Euler de França Belém
Euler de França Belém

Coronavírus leva Cascão a lavar as mãos para dar exemplo para adultos, adolescentes e crianças

O menino sujinho, de uma simpatia ímpar, decidiu, com o “apoio” de Maurício de Souza, lutar contra a fúria da pandemia

Conta-se que franceses não são muito simpáticos a um bom banho, mas pode ser mito, claro. No Brasil, nós temos o Cascão (e não Gascão”), que, embora seja um personagem criado pela poderosa imaginação de Maurício de Souza — um gênio que, se fosse americano, seria chamado de irmão gêmeo de Stan Lee —, parece ser um de nós, um ser humano comum com um, digamos, “defeitinho”: não aprecia tomar banho e tem horror a água. Mas gostamos do Cascão assim mesmo — até porque é de uma simpatia ímpar, transpira doçura e uma inocência, por assim dizer, “primitiva”. Será que, um dia, o garoto esperto e sapeca vai tomar banho? (Leia adiante) É provável que, na surdina e pressionado pelos pais, o menino já tenha tomado banho, porque senão os demais coleguinhas, como Mônica e Cebolinha, não aguentariam conviver com ele. A fedentina seria insuportável. Pois, agora, surpresa!

O coronavírus está aí, solerte e sutil, “batendo” à porta e assustando até aqueles que estão se escondendo muito bem, em suas casas. O que Maurício de Souza, “pai” do Cascão, dirá? O Villa-Lobos dos quadrinhos decidiu: Cascão, o sujinho simpático, vai, sim, vai lavar as mãos. Ou melhor, lavou, tendo ao lado a companheirada a incentivá-lo: “Lavar as mãos salva vidas”. Meio mundo está preocupado com álcool gel. Estive no Supermercado Moreira, na T-63, e perguntei: “Tem álcool gel?”. Um jovem e uma jovem responderam rapidamente, e juntos, como se fossem John Wayne sacando a arma para matar o facínora Liberty Valance : “Não tem, não. Vai chegar amanhã. Nós temos álcool comum”. Ao lado, uma sra. ensinou: “Meus filhos, lavem as mãos, cuidadosamente, com água e sabão. Se não for melhor do que álcool, pelo menos resolve”. Em seguida, espirrou e desculpou-se: “É o diacho do ar condicionado”. Não vou mentir, não — dando uma de durão. Aquele espirro soou, aos meus ouvidos “coronavirados”, como uma bala tão perdida quanto fatal do filme “Era uma Vez no Oeste”, de Sergio Leone — o único (será?) italiano que sabia fazer películas de faroeste.

Numa campanha de bom nível, e certeira, a equipe que faz os quadrinhos da turma da Mônica — quiçá a primeira feminista dos quadrinhos patropis — legendou o quadrinho do Cascão lavando as mãos: “Lavar as mãos é a principal forma de se prevenir contra o novo coronavírus. E como a transmissão acontece também por contato físico, quando as gotículas alcançam mucosas do olho, nariz e boca, o melhor é evitar beijos e abraços. Não é desprezo, é apenas proteção”. Coisa de craque — de Pelé a Ayrton Senna.

Maurício de Souza relata que Cascão já encarou a água de frente, com uma coragem inaudita, outras vezes. Numa campanha contra a mortalidade infantil, a Organização Pan-Americana da Saúde tomou emprestado o menino “cascudo” com o objetivo de mudar hábitos de higiene e de melhorar o saneamento básico. Segundo o criador da Turma da Mônica, a ação de Cascão, encarando a água de frente, contribuiu para reduzir o número de mortes — de maneira drástica. Mônica, Cebolinha, Magali (a adorável comilona — paradoxalmente, sempre magra, até mais do que Mônica, a admirável fortaleza e seu coelho-atiradeira) e Cascão são conhecidos em pelo menos quarenta países, informa seu criador.

“O Cascão não é rigidamente preso à aversão pela água. Ele só é como qualquer criança que não gosta de tomar banho facilmente. Eu sei por que eu também fui criança”, diz Maurício de Souza, o Monteiro Lobato dos quadrinhos. “Há um tempo, também houve uma grande inundação em Santa Catarina em que o Cascão entrou na água para levar víveres às casas isoladas, só com os braços levantados por cima da cabeça.” E, sim, o Cascão não saiu “ferido” (porque fica-se com a impressão de que a água o fere, o queima).

O Tamisa, rio da Inglaterra, foi despoluído. O Tietê, apesar dos gastos do governo de São Paulo, continua poluidíssimo. Maurício de Souza assinala: “Uma vez eu tinha falado que daria o primeiro banho público no meu Cascão caso o Rio Tietê fosse limpo um dia. Infelizmente, esse banho está sendo protelado, mas eu me comprometi”.

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