O negacionismo do jornalista tornou seus comentários monotemáticos e, em termos de ciência, retrógrados e equivocados

A CNN colocou jornalistas de direita para debater determinados assuntos. O objetivo, por certo, é criar nuances, contemplar setores da sociedade que nem sempre conquistam espaço para se posicionarem. No “Grande Debate” — às vezes a discussão era mignon —, um comentarista de direita e um comentarista de esquerda (às vezes, mais de centro) expõem os assuntos e divergem, às vezes de maneira caótica. Parece que não há parâmetros, lógica.

A CNN errou? Não. Porém, se há audiência, a fórmula não tem dado muito certo em termos de argumentação categorizada. Nem sempre os debates têm alto nível. Não raro são, ou eram, primários. Se o debatedor de direita é caracterizado como tal, o de esquerda nem sempre é rigorosamente de esquerda.

Alexandre Garcia chegou a fazer comentários interessantes sobre política e economia, mas, quando se tornou o senador Luis Carlos Heinze do jornalismo, acabou caindo

Alexandre Garcia: jornalista que trabalhou na Globo e na CNN | Foto: Reprodução

Os comentários de Alexandre Garcia, de 80 anos, são de direita? São (às vezes, são liberais, na linha do ministro da Economia, Paulo Guedes). Sobretudo, são favoráveis ao governo de Jair Bolsonaro. Não deveria fazer a defesa do presidente? Por que não? A rede de televisão sabia, desde o início, que o jornalista não havia sido “contratado” para ser independente ou isento. Fica-se com a impressão de que a CNN o percebeu como contraponto, não ao seu jornalismo — às vezes, insosso, mas correto —, e sim ao da GloboNews. O canal do Grupo Globo move uma guerra de guerrilha contra o governo de Bolsonaro, com o aplauso da esquerda e do centro político. Nunca a oposição teve tanto espaço nos telejornais da Globo quanto nos últimos dois anos e nove meses.

Se a CNN sabe que Alexandre Garcia foi contratado para ser o “homem da direita”, por que o demitiu na sexta-feira, 24? Aí está o busílis da questão: o jornalista não parece ter sido afastado ser, exatamente, de direita. Talvez tenha sido despedido por radicalizar em termos de bolsonarismo.

Contra todas as evidências produzida pela ciência séria — não ideológica ou partidária —, Alexandre Garcia, talvez para atender ao companheiro de jornada Jair Bolsonaro, presidente da República, continuou insistindo em defender o uso de certos medicamentos, sem eficácia comprovada, contra a Covid-19. Ele repetiu as mesmas informações — a rigor, desinformações — várias vezes, no quadro “Liberdade de Opinião”. Quando terminava de falar, um profissional da CNN fazia a correção. Os dirigentes da rede decerto se cansaram de repercutir o negacionismo do jornalista. Porque, ao desmenti-lo, estava desmentindo a própria rede.

Alexandre Garcia chegou a fazer comentários interessantes sobre política e economia, mas, quando se tornou o senador Luis Carlos Heinze do jornalismo, acabou caindo.