Elson de Souza Ribeiro

Especial para o Jornal Opção

A História não tem a pretensão de dar a última palavra sobre nenhum episódio, porém ela pode ser o ponto de partida. As fontes históricas são caminhos seguros para compreendermos, sem paixões ideológicas, a presença militar na política brasileira e as conexões com a barbárie que ocorreu em Brasília no dia 8 de janeiro.

 Aventureiros oriundos dos quartéis sempre assombraram a nossa história. A República é inaugurada com um golpe militar. Deodoro da Fonseca, contrariando o conceito de República, vira presidente; o país foi governado, de 1964 a 1985, por oficiais do Exército doutrinados e treinados para enfrentar um inimigo comum. A formação da Academia Militar cooperou com este mundo mental, uma vez que parece haver uma ausência de consciência crítica, social e humanista (o ensino a militares possui autonomia própria – art. 83 LDB) em grande parte dos militares.

Com a Lei de Anistia, durante a transição democrática, militares que cometeram abusos em nome do Estado foram perdoados. O Brasil foi um dos últimos países na América Latina a criar uma Comissão da Verdade para investigar crimes do regime militar. Este período obscuro da nossa história é tratado apenas como uma narrativa típica da “esquerdalha”, afinal nenhum torturador sentou-se no banco dos réus.

Durante o seu voto a favor do Impeachment/Golpe de Dilma Rousseff, ao elogiar o coronel torturador, Carlos Alberto Brilhante Ustra, Bolsonaro ganha simpatia por parte do seu eleitorado, que se identificou com a sua personalidade política. Em 2018, a sua candidatura desacreditada vai triunfar embalada pelo sentimento antipetista, pautas conservadoras, pela retórica do inexistente “Kit gay” e sendo coroada pela facada.

Bolsonaristas, sem o mínimo de consciência histórica, enxergavam no “mito” um Messias que iria solucionar todos os problemas da nação. Eles ignoram até o passado do ídolo nas Forças Armadas, como o plano de explodir bombas na caserna e em adutoras de água no Rio de Janeiro, sendo considerado pelo general Geisel um péssimo militar.

Para o azar da pátria distraída, mesmo indiciado como um dos autores do plano dos atentados a bomba em 1987, denúncia feita pela revista “Veja” na época, Bolsonaro foi anistiado pelo Tribunal Militar, desde que ele saísse do Exército. E o capitão reformado foi se dedicar à política. Eleito deputado federal, torna-se um ferrenho crítico à Comissão Nacional da Verdade. É neste momento que Bolsonaro ganha a simpatia do Exército, sendo visto como um radical antipetista.

De deputado federal irrelevante, com poucos projetos aprovados durante quase três décadas, agora ele aparece na mídia polemizando, radicalizando e defendendo agressivamente, pautas de costumes com um viés pseudorreligioso e ultraconservador.

Brilhante Ustra, coronel, e Jair Bolsonaro, capitão: a face cruenta dos porões e a face dissimulada do golpismo patropi | Foto: Reprodução

De lá para cá, Bolsonaro foi inventando narrativas próprias, questionáveis e desonestas, mas bem assimiladas e repetidas pelo seu rebanho leal. Inicia-se uma guerra cultural através da negação, do ressentimento, do revanchismo e de um desejo de destruir as instituições republicanas. Havia uma consonância com a concepção militar da Doutrina de Segurança Nacional que visava o combate e a eliminação dos inimigos imaginários criados e espalhados pela mídia virtual.

Enfim, questões que não foram resolvidas no passado, como a falta de punição a torturadores durante a ditadura, o vacilo do Tribunal Militar não punindo o capitão, a falta de uma educação que visa uma formação que não seja apenas a do confronto armado e o fantasioso status do militar como herói do povo, de espírito cívico e patriota. Ingredientes que contaminaram milhares, não poupando nem suas esposas, filhos, parentes, quartéis, igrejas e a política. Sincronia com um mundo paralelo, que dissemina notícias falsas, desencadeando bloqueios de estradas, acampamentos em frente aos quarteis e ação terrorista em Brasília. O bolsonarismo ganhou autonomia. Boa parte dos heróis fardados ficaram na dúvida a quem deveriam obediência no dia 8 de janeiro.

Elson de Souza Ribeiro é historiador, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-Goiás.