Euler de França Belém
Euler de França Belém

Claudio Weber Abramo aponta falhas em tradução ‘clássica’ de O Corvo por Milton Amado

Numa crítica possivelmente excessiva, o jornalista e matemático não perdoa suporta falhas dos tradutores do poema de Edgar Allan Poe

Carlos Heitor Cony e outros aficionados dizem que a melhor tradução do longo poema “O Corvo”, do americano Edgar Allan Poe, é a do mineiro Milton Amado.  No livro “O Corvo — Gênese, Referências e Traduções do Poema de Edgar Allan Poe” (Hedra, 197 páginas), o doutor em matemática Claudio Weber Abramo trata a versão de Milton Amado como “uma tentativa valorosa”, mas aponta problemas, alguns sérios — outros, se se aceitar as teorias dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, adeptos da “transcriação”, seriam no máximo licenças poéticas (supostamente, para fortalecer o original) ou tentativas de adequar o poema à língua ponto-de-chegada.

“Milton Amado decidiu não acompanhar pari passu a estrutura rítmico-melódica do original, construindo outra. (…) Pode-se dizer que o resultado da tradução configura um verdadeiro tour de force — o que não a exime de comprometimentos de natureza semântica que prejudicam as imagens e, assim, é claro, a força do texto resultante”, escreve Abramo.

O crítico empreende uma análise detalhada da tradução, praticamente passo a passo.

Tradução de Amado: “Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,/a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais”. Crítica de Abramo: “‘Foi uma vez’ revela atenção do tradutor quanto ao caráter narrativo deliberado do poema. ‘Curiosíssimos manuais’ exagera esta característica e não se coaduna com a busca soturna do narrador”.

Tradução de Amado: “adeja e pousa sobre o busto — uma escultura de Minerva,/bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva”. Crítica de Abramo: “Palas é tomada por Minerva (Atena, na mitologia romana)”.

Tradução de Amado: “misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;/pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,/que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,/uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta/e que se chama: ‘Nunca mais’”. Crítica de Abramo: “A introdução de uma esfinge (irmã de Quimera, por Orthos, com corpo de leão alado e cauda de serpente) constitui uma interferência radical no campo imagético do poema. Não apenas inexiste no original como sua aparição altera a natureza das intervenções da ave. Pois, enquanto a Esfinge expõe um dilema, o Corvo repete uma certeza. Há uma profusão de tempos verbais neste trecho. É óbvio que os verbos ‘experimentar’ e ‘chamar’ deveriam estar conjugados no subjuntivo e não no indicativo — mas isso atrapalharia a rima com ‘presente’”.

Tradução de Amado: “com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais”. Crítica de Abramo: “As sílabas proferidas pelo Corvo se transformam em ‘fatais’ por mera imposição da rima”.

Tradução de Amado: “de seu canto[a?]r; do morto anelo, um epitáfio: — o ritornelo”. Crítica de Abramo: “O original não menciona ‘epitáfio’ algum”.

Tradução de Amado: “Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,/girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais. (…) visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo”. Crítica de Abramo: “A ‘triste face’ substitui a imaginação do original. ‘Girei então numa poltrona’ dá a ideia de que se trata de um móvel giratório, o que é coerente com a indicação do original, que menciona rodinhas (Straight I wheeledetc.). No entanto, a esta altura o narrador ainda estava de pé, e não sentado. No quarto verso, faltava o artigo definido em ‘que pretendia’ etc.”

Tradução de Amado: “dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente”. Crítica de Abramo: “‘Em que a luz cai suavemente’ não se aproxima da conotação do original”.

Tradução de Amado: “O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso/ali descessem a esparzir turibulários celestiais”. Crítica de Abramo: “Os serafins desaparecem para deixar desceram turibulários”.

Tradução de Amado: “Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!” Crítica de Abramo: “Como em Machado [de Assis], ‘bico’ transforma-se no mais óbvio ‘garra’”.

Tradução de Amado: “E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,/sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais,/No seu olhar medroso e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,/e a luz da lâmpada, disforme, atira no chão a sua sombra,/Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,/não há de erguer-se, ai! Nunca mais!”. Crítica de Abramo: a luz da lâmpada fica ‘disforme’ (qualidade inaplicável à luz), apenas para proporcionar rima com ‘enorme’ e ‘dorme’, do verso anterior. A ave fica ‘inerte’ e seu olhar, que era ardente, torna-se incongruentemente ‘medroso’. Além disso, o corvo vira um ‘anjo do mal’ e passa a dormir e a sonhar, perdendo-se assim a muito mais sugestiva e inquietante comparação com um demônio que sonha. Escolhe-se ‘alfombra’ (tapete fofo) para otufted floor que pertencia à 14ª estrofe, o que parece plausível”.

A crítica é até amena, comparada às outras críticas de Abramo, sobretudo às versões de Machado de Assis, Fernando Pessoa e outras. As interpretações de Haroldo de Campos e Ivo Barroso são criticadas duramente. Abramo faz a sua própria tradução, que, se tecnicamente parece precisa, deixa a impressão de que é menos poética do que a de alguns de seus concorrentes, como Milton Amado e Alexei Bueno.

Abramo diz que seu trabalho apresenta duas informações originais. Primeira: “A descoberta de uma possível gênese bíblica e anacreônica para a narrativa de Poe. A segunda concerne à tradução de Machado de Assis — na verdade, não uma tradução do poema ‘The Raven’, de autoria de Edgar Allan Poemas de ‘Le Corbeau’, saído da pena de Baudelaire como tradução, agora sim, daquele”.

O corvo

Edgar Allan Poe (em cordel)

1

À meia-noite, uma vez,

Que velhos livros eu lia,

Cuidei que talvez ouvia

Bater à porta, talvez.

Era uma leve batida,

Como que a medo contida,

E então pensei: “A horas tais,

Há de ser uma visita,

Uma tardia visita

Deve ser, e nada mais.”

2

Ai, bem quisera esquecer,

E não lembrar, como lembro:

Era no mês de dezembro,

Brasa em cinza a se fazer.

Nos livros que eu estudava

Consolo à dor não achava,

Ai, que em vão eram meus ais,

Chamando, em vão, por Lenora

— Que aos anjos ouve Lenora,

Porém a mim — nunca mais. . .

3

E eu vi então que tremeu,

Dobra por dobra, a cortina;

De uma aflição repentina

Minha alma toda se encheu.

E, o corpo a suster a custo,

Tentei reprimir o susto,

Pensando assim: “A horas tais,

Há de ser uma visita,

Retardatária visita

Deve ser, e nada mais.”

4

“Perdão, disse eu, que a dormir

E não a ler estivera,

Peço perdão pela espera,

Que já vos vou acudir,

Nobre senhor, gentil dama,

Seja quem for que me chama

Tão de manso e em horas tais.”

E à pressa a porta escancaro,

Na treva o olhar escancaro,

Vejo a treva — e nada mais.

5

Lá fora, o fundo negror

Da noite, e as sombras da noite;

Do vento o açoite, e o açoite

Do frio, e nenhum rumor. . .

Mas e essa voz que me embala

O peito, e ao peito me fala?

— Talvez que em vez de meus ais

Tivesse eu dito: “Lenora?”

Dizendo o eco: “Lenora!”

— Foi só isso, e nada mais. . .

6

E mal a porta fechei,

Minha alma em ânsias ardendo,

Eis que à janela, batendo,

Algo, de novo, escutei.

Disse a mim mesmo: “Não temas,

Livra-te dessas algemas

Que te atam a anseios tais,

Livra-te desse mistério

— Que a causa desse mistério

É o vento, e só, nada mais.”

7

De um pulo à janela vou,

De um golpe eu abro a janela,

E eis que de pronto por ela

Um corvo no quarto entrou,

Sem notar minha presença,

E depressa, e sem licença,

E sem maneiras formais,

No meu portal, à vontade,

Pousou, e então, à vontade,

Lá ficou — e nada mais.

8

Ao vê-lo assim eu sorri,

Livre de medo e de estorvo,

E assim falei para o corvo,

Quando refeito me vi:

“Ave sem crista e sem plumas,

Que em tal altura te aprumas,

Donde vens? Aonde vais?

Como será o teu nome,

Se por acaso tens nome?”

E a ave disse: “Nunca mais.”

9

Ouvir a uma ave falar:

Existe maior surpresa?

Minha alma de novo é presa

De um horror peculiar.

Quem terá, no mundo, a isto,

Que aqui vi, acaso visto?

“Ninguém, eu disse, jamais

Recebeu tal visitante,

Nem ouviu de um visitante

Um nome tal: ‘Nunca Mais’. . .”

10

Muda e parada, porém,

A ave quedou, sem resposta,

Como quem ouve e não gosta

De assim lhe falar alguém.

“Mas ah! (disse eu) já me cansa

Perder amor e esperança,

Perder amigos leais!

Tu também te vais embora,

Em breve tu vais embora. . .”

E a ave disse: “Nunca mais.”

11

Dita assim, de supetão,

Resposta tão adequada,

Supus que essa ave ensinada

Foi por antigo patrão.

Má sorte teve o seu dono:

A ave o deixou no abandono,

Depois que palavras tais

Ela aprendeu, certamente,

E hoje só diz, certamente,

Esse refrão: “Nunca mais.”

12

E nessa hora me dá

Certo langor e cansaço,

E eu me recosto no braço

De meu antigo sofá.

Fico defronte dessa ave

De ar sisudo, sério, grave,

De aspecto e porte ancestrais,

Tentando achar um sentido,

Pois há de haver um sentido,

Nesse refrão: “Nunca mais.”

13

A ave de negro capuz

Tem olhos da cor de fogo,

Que brilham em meio ao jogo

De sombras do quebra-luz,

E eu, ofuscado, me deito

No sofá, de encosto feito

Por certas mãos divinais

(Ah! que essas mãos de veludo

Não tocarão no veludo

Deste sofá — nunca mais!)

14

Nesse momento subiu,

No ar pesado do quarto,

Um cheiro de incenso, farto,

E o som de passos se ouviu.

“Ó desgraçado! — eu gritando

Falei — dos anjos o bando

Trouxe-te as bênçãos finais!

— A paz, enfim! O repouso! —

Terei enfim meu repouso. . .”

Mas a ave diz: “Nunca mais.”

15

“Profeta! Núncio do mal!

— Eu grito — Ó escuro profeta!

De que doutrina secreta

És bruxo ou mago, afinal?

Fala a verdade, eu te imploro,

Vê que de bruços eu choro!

— Dá-me os ocultos sinais

Que hão de trazer-me Lenora!

Quando há de voltar Lenora?”

E o corvo diz: “Nunca mais.”

16

“Profeta! Ó preto satã!

— Ave ou demônio de pena! —

Deixa-me de alma serena,

Ó tu que vês o amanhã!

Quero saber, negro monge

Quando verei, perto ou longe,

Nas mansões celestiais,

Vestida de anjo ou de santa,

Essa mulher — essa santa!”

E o corvo diz: “Nunca mais.”

17

“Ó infeliz, infeliz,

Bicho ou demônio esquisito!

Volta ao teu mundo maldito,

Corvo de obscuro verniz!

Cravaste a garra em meu peito,

Ave de bico malfeito!

Vai-te! Não tornes jamais!

Deixa-me só nesta casa,

Deixa-me em paz nesta casa!”

E o corvo diz: “Nunca mais!”

18

E agora, pobre de mim,

Que desde então esse bicho

No quarto fez o seu nicho,

E eu vivo a sofrer assim:

Preso ao horror que me assombra,

Arrasto-me à sua sombra,

Nesses transes infernais,

E a minha alma não se livra,

Minha alma não mais se livra,

Nunca, nunca, nunca mais!

(Tradução de José Lira, 1995, décimas de sete sílabas, publicada como ‘literatura de cordel’, Recife (Literart, 1995).

O corvo

Edgar Allan Poe

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,

A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,

E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,

Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.

“É alguém? fiquei a murmurar? que bate à porta, devagar;

Sim, é só isso e nada mais.”

Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro

E o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.

Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda

Algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora

Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora

E nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,

Arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.

De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia

E a sossegá-lo eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.

Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.

É apenas isso e nada mais.”

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:

“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí forame esperais;

Mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,

Que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,

Assim de leve, em hora morta.” Escancarei então a porta:

Escuridão, e nada mais.

Sondei a noite erma e tranquila, olhei-a a fundo, a perquiri-la,

Sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.

Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,

Só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi:”Lenora!”

E o eco, em voz evocadora, o repetiu também:”Lenora!”

Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,

Mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.

“É na janela”? penso então. “Por que agitar-me de aflição?

Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,

O vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.

É o vento só e nada mais.”

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:

? É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.

Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,

Adeja e pousa sobre o busto? uma escultura de Minerva,

Bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,

Empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,

Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.

“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular”. Então lhe digo

“Não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectrotorvo!”

Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no infernotorvo!”

E o Corvo disse: “Nunca mais.”

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,

Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;

Pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,

Que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,

Uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta

E que se chame “Nunca mais”.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,

Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.

Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,

Enquanto a mágoa me envenena: “Amigos? sempre vão-se embora.

Como a esperança, ao vir a aurora, ele também há de ir-se embora.”

E disse o Corvo: “Nunca mais.”

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,

Julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.

Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura

E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo

De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: o ritornelo

De “Nunca, nunca, nunca mais”.

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,

Girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais

E, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,

Visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,

Com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo

Grasnava sempre: “Nunca mais.”

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,

Eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.

Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada

Dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,

Dessa poltrona em que ela, ausente, à luz cai suavemente,

Já não repousa, ah! Nunca mais?

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso

Ali descessem a esparzir turibulários celestiais.

“Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,

Esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora,

Sorve-o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!”

E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta!? brado? Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal

Que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,

De algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita

Mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:

Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!”

E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta!” exclamo. “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!

Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,

Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,

Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,

Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”

E o Corvo disse: “Nunca mais!”

“Seja isso a nossa despedida! Ergo-me e grito, alma incendida.

Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!

Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!

Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu voo dessa porta!

Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”

E o Corvo disse: “Nunca mais!”

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,

Sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.

No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,

E a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.

Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,

Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

(Tradução de Milton Amado)

[Texto publicado na edição 1973 de 28 de abril a 4 de maio de 2013 do Jornal Opção]

Morte de Claudio Weber Abramo

Matemático, mestre em Filosofia da Ciência e ex-editor de Economia da “Folha de S. Paulo”, Claudio Weber Abramo — filho do jornalista Claudio Abramo —morreu no domingo, 12, aos 72 anos. Ele, que tinha câncer, era vice-presidente da ONG Transparência Brasil.

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