Elder Dias
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Editor-executivo

Cidadão antes de jornalista, Hélverton Baiano se nega a receber homenagem de vereadores

Profissional reconhecido e experiente, ele justificou a recusa nas redes sociais e ainda repreendeu a Câmara de Goiânia

Jornalista e escritor Hélverton Baiano, em conversa sobre literatura com mestrandos da UEG em Anápolis | Foto: Reprodução

Se alguém der um “google” sobre qual é a data comemorativa de 7 de abril, a resposta será o Dia Mundial da Saúde. Mas também é o Dia Nacional da/do Jornalista, uma data consagrada, em 1931, pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Giovanni Battista Libero Baradó, um médico italiano propagador das ideias do liberalismo que veio  em 1826 para o Brasil e aqui fundou o jornal O Observador Constitucional, em 1829. O periódico passou a ter em São Paulo o que o Aurora Fluminense fazia no Rio de Janeiro, fazendo ganhar corpo as ideias inovadoras vindas da Europa.

Libero Badaró, como ficou conhecido, passou a ser desafeto dos absolutistas, enquanto aquilo que defendia fazia água na nau do desgastado regime de Dom Pedro I. A ponto de passar a ter inimigos. Numa emboscada quando voltava para casa, foi abordado por quatro homens alemães e recebeu um tiro de bacamarte. Segundo relatos, ele teria exclamado, quando ainda agonizava, “morro defendendo a liberdade!”. Sua morte aceleraria a renúncia do imperador, que ocorreria no ano seguinte.

Datas alusivas a profissões são pouco marcantes no Brasil. Talvez uma que seja lembrada por uma maior parte seja o 15 de outubro, Dia da Professora e do Professor. Para quem pelo menos pegou na infância ainda um resquício dos tempos do regime da ditadura militar, o 25 de agosto ficou marcado como o Dia do Soldado.

O fato é que a cultura de se lembrar dos jornalistas em sua data comemorativa é relativamente recente. Recentes, mas cada vez mais frequentes, também são as sessões de homenagens nas casas legislativas a convidados por vereadores e deputados, quando ocorrem as efemérides relativas a sua função profissional.

O roteiro é uma sessão solene especial, comandada por determinado parlamentar – o que geralmente ocorre em rodízio, de modo a prestigiar todos –, em que se compõe a mesa diretora, às vezes com convidados de entidades corporativas, há um discurso do presidente da mesa, outro de um representante dos homenageados e a entrega de diplomas, certificados ou placas – geralmente os primeiros, feitos em papel e, por isso, mais baratos.

No dia 7 de abril, claro, houve sessão especial em homenagem a jornalistas na Câmara de Goiânia. Muitos profissionais de excelência foram merecidamente convidados. A maioria atendeu ao chamado e foram, também merecidamente, agraciados. Não há nada errado em colher os frutos dos próprios méritos, se atendo a um ritual pelo qual, aliás, este colunista já passou algumas vezes não muitas.

Mas há as exceções. Ah, as exceções! O jornalista e poeta Hélverton Baiano preferiu evitar a aglomeração. Não por motivos de pandemia, que segue em regressão, mas como uma medida preventiva, que exige reflexão.

No Facebook, onde também publica seus poemas – Baiano é também escritor premiado –, ele usou a rede para comunicar o convite e sua recusa:

“Hoje é dia do Jornalista. Ah, sim. Tenho 42 anos de praia. Ofereceram-me, na Câmara Municipal de Goiânia, uma homenagem que eu declinei de receber. Não quero. Instituição que não me representa como cidadão nem como jornalista e que tem aprovado absurdos para a cidade, como o Plano Diretor e o IPTU absurdo, entre outros. Nos últimos tempos, tenho rasgado e jogado fora os diplomas que recebi de algumas instituições que não me representam mais. Acho que está batendo um cansaço dessas instituições brasileiras eivadas de vícios e corrupção e que, ao invés de ajudarem a construir um país melhor, estão levando o Brasil para um buraco enorme. Um exemplo é que o povo brasileiro está morrendo de fome, pedindo nas ruas, com dívidas, sem moradia, perdendo a dignidade e os representantes dessas instituições não dão o exemplo. Estão se imiscuindo na malandragem e buscando apenas o proveito próprio.”

Também adepto do Twitter, com o codinome Alvino Verso, o jornalista resumiu a mensagem e ainda marcou o perfil da Câmara de Goiânia:

Dessa vez não foi nada poético, nada lírico. Uma postagem, pelo contrário, bastante denotativa, incisiva, direta. Em princípio, parece no mínimo uma indelicadeza recusar-se a responder positivamente a algo que mexe com o ego e, de certa forma, demonstra um reconhecimento público pelo ofício que se exerce – com horas extras, estresse e pouca saúde mental, em muitos casos, diga-se.

Alguns colegas compartilharam a postagem e a comentaram – aquilo que, resumidamente, se chama de “retuitar”. Fabiana Pulcineli disse apenas “Referência, né? (com um emoji de coração em seguida); Rachel Azeredo escreveu mais: “Aplausos em dobro para vc. Por ser o profissional que é e pela recusa da homenagem da @CamaraGoiania! (com vários emojis de palmas); Marcos Cipriano fez diferente: colou em um tuíte, a mensagem na íntegra que Baiano havia publicado no Facebook.

Antes de ser jornalista, ou de ter qualquer outra profissão, cada um de nós é cidadão. Alguém que paga IPTU mais caro aprovado pelos vereadores; que vê seu bairro ser transformado por conta de mudanças indevidas no Plano Diretor votado na Câmara; que usa transporte público ruim, enquanto os políticos têm carro à disposição; que vê um bar ou uma igreja desobedecendo a lei ambiental contra poluição sonora ou estacionamento irregular, semana após semana, sem que nenhum parlamentar suba à tribuna para condenar os excessos, porque eles têm suas ligações com empresários e/ou votos atrelados ao rebanho comandado por padres e pastores.

Helverton Baiano deve ter lido o convite e, depois, fez uma passada d’olhos mental no conjunto dos vereadores de Goiânia. Talvez tenha achou, então, que receber um diploma de quem poderia fazer tanto mais pela cidade e pouco faz, quando não desfaz, não era homenagem: era deboche. E, quando o deboche vem de quem comanda, a repreensão é a arma de quem manda (embora disso tenha rara consciência).

Líbero Badaró, com certeza, aprovaria a atitude de Baiano. Todos nós temos nossas vaidades. Quando mais novos, há mais energia para dispersá-las em cerimônias e confetes. A maturidade permite calcular melhor o custo delas diante dos valores que carregamos.

Uma resposta para “Cidadão antes de jornalista, Hélverton Baiano se nega a receber homenagem de vereadores”

  1. Avatar Alcivando Fernandes de Lima disse:

    O escritor, cronista, contista e jornalista Hélverton Baiano, demonstrou desapego à falácia, ao estrelismo, recusando o diploma/deboche de parlamentares que vivem nababescamente com carros e motoristas pagos pelo povo enquanto esse mesmo povo está com fome e o professor, por falta de salário decente, fazendo greve.

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