Euler de França Belém
Euler de França Belém

Cosac Naify morreu porque, apesar de ser uma grande editora, nunca foi uma grande empresa

Charles Cosac investiu 70 milhões. Perdas somam cerca de 140 milhões. Ele não quer publicar clássicos para garantir lançamento de obras contemporâneas. A Cosac estaria se desvirtuando

Charles Cosac, fundador da editora CosacNaif. Foto: Olga Vlahou - 19.09.2007 - SP

Charles Cosac fundou a editora Cosac Naif em 1996. (Foto: Olga Vlahou )

A editora que faz os livros mais bonitos do Brasil, com traduções esmeradas, fechou as portas. Um de seus sócios, Charles Cosac (nascido no Rio de Janeiro; sua família é de Goiás e um dos principais incentivadores da editora é o artista plástico Siron Franco), anunciou o fim da Cosac Naify na segunda-feira, 30, numa entrevista exclusiva ao repórter Antonio Gonçalves Filho, de “O Estado de S. Paulo”. É uma das piores notícias do ano. Para os que amam os livros, sobretudo os bem feitos, é um apocalipse. Ainda bem que outra editora categorizada, a Companhia das Letras, uniu-se um poderoso grupo editorial internacional e, por isso, vai sobreviver às intempéries da economia. A Cosac Naify morre aos 19 anos — quase uma Raymond Radiguet do ramo editorial.

Charles Cosac deu explicações relativamente enviesadas ao jornalista Gonçalves Filho. Mas, no antepenúltimo parágrafo, há uma explicação mais plausível. “A editora não está em processo de falência, garante Cosac. ‘Do capital investido, cerca de R$ 70 milhões, nunca recebi um tostão de volta’, revela. Ao contrário. As perdas, diz, somam o dobro disso. ‘Mas não estou culpando ninguém, nem a Dilma [Rousseff] nem a alta do dólar’, acrescentou. Apenas não se pode manter uma editora, segundo ele, vendendo meia dúzia de títulos como o caso da coleção de arte da Yale University, que lançou logo no início, quando não tinha experiência como editor, ou as edições experimentais, múltiplos de luxo numerados que não deram certo num país sem essa tradição.” Perdas de 140 milhões, em 19 anos, significam um valor altíssimo mesmo para grandes empresas.

O fato é que a Cosac Naify é uma grande editora, uma belíssima editora, mas nunca chegou a ser uma empresa. Talvez seja o resumo da ópera. Empresas precisam ter lucro, não podem investir unicamente pelo sistema de mecenato, exceto se os mecenas forem bilionários, como os Moreira Salles, do Instituto Moreira Salles e que estão com um pé na Companhia das Letras, com Fernando Moreira Salles, o mais velho dos filhos do banqueiro Walter Moreira Salles.

Ao repórter Gonçalves Filho, recebido na casa do editor, Charles Cosac disse que o fechamento da Cosac Naify não tem a ver com a crise econômica, que, se pesou — e certamente pesou —, não foi decisiva, o ponto nevrálgico. Fundamental mesmo foi a dificuldade “em seguir adiante no caminho traçado” quando a editora foi criada, em 1996. “Só o meu desejo de que ela existisse não justificaria a manutenção da editora, cujos projetos culturais se encontram ameaçados neste momento.”

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A Cosac mantém 1.600 títulos no seu privilegiado catálogo. São clássicos de Liev Tolstói, como “Anna Kariênina”, obras experimentais de William Faulkner, como “O Som e a Fúria”, e livros de autores recentes, como o espanhol Enrique Vila-Matas e o português Valter Hugo Mãe. Dada sua formação artística, tendo estudando na Inglaterra e na Rússia, Charles Cosac publicou livros de arte sobre artistas, como Tunga e Maria Martins (uma das paixões artísticas do editor), que, apesar da rara excelência, jamais deram lucro; pelo contrário, se deram lucro em termos de qualidade, dinheiro mesmo não entrou na conta bancária da empresa.

Durante anos, Charles Cosac e seu sócio americano, Michael Naify, colocaram dinheiro na editora. Naify teria desistido da editora e a família (rica) de Charles Cosac teria bancado alguns de seus prejuízos. O relato de Gonçalves Filho: “Em situação deficitária pelo alto investimento que demandam seus projetos editoriais, alguns com produção gráfica sofisticada e sem garantia de retorno financeiro, a Cosac Naify tentou, segundo seu fundador, criar fórmulas que cobrissem os prejuízos dessas edições especiais, mas a situação do mercado não ajudou. ‘Somos uma editora cult, cujos livros são destinados a professores acadêmicos e estudantes de arte, e não gostaria de ver nossa linha editorial desvirtuada’, justificou”.

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Para garantir a publicação de obras de arte e de escritores em processo de afirmação, a Cosac Naify decidiu fazer como outras editoras: publicar obras em domínio público. Porém, mesmo sem pagar direitos autorais, dadas as traduções diretas de alta qualidade e as edições de primeira linha, os livros sempre saíram mais caros do que o previsto. Pelas declarações ao “Estadão”, Charles Cosac não está satisfeito com o fato de publicar clássicos para garantir a edição de autores contemporâneos, sobretudo na área de arte — seu interesse pessoal mais forte. “Não queria fazer o que outras editoras já fazem. Eu vejo a editora se descaracterizando, se afastando daquilo que fez ela tão querida, e prefiro encerrar as atividades a buscar uma solução que possa comprometer seu passado”, sublinhou. “Seu interesse inicial, como um editor que estudou e coleciona obras de arte, era produzir monografias para divulgar a produção contemporânea brasileira, como a mais recente, dedicada à artista carioca Elizabeth Jobim, lançada há um mês, cuja produção foi pessoalmente cuidada pelo editor”, registra Gonçalves Filho.

Aparentemente despreocupado com custos, Charles Cosac lançou três livros com a obra crítica e ensaística de Mário Pedrosa, mas quatro volumes, que estavam planejados, não serão editados. O editor disse ao “Estadão” que não foi manter a publicação das coleções dos poetas Murilo Mendes e Jorge de Lima. Recentemente, lançou “Novelas Exemplares”, de Miguel de Cervantes. Mas, insistindo na questão, demonstra que não está satisfeito ao publicar clássicos para garantir a publicação de autores atuais. “Não criei a editora para recauchutar obras em domínio público”, diz o editor. “Quero que ela termine como começou, não gostaria que ela entrasse em decadência”, frisa. Ele publicou também os antropólogos Claude Lévi-Strauss e Eduardo Viveiros de Castro.

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Em termos exclusivamente editoriais, não se pode falar em decadência quando a referência for à qualidade dos livros.

Às vezes, Charles Cosac comporta-se como uma espécie de “editor escolhido”, quer dizer, um caso raro. De fato, como prova a qualidade dos livros lançados pela editora, trata-se de um editor especial. Porém, sua despreocupação financeira — pondo dinheiro em obras que não dão retorno, sobretudo os livros de arte — sugere que se trata mais de um mecenas do que de um editor, ou melhor, de um editor-empresário. Que tenha durado tanto, quase um quarto de século, é que surpreende. Os cofres familiares provavelmente tiveram de ser sangrados para bancar o sonho (real) editorial de Charles Cosac.

Tolstói, Faulkner, Gontcharov e Turguêniev

Felizmente, para os leitores que apreciam a literatura do russo Liev Tolstói e do americano Williams Faulkner, a Cosac Naify teve tempo de publicar as obras mais importantes de um e de outro.

De Tolstói, saíram os romances “Anna Kariênina” e “Guerra e Paz” e os contos completos, com traduções esmeradas de Rubens Figueiredo. Dos russos Ivan Turguêniev e Ivan Gontcharóv saíram as obras-primas “Pais e Filhos” e “Oblómov”, com traduções escorreitas de Rubens Figueiredo.

De Faulkner, o maior escritor americano, ao lado de Herman Melville, Henry James e Saul Bellow, saíram as obras-primas “O Som e a Fúria”, “Luz em Agosto”, “Absalão, Absalão!” e obras menores, mas de qualidade, como “Palmeiras Selvagenss” e “Sartoris”.

Biografia do grande pianista cubano não sai

Charles Cosac é, possivelmente, o editor brasileiro mais ousado. Alguns de seus livros são obras de arte, tanto pelo conteúdo quanto pela forma. O leitor pega a obra, admira a forma, como se fosse um quadro, e depois vasculha o conteúdo. O livro como obra de arte integral sai muito caro e isto, de alguma forma, contribuiu para a morte da Cosac Naify.

O editor pretendia publicar uma biografia do excelente pianista (e cantor) cubano Bola de Nieve, escrita pelo cubano Félix Contreras. Tratava-se de uma encomenda internacional, que dificilmente será honrada pelo editor ou por outra casa editorial patropi.

Uma resposta para “Cosac Naify morreu porque, apesar de ser uma grande editora, nunca foi uma grande empresa”

  1. Caro EULER. Desta página posso dizer: análise percuciente.
    A agudeza da visão demonstrada neste artigo, naturalmente vem não só do leitor atento, mas do editor experiente.
    “Charles Cosac é, possivelmente, o editor brasileiro mais ousado. Alguns de seus livros são obras de arte, tanto pelo conteúdo quanto pela forma. O leitor pega a obra, admira a forma, como se fosse um quadro, e depois vasculha o conteúdo…”
    Há o saldo de uma lição de empreendedorismo, à la Augusto Frederico Schmidt: não dá para dissipar as reservas por tanto tempo, ao custo de R$7.3mi de perdas ao ano.
    Abraço,
    Beto.
    P.S.: Avancemos sobre o espólio. Ofertas de “Saldos de balanço” devem aparecer em breve (AQ).

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