Uma bem-informada consultora de segurança da Nym Technologies concedeu entrevista ao repórter Pedro S. Teixeira, da “Folha de S. Paulo”, publicada sob o título de “Vigilância das plataformas é maior do que a de governos, diz Chelsea Manning” (segunda-feira, 8).

A ex-militar americana Chelsea Manning chegou a ser presa e condenada, nos Estados Unidos, por vazar dados oficiais para o WikiLeaks.

A internet é, para usar uma palavra inusual, uma bênção. Ao conectar as pessoas, de todos os países, ao multiplicar o acesso a informações de qualidade, o que possibilita comparações esclarecedoras e enriquecedoras, se tornou um poderoso instrumento de esclarecimento. Há tudo, ou quase tudo, na rede. Há informações de alta qualidade, inclusive no campo científico. O mundo ficou mais aos nossos pés graças à capacidade de comunicação que a web nos facilita.

Mesmo as redes sociais, que são incontornáveis, têm seu lado positivo. Há, claro, o lado negativo, como debates a partir de premissas falsas, de informações não checadas e agressões gratuitas ou articuladas. Há, por exemplo, a questão do tempo que “rouba” dos usuários. Há pessoas que “moram” muito mais no Instagram, no Facebook, no TikTok, no Twitter que no mundo das coisas reais. O mundo realmente real parece ser o das redes sociais.

As redes sociais são tão convidativas, nos atraem tanto, como se sereias fossem — e poucos Ulisses escapam de seus cantos atrativos —, que passamos a acreditar que são, de fato, nossas. De alguma maneira, são. Ao nos comunicarmos por meio do Instagram e do Facebook, somos sujeitos, agentes — e não meros objetos. As conversas são reais, os assuntos, por vezes, são relevantes. Não há só bobagem — há trocas de informações, sem contar, claro, o lazer, a diversão, a dispersão, a amizade — que é o que a maioria procura.

Porém, as redes sociais, que parecem nossas, não o são. Na verdade, nós somos das redes sociais. Nós nos tornamos mercadorias dos mais poderosos hipermercados globais. Somos vendidos à luz do dia, e com nosso consentimento. Chegamos a defender o Facebook, o Instagram, o Twitter. O Bing (que melhorou com o uso mais amplo de inteligência artificial) e o Google são utilíssimos e utilizo-o todos os dias.

Se nossos dados são coletados todos os dias, formando uma biografia íntima a ser comercializada pelas empresas, há algo a fazer para nos proteger? Chelsea Manning sugere que sim. “Algo tão simples quanto usar um gerenciador de senhas ou lembrar de mudar minhas senhas e manter meus dispositivos eletrônicos já é suficiente. Pensar sobre o que estou compartilhando, quando estou compartilhando e o contexto disso.”

Entretanto, quando estamos navegando na rede, em seus vários portais, sites e redes sociais, somos cautelosos? O mais provável é que não. Não temos nem a consciência nem a (in)formação adequada de Chelsea Manning. Nossas precauções duram 30 minutos, um dia, uma semana. Depois, retomamos a rotina e, de novo, nos tornamos descuidados. Sabemos do Grande Irmão, é claro, mas é como se não fosse conosco, e sim com os outros. O inferno são os outros, ou talvez o inferno são para os outros.

Há algum tempo, as empresas buscavam o consentimento dos indivíduos para escrutiná-los. Agora, tudo mudou. Quando a pessoa acessa a rede, e começa a navegar pelos sites e redes sociais, as big techs começam a mapeá-la, traçando-lhe o perfil e vendendo-o sem nenhum pudor.

Pintura de Claude Cahun

Chelsea Manning assinala, com pertinácia: “Precisamos urgentemente de ferramentas para enfrentar o problema da coleta de dados por grandes empresas do Vale do Silício, especialmente após a pandemia, quando o trabalho remoto se tornou a norma”.

“A maioria de nós é obrigada a usar ferramentas como Zoom e Google Workspace ou interagir com empresas como a Salesforce devido à falta de alternativas. Esta centralização nos obriga a renunciar às nossas informações, uma situação que precisamos evitar no futuro”, diz Chelsea Manning.

Ação das big techs e inação dos governos

Tudo, ou quase tudo, aquilo que você faz na internet, acreditando que está seguro e protegido, está sendo monitorado. Teoria da conspiração? Nada disso. É a realidade. Insista-se: as big techs não têm qualquer preocupação com a segurança dos usuários, exceto se lhe interessa. Se a insegurança prejudica o negócio, gerando desconfiança na maioria dos usuários, aí criam alguma segurança. O termo a reter é “alguma”, com aspas.

Pintura de Tommy Ingberg

Uma das ferramentas apontadas como geradora de segurança é o Nym. “O Nym funciona como uma VPN ou Tor [navegador que não deixa rastros], protegendo conexões entre dois pontos na internet. Ao contrário de uma VPN ou Tor, o Nym envia cada pacote de informação por três camadas de proteção que nós selecionamos aleatoriamente via algoritmo por diferentes caminhos.”

Chelsea Manning frisa que “a mensagem só é reconstruída do outro lado. Esse processo protege contra quem promove vigilância ao redor do globo e fornece uma camada adicional de segurança e proteção contra a censura. Grandes empresas e governos podem promover devassas contra a privacidade, mas ferramentas como o Nym ajudam a manter a segurança, especialmente para aqueles que precisam de uma camada extra de proteção”.

A especialista em segurança assinala que “a coleta de dados está acontecendo, não através das comunicações por protocolo [como emails], mas pelas empresas que coletam esses dados compartilhados por nós mesmos na distopia que assinamos”.

Os programas espiões, como o Pegasus, “atacam” diretamente o alvo. “É muito difícil oferecer proteção a esses softwares maliciosos em grande escala”, postula Chelsea Manning.

Há algum tempo, as instituições de “espionagem” dos governos monitoravam grandemente pessoas específicas. CIA, MI6, MI5, FSB (antiga KGB) permanecem atentos. E o WeekLeaks, de Julian Assange, mostrou que a espionagem de governos, como o americano e o inglês, era gigantesca. Em alguns casos, o interesse público era realmente respeitado. Porém, cedeu-se até à bisbilhotagem. É uma terra sem lei.

Agora, de acordo com Chelsea Manning, as plataformas estão “vigiando” os indivíduos, vasculhando detalhes de suas vidas, muito mais do que os governos.

Pintura de Remedios Varo

“Uma das minhas preocupações é como grandes empresas de tecnologia ou governos estão lidando com os dados. Eles obtêm dados em massa, sugando esses dados da internet para usar dentro de seus termos e condições, construindo seus algoritmos ou ferramentas, esquemas de publicidade e para aumentar o tempo de visualização. As corporações estão no topo da hierarquia de vigilância. Na verdade, os governos muitas vezes se aproveitam das corporações. Elas simplesmente querem os dados sem realizar uma busca diligente”, pontua Chelsea Manning.

Coleta de dados e consumidores

Governos e o sistema judiciário não têm equipamentos modernos e atualizados para apurar, com alta precisão e rapidez, a ação das big techs e de golpistas que transitam, com imensa desenvoltura, pela rede.

Criaram um whatsapp com o nome do professor “Machado Ramos Rosa” — falso, claro. O mestre registra uma ocorrência na Delegacia de Crimes Cibernéticos, onde é bem recebido por profissionais diligentes, mas que, a rigor, nada podem fazer. A ocorrência policial registrada é menos para garantir a apuração do crime e mais para proteger o denunciante no caso de aplicarem golpes com seu nome. Com a ocorrência em mãos, se ocorrer alguma denúncia, poderá apresentá-la para se eximir de responder a algum processo ou de ter de pagar uma possível multa ou indenização.

Pintura de Andrew Wyeth

Quanto à coleta de dados feita pelas big techs, o que se dirá é sempre a mesma coisa, uma defesa “legal” (e talvez não “legítima”): estão colhendo, processando e analisando aquilo que é divulgado espontaneamente pelos usuários. Porém, quem deu autorização para o gigantesco cruzamento de dados, cujo objetivo é formatar a “identidade” dos consumidores (e criar consumidores)? Ora, ouvindo estrelas, as big techs poderão perguntar: os dados não foram divulgados pelos próprios indivíduos? Foram, é claro. Mas podem ser usados a bel-prazer num comércio desmedido e altamente lucrativo para as big techs e empresas?

Chelsea Manning expõe uma questão crucial: “Mais do que apenas a coleta de dados, estou preocupada com as informações que podem ser obtidas sobre nós sem nem mesmo compartilhá-las. Um bom exemplo é o TikTok [da empresa chinesa ByteDance]. Trata-se mais do algoritmo que eles usam e como coletam informações sobre nós. Com base em nossas interações com as informações apresentadas na forma de um vídeo, eles podem determinar muito sobre nós: nossa idade, localização, gênero, idiomas e interesses, tudo sem preenchermos um campo. Não se trata apenas de dados demográficos, mas também de dados preditivos. É essencial ajudar as pessoas a entenderam essa situação, o que eu chamo de ‘síndrome do Facebook’”.

Pintura de Jeff Christense

O público, na opinião de Chelsea Manning, está ciente do que ocorre, de que está sendo espionado para fins comerciais e outros. “Mas sente que não tem escolha a não ser participar. Este é o sistema que construímos, liderado pelo Vale do Silício e seguido por grandes corporações chinesas. É difícil para as pessoas fugir. Avalio que este é um grande desafio.”

A escolha é se tornar misantropo: jogar o celular e notebook fora? Quem fará isto? Ninguém. A outra escolha é buscar alguma proteção. Porém, leigos, a maioria, sempre deixarão um flanco aberto à inteligência artificial poderosa das big techs. E a proteção dos governos, da polícia e da Justiça? Quase sempre será mínima, e chegará, se chegar, tarde. Porque estão sempre vários passos atrás daquilo que as empresas criam, inovando de maneira permanente (governos são quase “analógicos” e as big techs, e não se está sugerindo que são golpistas, são altamente “digitais”). Veja-se um exemplo: a Justiça brasileira cobra ao Telegram informações sobre traficantes de drogas. Num primeiro momento, a big tech se negou, desafiando o Judiciário, a fornecê-las. Entretanto, se repassar informações, com o objetivo de não ser excluída do Brasil, quem garante que passará dados essenciais, e não informações selecionadas?

Sobre a inteligência artificial, inescapável, Chelsea Manning afirma: “Vemos cinco grandes modelos de linguagem dominante. O Llama da Meta, Bard, T5 do Google, os GPTs, da OpenAI, e um modelo de código aberto. Dada a tendência atual, podemos esperar muitos mais a surgir nos próximos anos. No entanto, há um limite para os dados publicamente disponíveis para treinar esses modelos, o que aumenta as preocupações com a privacidade. Se as empresas desejam adquirir mais dados, podem ter que recorrer ao uso de informações pessoais, mensagens diretas e outros metadados de atividades pessoais. Esta é uma linha que não devemos cruzar”.

Em suma, a vida privada continuará cada vez mais pública. E com escassa proteção.