Conversão do futebol em negócio é um projeto, não um mero efeito colateral
01 maio 2026 às 10h17

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Donni Araújo
Durante muito tempo, discutir futebol era discutir o jogo. A forma de jogar, os jogadores, as escolhas dentro de campo, a maneira como um time se comportava diante do adversário. Claro que o dinheiro sempre esteve presente. Nunca foi um ambiente inocente. Mas havia uma diferença essencial, porque o futebol não era organizado a partir da lógica financeira. O jogo vinha antes e o resto orbitava ao redor.
Contudo, a realidade do universo da bola já não é mais essa. A relação citada acima foi sendo alterada ao longo dos anos, de forma gradual, até que a mudança deixou de ser percebida como alteração. Hoje, o futebol não apenas convive com o dinheiro. Ele é estruturado por ele. E essa transformação não aconteceu por inércia, nem por evolução natural de um sistema que simplesmente amadureceu. Houve decisão, direção e interesse de quem comanda o esporte.

A decisão que virou estrutura
A conversão do futebol em negócio foi um projeto, não um mero efeito colateral. No Brasil, esse movimento ganhou forma mais clara a partir da última década e se consolidou institucionalmente com a criação da Sociedade Anônima do Futebol – SAF –, em 2021, que abriu caminho para a entrada direta de investidores no controle dos clubes. A partir desse momento, o que antes era tendência passou a ser estrutura.
A profissionalização da gestão, a entrada de investidores, a reorganização dos direitos de transmissão, cujo crescimento como principal fonte de receita dos clubes se intensifica a partir dos anos 2000. Tudo isso costuma ser apresentado como um avanço inevitável, quase técnico, como se fosse apenas a correção de distorções históricas. E, em parte, é. Clubes desorganizados, dívidas crônicas, estruturas amadoras eram o que existia e precisava ser enfrentado. O problema é que a solução adotada não foi neutra. Ela não apenas resolveu problemas. Ela redefiniu prioridades.
O futebol deixou de ser um jogo com dinheiro para se tornar um negócio que envolve um jogo, uma inversão de valores que mudou até a forma de praticar o esporte no País. Sem falar na queda no poderio internacional dos clubes e até da Seleção Brasileira.

Quando o dinheiro vira eixo
Quando a lógica central passa a ser financeira, as decisões deixam de ser orientadas prioritariamente pelo desempenho esportivo. O elenco não é montado apenas para competir melhor, mas para se valorizar no mercado. O calendário não é pensado em função da qualidade do espetáculo, mas da maximização de receita, o que ajuda a explicar o aumento contínuo no número de partidas verificado nas últimas décadas. A formação de jogadores passa a obedecer mais à lógica de exportação do que à construção de identidade esportiva, consolidando o Brasil apenas como um dos principais fornecedores de atletas para o mercado internacional, não mais como uma potência e referência quase imbatível no futebol.
O jogo, que antes era o fim, passa a ser um meio.
Trata-se de compreender o que acontece quando o dinheiro deixa de ser um componente e passa a ser o eixo, não uma crítica moral a ele no futebol.
Quem passou a decidir
Essa mudança foi conduzida por agentes muito específicos. Dirigentes, empresários, fundos de investimento, grupos que passaram a enxergar o futebol como ativo financeiro e a operá-lo dentro dessa lógica. Nos últimos anos, isso se tornou ainda mais evidente com a entrada de investidores estrangeiros no controle de clubes brasileiros e com a integração a redes globais de gestão esportiva, nas quais os clubes passam a fazer parte de estratégias mais amplas de portfólio.

Não há nada de clandestino nisso. Pelo contrário, é um processo público, estruturado, legitimado por discursos de modernização e eficiência. Mas é importante não perder de vista que se trata de uma escolha. Não foi o futebol que “evoluiu” para esse modelo. O modelo foi implementado.
E, como toda escolha estrutural, ela produz efeitos.
O lugar do torcedor
O torcedor talvez seja o personagem mais afetado por essa transformação, ainda que isso nem sempre seja percebido de forma clara. Ele continua sendo essencial, continua consumindo, assistindo, sustentando o sistema. Mas sua posição mudou. O torcedor deixou de ser, ainda que simbolicamente, parte do clube, para se tornar um cliente do produto. Ele não participa da decisão, apenas reage a ela.
O futebol continua sendo dele na memória, no afeto, na narrativa. Mas não é mais dele na prática.
Essa dissociação ajuda a explicar um desconforto crescente que muitas vezes aparece de forma difusa. Reclama-se do calendário, da falta de identificação com os jogadores, da rotatividade dos elencos. E há dados que reforçam essa percepção. Um exemplo é o fato de que o número de atletas estrangeiros no Campeonato Brasileiro cresceu de forma significativa na última década, alterando a dinâmica de formação e composição das equipes, enquanto a permanência média de jogadores nos clubes se torna cada vez mais curta.
São sintomas de algo maior. O jogo deixou de ser organizado a partir de quem o vive e passou a ser estruturado a partir de quem o explora economicamente.
O efeito inevitável
E isso, inevitavelmente, chega ao campo.
A qualidade do jogo não é afetada apenas por questões técnicas ou táticas. Ela responde ao modelo que a sustenta. Quando a prioridade é financeira, o jogo tende a se adaptar a essa lógica. Menos tempo de maturação de equipes, mais circulação de jogadores, decisões tomadas fora do ambiente esportivo, interferências indiretas que moldam o que acontece dentro das quatro linhas.
Não é que o futebol tenha piorado de forma absoluta. É que ele passou a responder a outros estímulos.
Mais do que futebol
E talvez o ponto mais importante seja perceber que esse movimento não se limita ao futebol. Ele faz parte de um padrão mais amplo, no qual atividades que antes eram organizadas a partir de sua lógica interna passam a ser estruturadas como ativos de mercado. O esporte, de forma geral, está inserido nesse processo. O futebol apenas o evidencia com mais força, por sua dimensão e relevância.
E nada indica que o caminho possa ser simplesmente revertido. O futebol não vai deixar de ser um negócio. Essa etapa foi superada. O que está em aberto é outra questão: até que ponto o jogo conseguirá preservar sua essência dentro desse modelo.
Porque o risco não está no dinheiro. Está na medida em que ele passa a determinar tudo.
E, quando isso acontece, o futebol continua existindo, continua sendo assistido, continua movimentando paixões. Mas já não é exatamente o mesmo jogo.
Donni Araújo, jornalista, é comentarista da PUC-TV.

