A Globo e a Folha de S. Paulo estariam ficando com a imagem de “ranzinza”. A CNN mantém uma cobertura mais light

Ali Kamel, diretor de Jornalismo da TV Globo, tem sido decisivo na melhoria do jornalismo da maior rede de televisão do país | Foto: Reprodução

Fora do ambiente jornalístico, entre as pessoas de outros meios, o que se ouve é que há excesso de informações sobre a pandemia do novo coronavírus. De fato, há.

Mas talvez o maior problema nem seja mesmo o excesso de informações, e sim a repetição contínua, o dia inteiro, das mesmas informações. A impressão que se tem é que há uma espécie de “normalização” e que cada vez mais os indivíduos ligam menos para o que os jornais, sites e emissoras de rádio e televisão estão divulgando. “Morreram quantos hoje?”, pergunta-se, como se quisesse saber o preço do arroz, do feijão, da carne e da assinatura de jornais e canais de televisão.

Douglas Tavolaro, presidente da CNN Brasil: jornalismo mais light e multifacetado  | Foto: Reprodução

Há como ser diferente, como reduzir a cobertura sem prejudicar a qualidade — e necessidade — das informações? Aparentemente, há. Tanto que, há pouco, uma coluna do UOL “reclamava” da redução de notícias sobre a pandemia na TV Globo. Mas, fora jornalista, alguém reclama disso? Parece que não.

Quando da tragédia do Líbano, a Globo, a Record, a Band, a GloboNews e a CNN Brasil — sua cobertura anda mais ágil do que a da GloboNews —, o noticiário da pandemia não saiu do ar, mas ganhou menos espaço. Talvez ninguém tenha notado. Porque há um cansaço — um fastio — do público.

A concentração nas mortes — e realmente 100 mil mortos é um fato assustador e precisa ser ressaltado —, com escasso espaço para os recuperados (que precisam ser mais examinados, até para que se especifique o grau de resistência de determinadas pessoas), talvez seja outro problema. Insista-se: é preciso divulgar o número de mortos, até enfatizá-lo. Mas talvez seja crucial “reabrir” a cobertura, ampliar os enfoques.

A queda da audiência da Globo, na questão da cobertura da pandemia, tem a ver só o aumento do “desinteresse” do público? Talvez sim. Mas talvez, das emissoras, a Globo esteja passando a imagem de ranzinza, “do contra para ser do contra”. Ressalvo: passando a imagem. Porque, a rigor, está cumprindo seu papel de mostrar os fatos.

A CNN, que está conquistando audiência entre os ricos, talvez esteja passando a imagem de que, mesmo divulgando os fatos, não é tão “ranzinza” quanto a Globo. A palavra a reter é “talvez”.

Sérgio Dávila: diretor de redação da “Folha de S. Paulo” | Foto: Reprodução

Folha de S. Paulo e “ranzinzolismo”

Em termos de impressos, o jornal mais “ranzinza” parece ser a “Folha de S. Paulo”, que já publicou foto do secretário nacional de Cultura, Mário Filho, pelado com uma legenda informando que era “novo homem do presidente” — quer dizer, “de” Bolsonaro” — e artigo de um colunista-filósofo sugerindo que deseja a morte do presidente. Na questão da pandemia, o jornal não informa mal e tem uma equipe gabaritada. Mas sua imagem, que está se consolidando, é de um jornal “ranzinzolino”.

O fato de ter apoiado a ditadura civil-militar, por um bom tempo — “desertando” em 1984 para apostar na campanha das Diretas Já, com uma cobertura sensacional —, parece deixar a “Folha” constrangida com um presidente que quer ou parece querer a volta do regime discricionário. Ditadura, qualquer uma, é um erro. A “Folha” tem o direito de combater inclusive o desejo da família Bolsonaro por um regime de força. Mas, como pontificava Otavio Frias Filho, o jornalista e dono que “libertou” o jornal da ditadura, precisa ser mais aberto às opiniões contrárias. Sem Frias Filho, o jornal estaria meio “perdido” editorialmente? Não. O diretor de redação, Sérgio Dávila, ainda mantém certo equilíbrio. Entretanto, para além do divertido e inteligente Zé Simão, deveria devolver algum humor — uma ironia fina — ao jornal. O que, claro, não significa ser acrítico.