implacável e até cruel. Ele obedeceu logo depois do almoço, atravessando a meia milha entre o seu lar e o dela no calor seco e poeirento do início de setembro e entrando na casa (esta também, de alguma maneira, era menor que seu tamanho real – tinha dois andares –, sem pintura e um pouco maltratada, mas com um ar, uma qualidade de inflexível durabilidade como se, como ela, tivesse sido criada para integrar e complementar um mundo sob todos os aspectos um pouco menor do que aquele em que se encontrava) onde, na escuridão do vestíbulo com as venezianas fechadas cujo ar era ainda mais quente que lá fora, como se nele estivesse aprisionado, como num túmulo, todo o suspirar do tempo lento e carregado de calor que se repetira durante os quarenta e três anos, a pequena figura de preto que nem sequer farfalhava, o triângulo descorado de renda em punhos e garganta, o rosto torvo fitando-o com expressão inquisitiva, urgente e intensa esperava para convidá-lo a entrar.

É porque ela quer que isso seja contado pensou ele para que pessoas que ela jamais verá e cujos nomes jamais ouvirá e que nunca ouviram seu nome nem viram seu rosto o leiam e saibam enfim por que Deus permitiu que nós perdêssemos a Guerra: que somente através do sangue dos nossos homens e das lágrimas das nossas mulheres Ele poderia deter esse demônio e apagar seu nome e linhagem da terra. Então, quase imediatamente, ele decidiu que essa também não era a razão pela qual ela enviara o bilhete, e tendo-o enviado, por que a ele, pois se apenas quisesse que aquilo fosse contado, escrito, ou até mesmo impresso, não teria precisado chamar ninguém – uma mulher que ainda na juventude de seu (de Quentin) pai já se estabelecera como a poeta laureada da cidade e do condado enviando para a severa e reduzida lista de assinantes do jornal do condado poemas, odes, panegíricos e epitáfios, saídos de alguma amarga e implacável reserva de vitória; e isso vindo de uma mulher cujos antecedentes militares, conhecidos tanto na cidade como no condado, consistiam do pai que, como objetor de consciência por motivos religiosos, havia morrido de inanição no sótão de sua própria casa, escondido (emparedado, disseram alguns) ali dos membros da guarda militar confederada e alimentado secretamente à noite por essa mesma filha que naquele exato momento acumulava seu primeiro fólio no qual os não-regenerados vencidos da causa perdida eram embalsamados nome por nome; e o sobrinho que serviu por quatro anos na mesma companhia do noivo de sua irmã e depois o matou com um tiro diante do portão da casa onde a irmã esperava em seu vestido de noiva na véspera do casamento e depois fugiu, desapareceu, ninguém soube para onde.

Ainda passariam três horas até ele descobrir por que ela mandara chamá-lo, porque esta parte, a primeira parte, Quentin já sabia. Era uma parte de sua herança após vinte anos respirando o mesmo ar e ouvindo seu pai falar daquele homem: uma parte da herança da cidade – de Jefferson – após oitenta anos do mesmo ar que o próprio homem tinha respirado entre aquela tarde de setembro de 1909 e aquela manhã de domingo em junho de 1833 quando entrou cavalgando na cidade pela primeira vez vindo de um passado indefinido e adquiriu sua terra ninguém soube como e construiu sua casa, sua mansão, aparentemente do nada, e casou-se com Ellen Coldfield e gerou seus dois filhos – o filho que enviuvou a filha que ainda não tinha sido noiva – e assim percorreu o curso que lhe cabia até seu violento (a Srta. Coldfield, ao menos, teria dito justo) fim. Quentin crescera com aquilo; os meros nomes eram intercambiáveis e quase inumeráveis. Sua infância estava repleta deles; seu corpo mesmo era um salão vazio ecoando sonoros nomes derrotados; ele não era um ser, uma entidade, era uma comunidade. Era um acampamento militar repleto de fantasmas teimosos que olhavam para trás e que ainda estavam se recuperando, quarenta e três anos depois, da febre que curara a doença, despertando da febre sem nem mesmo saber que havia sido contra a febre que tinham lutado e não contra a doença, olhando com recalcitrante teimosia para trás, para além da febre e para a doença com verdadeira nostalgia, enfraquecidos pela febre mas livres da doença e nem mesmo conscientes de que a liberdade vinha da impotência.

(“Mas por que falar disso para mim?”, disse ele a seu pai naquela noite, quando voltou para casa depois que ela enfim o dispensou com a promessa de vir buscá-la de charrete; “por que falar disso para mim? Que me importa se o lugar ou a terra ou seja o que for afinal se cansou dele e se voltou contra ele e o destruiu? E se destruiu mesmo a família dele também? Ele vai se voltar e destruir todos nós algum dia, sejam nossos sobrenomes Sutpen ou Coldfield ou não.” “Ah” disse, o Sr. Compson. “Anos atrás, nós do Sul transformamos nossas mulheres em grandes damas. Aí veio a Guerra e transformou as damas em fantasmas. Então o que mais podemos fazer, cavalheiros que somos, senão ouvir esses fantasmas?” Então ele disse: “Quer saber a verdadeira razão por que ela te escolheu?”. Eles estavam sentados na varanda depois do jantar, esperando pela hora que a Srta. Coldfield marcara para Quentin buscá-la. “É porque ela vai precisar de alguém para ir com ela – um homem, um cavalheiro, mas um que ainda seja jovem o suficiente para fazer o que ela quiser, fazê-lo da maneira como ela quer que seja feito. E ela te escolheu porque teu avô era a coisa mais próxima de um amigo que Sutpen jamais teve neste condado, e ela provavelmente acredita que Sutpen talvez tenha dito ao teu avô algo sobre ele próprio e ela, sobre aquele noivado que não durou, aquele compromisso que não se firmou. Talvez tenha até dito ao teu avô por que ela acabou se recusando a casar com ele. E que o teu avô talvez tenha me contado e eu contado a você. E assim, num certo sentido, o caso, a despeito do que possa acontecer lá hoje à noite, ainda estará em família; o esqueleto (se há um esqueleto), ainda no armário. Ela talvez acredite que se não fosse pela amizade do teu avô, Sutpen poderia não ter conseguido jamais tomar pé por aqui, e que se não tivesse conseguido, não teria se casado com Ellen. Então, talvez ela te considere parcialmente responsável, por hereditariedade, pelo que aconteceu a ela e a sua família por meio dele.”)

Fosse qual fosse a razão dela para escolhê-lo, se era essa ou não, chegar à verdade, pensou Quentin, estava demorando muito tempo. Entrementes, como se em proporção inversa à voz desvanecedora, o fantasma invocado do homem a quem ela não poderia perdoar e de quem não poderia se vingar começou a assumir uma qualidade quase de solidez, permanência. Circundado e encerrado em seu eflúvio do inferno, sua aura de incorrigibilidade, ele cismava (cismava, pensava, parecia ser ciente, como se, embora privado da paz – que era de qualquer maneira indiferente à fadiga – que ela se recusara a lhe dar, estivesse ainda irrevogavelmente fora do alcance de suas agressões ou injúrias) com aquela qualidade pacífica e ora inofensiva e nem mesmo muito atenta – o vulto-ogro que, à medida que a voz da Srta. Coldfield prosseguia, se revelava perante os olhos de Quentin nos dois filhos meio ogros, os três formando um fundo sombrio para a quarta pessoa. Este era a mãe, a irmã falecida Ellen: essa Níobe sem lágrimas que concebera do demônio numa espécie de pesadelo, que mesmo enquanto viva tinha se movido, mas sem vida, e sofrido, mas sem lágrimas, que agora tinha um ar de tranquila e inconsciente desolação, não como se tivesse sobrevivido aos outros ou morrido primeiro, mas como se jamais houvesse realmente vivido. Quentin parecia vê-los, os quatro posicionados como o grupo familiar tradicional do período, com decoro formal e sem vida, e vistos agora como a própria fotografia antiga e desbotada teria sido vista ampliada e pendurada na parede atrás e acima da voz e de cuja presença ali a donada voz nem sequer tinha consciência, como se ela (a Srta. Coldfield) jamais tivesse visto este aposento antes – uma foto, um grupo que mesmo para Quentin tinha uma qualidade estranha, contraditória e bizarra; não muito compreensível, não (mesmo para os vinte anos) muito certa – um grupo cujo último membro tinha morrido vinte e cinco anos antes e o primeiro, cinquenta, evocado agora na escuridão abafada de uma casa morta entre o rancor feroz e implacável de uma velha e a impaciência passiva de um jovem de vinte anos dizendo a si mesmo em meio à voz Talvez você tenha que conhecer uma pessoa muito bem para amá-la, mas quando se odeia alguém por quarenta e três anos você o conhece muito então talvez seja melhor, talvez seja bom porque depois de quarenta e três anos eles já não podem mais surpreendê-lo ou deixá-lo nem muito satisfeito nem muito zangado. E talvez ela (a voz, a fala, o incrédulo e insuportável espanto) tenha sido um grito alto um dia, pensou Quentin, há muito tempo, quando ela era uma menina – de jovem e indomável não-arrependimento, de acusação de circunstância cega e acontecimento selvagem; mas não agora: agora somente a velha carne feminina, frustrada, solitária, resguardada por quarenta e três anos no velho insulto, a velha rancorosa ultrajada e traída pela afronta final e completa que foi a morte de Sutpen: “Ele não era um cavalheiro. Não era nem mesmo um cavalheiro. Chegou aqui com um cavalo e duas pistolas e um nome que ninguém jamais ouvira antes, ou soubera ao certo se era mesmo seu, não mais que o cavalo ou mesmo as pistolas, procurando algum lugar para se esconder, e o Condado de Yoknapatawpha lhe deu um. Ele buscou o aval de homens honrados para protegê-lo dos outros estranhos que viriam depois e poderiam vir procurá-lo, e Jefferson deu-lhe isso. Então ele precisou de respeitabilidade, do escudo de uma mulher virtuosa, para tornar sua posição inexpugnável mesmo contra os homens que lhe tinham dado proteção no dia e na hora inevitável em que até mesmo eles haveriam de se levantar contra ele em desprezo e horror e ultraje; e foi o meu pai e de Ellen quem lhe deu isso. Oh, eu não defendo Ellen: uma tola romântica e cega que tinha apenas a mocidade e a inexperiência para desculpá-la, quando muito; tola romântica e cega, depois tola mulher, mãe e cega quando já não tinha mais nem a juventude nem a inexperiência para desculpá-la, quando estava morrendo naquela casa pela qual trocara orgulho e paz e ninguém mais ali além da filha que 13 já era o mesmo que uma viúva sem jamais ter sido uma noiva e que já era o mesmo que uma viúva sem jamais ter sido uma noiva e que viria a ser, três anos depois, uma viúva de verdade sem ter sido absolutamente nada, e o filho que tinha repudiado o teto sob o qual nascera e ao qual voltaria apenas uma vez antes de desaparecer para sempre, e como um assassino e quase um fratricida; e ele, demônio salafrário e diabo, lutando na Virgínia onde as chances da terra ficar livre dele eram melhores do que nunca, mas Ellen e eu sabendo que ele voltaria, que todos os homens de nossos exércitos teriam que tombar antes que bala ou projétil o atingisse; e somente eu, uma criança, uma criança, veja bem, quatro anos mais nova que a própria sobrinha que me pediram que salvasse, para quem Ellen se virou e disse: ‘Proteja-a. Proteja Judith pelo menos’. Sim, tola, romântica e cega, que nem mesmo possuía aquelas cem milhas de propriedade que aparentemente impressionaram nosso pai nem aquele casarão e a ideia de escravos para servi-la dia e noite que abrandaram, não direi comoveram, sua tia. Não: apenas o rosto de um homem que de algum jeito conseguia ser arrogante mesmo em cima de um cavalo – um homem que até onde qualquer um (inclusive o pai que lhe daria uma filha em casamento) sabia, ou não tinha nenhum passado, ou não ousava revelá-lo – um homem que chegou à cidade vindo do nada com um cavalo e duas pistolas e uma horda de bestas selvagens que ele tinha caçado sem ajuda porque era mais temível até do que eles, em sabe-se lá que lugar pagão de onde tinha fugido, e aquele arquiteto francês que parecia ter sido caçado e apanhado por sua vez pelos negros – um homem que fugiu para cá

e se escondeu, se ocultou por trás da respeitabilidade, por trás daquelas cem milhas de terra que tomou de uma tribo de índios ignorantes, ninguém sabe como, e de uma casa do tamanho de um fórum onde ele viveu por três anos sem uma janela ou porta ou cama e à qual chamava Centena de Sutpen como se tivesse sido uma concessão real em caráter perpétuo a seu bisavô – um lar, uma posição: uma esposa e uma família que, sendo necessários para a ocultação, ele aceitou junto com o resto de respeitabilidade como teria aceitado o necessário desconforto e mesmo a dor das urzes e sarças num matagal se o matagal pudesse lhe dar a proteção que procurava.

“Não: nem mesmo um cavalheiro. Casar-se com Ellen ou casar-se com dez mil Ellens não poderia ter feito dele um cavalheiro. Não que ele quisesse ser um, nem mesmo ser tomado por um. Não. Isso não era necessário, pois tudo o que precisava eram os nomes de Ellen e de nosso pai numa certidão de casamento (ou em qualquer outro atestado de respeitabilidade) que as pessoas poderiam olhar e ler assim como ele teria querido a assinatura de nosso pai (ou de algum outro homem de boa reputação) numa nota promissória porque nosso pai sabia quem era seu pai no Tennessee e quem seu avô tinha sido na Virgínia e nossos vizinhos e as pessoas entre as quais vivíamos sabiam que nós sabíamos e nós sabíamos que elas sabiam que nós sabíamos e nós sabíamos que elas teriam acreditado em nós sobre de quem e de onde ele tinha vindo mesmo se tivéssemos mentido, assim como qualquer um teria olhado para ele uma vez e sabido que estaria mentindo sobre de quem e de onde e por que viera pelo próprio fato de que aparentemente ele tinha se recusado a dizer. E o próprio fato de que ele teve que escolher a respeitabilidade para se esconder atrás dela era prova suficiente (se alguém ainda precisava de alguma prova) de que aquilo do que ele fugira devia ser algum oposto da respeitabilidade, tenebroso demais para ser mencionado. Porque ele era jovem demais.

Tinha apenas vinte e cinco anos e um homem de vinte e cinco não passa voluntariamente pelo sofrimento e pela privação de limpar terra virgem e estabelecer uma plantação em terra virgem apenas por dinheiro; não um homem jovem sem nenhum passado que aparentemente lhe interessasse discutir, em 1833 no Mississippi, com um rio cheio de vapores lotados de tolos bêbados cobertos de diamantes e dispostos a jogar fora seu algodão e seus escravos antes do barco chegar a New Orleans – não com tudo isso a apenas uma noite de cavalgada de distância apenas e tendo como única desvantagem ou obstáculo os outros salafrários ou o risco de ser expulso do barco e deixado num banco de areia e, no caso mais extremo, uma corda de cânhamo.

E ele não era nenhum filho caçula enviado de alguma região antiga e tranquila como a Virgínia ou a Carolina com os negros excedentes para se apoderar de terras novas, porque qualquer um que olhasse para aqueles negros dele saberia que eles poderiam ter vindo (e provavelmente vieram) de uma região muito mais antiga do que a Virgínia ou a Carolina, mas que não era uma região tranquila. E qualquer um que visse seu rosto uma vez saberia que ele teria preferido o rio e até mesmo a certeza da corda de cânhamo a fazer o que fez, mesmo se tivesse sabido que encontraria ouro enterrado e esperando por ele bem ali na terra que tinha comprado.” Não. Não defendo Ellen mais do que a mim mesma. Defendo-me ainda menos porque tive vinte anos para observá-lo, ao passo que Ellen teve apenas cinco. E nem

mesmo aqueles cinco para observá-lo, mas apenas para ouvir pelos outros o que ele estava fazendo, e nem mesmo ouvir mais do que a metade disso, pois aparentemente a metade do que ele realmente fez naqueles cinco anos ninguém jamais ficou sabendo, e metade do resto nenhum homem teria repetido nem para a esposa, quanto mais para uma mocinha. Ele chegou aqui e montou um espetáculo de variedades que durou cinco anos e Jefferson pagou-lhe pela diversão no mínimo protegendo-o a ponto de não contar a suas mulheres o que ele andava fazendo. Mas eu tive toda a minha vida para observá-lo, pois aparentemente e por razão que os Céus não consideraram apropriado revelar, minha vida estava destinada a terminar numa tarde de abril quarenta e três anos atrás, pois até mesmo alguém que tenha tido tão pouco para chamar de vida como eu tive até aquela ocasião não chamaria de vida o que tive desde então. Vi o que tinha acontecido com

Ellen, minha irmã. Eu a vi quase uma reclusa, vendo crescer aquelas duas crianças condenadas que ela era impotente para salvar. Vi o preço que ela pagara por aquela casa e aquele orgulho; vi as promissórias sobre o orgulho e o contentamento, e a paz e tudo em que ela pusera sua assinatura quando tinha entrado na igreja naquela noite, começarem a vencer uma a uma. Vi o casamento de Judith proibido sem pé nem cabeça nem sombra de desculpa; vi Ellen morrer tendo apenas eu, uma criança, a quem se voltar e pedir que protegesse a filha que lhe restava; vi Henry repudiar seu lar e seu direito de primogenitura e depois retornar e praticamente jogar o cadáver ensanguentado do namorado da irmã na barra do seu vestido de noiva; vi aquele

 

 

 

 

 

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