Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Correspondente da ESPN na Inglaterra alerta para aumento do uso de cocaína na torcida

João Castelo-Branco nota a disparada de consumo da droga nos estádios e diz que o fato de ser barata em Londres contribui para isso

O repórter esportivo João Castelo-Branco está há 20 anos como correspondente da ESPN em Londres, onde mora há muito mais tempo – ele é filho dos também jornalistas José Trajano e Renée Castelo Branco; Pedro Bial, que foi casado com Renée, também o tem como filho.

O olhar dele, como repórter, se atém também no que acontece fora das quatro linhas do campo. Dessa forma, ele tem observado um comportamento social cada vez mais presente na torcida inglesa: o consumo de cocaína.

O assunto foi tema de uma thread (conhecido também como “fio”, é uma sequência de tuítes para completar um texto) no Twitter.

Castelo-Branco relata que, ao viajar para trabalhar em jogos da Premier League, tem visto cada vez mais torcedores cheirando nos trens – transporte principal entre as cidades futebolísticas, como Londres, Manchester e Liverpool, entre tantas outras. “Em estádios, noto a pinta da turma nas filas desproporcionais pelo cubículos nos banheiros”, destaca.

Segundo ele, não é novidade que nos últimos anos o uso de cocaína nas torcidas de futebol na Inglaterra aumentou. “Cocaína hoje faz parte da cultura de torcedor pós-hooligan que viaja em clima de festa para ver o time em grupos, levando cerveja e drogas para baderna”, continua, para em seguida, apresentar um vídeo gravado em Londres durante a Eurocopa, no ano passado:

Na sequência de sua postagem, ele lembra que no mês passado uma reportagem do The Sun, conhecido tabloide inglês, revelou a detecção de cocaína em banheiros de vários estádios de clubes da Premier League, algo que já havia sido pesquisado na Escócia em 2019. “Acreditam que o uso da droga contribui ao aumento de violência nos estádios”, diz o repórter, citando uma matéria do Daily Record.

Mas talvez o que há de mais impressionante no fio desenrolado por João Castelo-Branco seja a quantidade de cocaína consumida em Londres. O estudo foi publicado pelo jornal The Guardian e mostra que a capital da Inglaterra consome tanto pó quanto Amsterdã, Berlim e Barcelona juntas. “Reflete uma sociedade onde a cocaína é mais barata e acessível do que nunca”, conclui.

“A cocaína está em todas classes sociais e combina especialmente com a cultura ‘lad’ do homem macho, hooligan 2.0. A droga ajuda a poder continuar bebendo. Cerveja de manhã cedo no trem é bem normal. No fim do dia era mais comum ver torcedores dormindo caídos de tanto beber”, diz Castelo-Branco. Ou seja, para continuar consumindo droga lícita, os ingleses apelam cada vez mais para outra, ilícita.

Quando houve a final da Eurocopa em Londres, conforme relata o repórter da ESPN, houve confusão e brigas, com testemunhos de muita bebida e cocaína entre os vândalos. “Vejo isso também no dia a dia do futebol. É um minoria de torcedores, mas sinto a droga mais presente nas arquibancadas. Na cultura do torcedor”, opina.

Terra do hooliganismo
A cultura do futebol inglês está impregnada de batalhas campais entre torcidas, dentro, mas principalmente fora dos estádios. Porém, o hooliganismo à moda antiga está em baixa nos estádios da Inglaterra praticamente desde os primórdios da Premier League, no início dos anos 90. O futebol local havia passado por duas grandes tragédias em menos de cinco anos. Em Heysel, na Bélgica, 39 pessoas morreram na final da  Copa dos Campeões Europeus, após ingleses do Liverpool atacarem italianos da Juventus. Com os hooligans sendo culpados em punição pelo massacre os clubes britânicos foram alijados das competições europeias por cinco anos.

A segunda tragédia foi pela Copa da Inglaterra, em 1989, quando a superlotação em Hillsborough causou quase cem mortes no início de uma partida entre Liverpool (novamente) e Nottingham Forest. Desta vez, a causa não foi briga, mas excesso de gente disputando o mesmo lugar.

A partir daí, a England Football League “tomou jeito”, como se diz em Goiás. Com a criação da Premier League – que teve sua primeira edição em 1992, houve novas regras para segurança nos estádios, que também se modernizaram – e continuam nesse processo. O conforto, porém, tem seu preço. Os ingressos ficaram muito mais caros e o futebol se tornou mais elitizado, à semelhança do que ocorre no Brasil desde a última década.

A cultura muda a forma de se mostrar. Provavelmente a cocaína, como supõe João Castelo-Branco, seja o jeito “moderno” de o inglês reviver seus tempos de hooligan. Não é algo bom, mas é reflexo da sociedade e dos tempos.

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