A crise financeira do grupo da família Civita é um fato. Mas disseminar boatos contribui para agravá-la

Fotos: Divulgação

Os herdeiros de Roberto Civita deixaram, recentemente, a direção da Editora Abril. Profissionais do mercado financeiro assumiram o comando do grupo com o objetivo de salvá-lo da bancarrota. Em 2017, a empresa teve um prejuízo de 331 milhões de reais.

Em blogs, adubados por internautas nas redes sociais, comemora-se a crise da Abril. A “festa” tem a ver com o fato de que uma das publicações do grupo, a “Veja”, é crítica visceral do gigantismo estatal que, em anos recentes, beneficiou tanto setores da esquerda — que se locupletaram fartamente — quanto grupos tradicionais da política e do empresariado patropis. Na linguagem duplipensante dos reds, a revista se tornou um veículo de direita.

Na verdade, a “Veja”, mesmo se vista como apologista do liberalismo, não é necessariamente uma publicação de direita. Aliás, os colaboradores mais radicais, que poderiam ser tachados de direitistas, foram afastados e colaboradores menos, digamos, “estreitos” foram convocados para substitui-los. A esquerda fingiu que não viu a mudança de percurso sob o comando do diretor de redação André Petry. A “Veja” está  mais aberta à diversidade de ideias, mas permanece intransigente no combate à corrupção — o que, claro, é positivo para a sociedade.

A torcida pela derrocada do Grupo Abril — que publica revistas como “Quatro Rodas”, “Veja” e “Exame” (a que leio com mais prazer) — faz parte da guerra ideológica que resulta no discurso do ódio e contamina a política brasileira na atualidade. Além da alta qualidade das publicações, com uma história exemplar — a Operação Lava Jato foi, sem dúvida, fortalecida pelas reportagens da “Veja”, o que irrita profundamente a esquerda petista —, os vários empreendimentos editoriais da Abril deram e dão empregos a centenas de jornalistas e fotógrafos, com os melhores salários, em termos de impressos, do mercado. Foram e são úteis para “formarem” gerações de repórteres, redatores e editores extremamente capazes.

A crise da Abril não é um fato inventado pela esquerda. Mas torcer para que a crise se agrave — já é bem grave —, com a disseminação de boatos, até em sites sérios que noticiam assuntos jornalísticos, é uma torcida contra a qualidade profissional e, sim, a favor do desemprego. A empresa da família Civita é uma das maiores empregadoras de jornalistas do país.