Euler de França Belém
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Consultor Lavareda sugere que imprensa não use apenas pesquisas para embasar suas análises

Há outros fatores — como a história do comportamento dos eleitores — que devem ser considerados, e que os analistas esquecem com frequência

Antônio Lavareda: consultor de marketing político | Foto: Reprodução

Sinval de Itacarambi Leão, do Portal Imprensa, publicou uma entrevista com o especialista em marketing político Antônio Lavareda, de 69 anos, que já prestou consultoria para 90 campanhas eleitorais. É autor de vários livros, como “A Democracia nas Urnas” e “Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais”, e dirige o blog Eleições com Lavareda.

As pesquisas são divulgadas, dando-se ênfase às intenções de voto — quem está em primeiro, segundo e terceiro lugares —, mas são poucas examinadas pela imprensa (e nem se está falando das qualitativas). Lavareda faz uma “pesquisa das pesquisas”, comparando-as e verificando o que há de comum e incomum nos dados. Trata-se, frisa, de um “agregador inteligente”. Mas, na análise que faz, descarta, de cara, as pesquisas encomendadas por partidos. “Os dados são submetidos a algoritmos.” O resultado é que se obtém um quadro mais amplo do processo eleitoral. Recentemente, em Goiânia, “O Popular” publicou uma pesquisa do Instituto Serpes e, na reportagem, se disse que Antônio Gomide poderia vencer no primeiro turno na disputa pela Prefeitura de Anápolis. Era uma interpretação equivocada — forçada — dos dados, e uma falta de entendimento de que pesquisa é um dado da realidade, mas não é a realidade toda. O Jornal Opção enfatizou, na sua crítica, que “O Popular” poderia adotar o slogan “o primeiro a chegar atrasado”. Agora, ante a evidência de uma nova pesquisa, do mesmo instituto Serpes, o jornal teve de admitir que Roberto Naves, no momento, supera Antônio Gomide. A pesquisa anterior não estava errada — o equívoco era da interpretação precipitada do jornal, que descolou o levantamento da história do município.

Lavareda diz que os exames dos quadros político-eleitorais não devem ser feitos “apenas com base nas pesquisas. Há outros fatores — a história do comportamento dos eleitores sendo um deles — que devem ser considerados, e que, infelizmente, os analistas esquecem com frequência”. Ao examinar a análise de “O Popular”, que apontava Gomide como “eleito” no primeiro turno, antes mesmo de a campanha deslanchar, o Jornal Opção fez o que o outro jornal não fez: delineou a história das eleições no município, inclusive sugerindo a possibilidade de virada, que agora ocorre.

Roberto Naves (PP), prefeito de Anápolis | Foto: Divulgação

Abstenção eleitoral e peso da televisão e do rádio

A abstenção eleitoral no Brasil é alta, afirma Lavareda. “A abstenção no Brasil chegou a 21,48% no segundo turno da última eleição presidencial. Mais de 31 milhões de eleitores. Somados aos votos em branco e aos nulos temos 42 milhões e 720 mil cidadãos que não votaram em nenhum dos dois candidatos, fazendo com que o eleito, Jair Bolsonaro, tenha obtido contra Fernando Haddad 39,2% dos votos totais (55,2% dos válidos). A abstenção é simples de ser interpretada. É recusa ao comparecimento. Votos em branco e nulos combinam uma recusa à participação e nos lugares mais remotos são motivados também por erros na hora de votar. O conjunto é denominado ‘alienação eleitoral’.”

Lavareda afirma que, ao contrário do que alguns dizem, as mídias tradicionais, “sobretudo TV e rádio onde estão disponíveis para as campanhas, continuarão a ser fundamentais”. O consultor diz que as mídias digitais têm importância, sobretudo na eleição para vereador. “Há uma lenda sobre 2018 que teria assinalado o ocaso da importância da TV nas campanhas. Bobagem. Bolsonaro só tinha sete segundos de propaganda na televisão, mas teve nos telejornais, por conta do episódio da facada, mais tempo de exposição que todos os adversários somados. Os americanos estão gastando nas eleições desse ano, somados os dois lados, segundo a Kantar, 4.7 bilhões na TV e 1.6 bilhão no digital. Precisa dizer mais? Eles inventaram as campanhas modernas e as redes sociais.”

No final da entrevista, Lavareda diz que os órgãos de imprensa anunciam “de forma equivocada” a margem de erro das pesquisas. Infelizmente, não explica qual é, exatamente, a falha. O erro — se há — talvez seja tanto dos meios de comunicação quanto dos institutos.

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