Euler de França Belém
Euler de França Belém

Centenário de Roberto Campos lembra aos brasileiros que a crítica corrosiva do economista faz falta

Pesquisador diz que economista queria um Estado menor para que não fosse saqueado

Roberto Campos | Foto: Oscar Cabral

A imprensa parecia esquecida, mas o “Valor Econômico” publicou textos de qualidade sobre o economista e político Roberto Campos, um dos mais importantes liberais do país. Na segunda-feira, 17, comemora-se o centenário de seu nascimento. O editor da Topbooks, José Mário Pereira, relata que seu livro de memórias, “A Lanterna na Popa”, de quase 1.500 páginas, vendeu 115 mil exemplares.

Sobre as memórias de Roberto Campos, um dos mais importantes críticos do país, Wilson Martins, escreveu, no “Jornal do Brasil”: “Podem-se ler nas memórias de Roberto Campos a história política, a história diplomática, a história econômica, a história ideológica e a história intelectual do Brasil nos últimos 50 anos — assim como, bem entendido, a autobiografia de um estadista que nelas desempenhou funções de destaque e prestígio”.

José Mário Pereira lembra-se que Roberto Campos referia-se de maneira elogiosa ao economista Celso Furtado, que, embora de esquerda, não era comunista. “Campos tinha a capacidade de admirar, mesmo quando não concordava com a totalidade das ideias expressas por seus adversários ideológicos”, afirma o editor.

O economista Renato Fragelli, professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e colunista do “Valor”, concedeu uma entrevista com uma síntese perfeita: “No Brasil, a direita quer um Estado grande para que ele seja saqueado pelo patrimonialismo, enquanto a esquerda quer um Estado igualmente grande para que seja saqueado pelo corporativismo. Campos queria um Estado pequeno para que ele não fosse saqueado”.

O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, afirma que Roberto Campos, economista de “inspiração liberal”, percebeu no Brasil um “Estado desenhado de modo ineficaz e até perigoso. Infelizmente, com o petrolão, mais do que nunca ficou claro que ele tinha absoluta razão. Isso não foi um acidente”.

O notável economista e filósofo Eduardo Giannetti apresenta uma visão redutora sobre Roberto Campos ao apontá-lo como “pregador”. “Ele foi mais um homem público e militante na guerra das ideias do que propriamente um cientista, um desbravador do conhecimento, um pesquisador”, sublinha.

Roberto Campos, que foi ministro do Planejamento, presidente do BNDE [ainda não tinha o S] e embaixador em Washington e Londres, seria, na visão de Eduardo Giannetti, “um propagandista full time” das ideias de Friedrich Hayek e Luwig von Mises. O economista era só isto? Não. No caso, Eduardo Giannetti fala como um “pregador”. A “acusação” que faz a Roberto Campos lhe cai bem, como uma luva feita sob medida. É provável que, sem a presença de Roberto Campos, a ditadura de 1964 teria sido mais provinciana e estatista (chegou a ser, em certo período). O economista “modernizou-a”.

Num momento em tantos indivíduos medíocres ganham biografias e, até, hagiografias, falta uma biografia, decente e, mesmo, indecente, de Roberto Campos. Não deixa de ser curioso que, crítico contumaz do comunismo, o economista tenha nascido no ano da Revolução Russa dos bolcheviques Lênin e Stálin. A esquerda apelidou-o de Bob Field, sugerindo que era um capacho dos Estados Unidos — o que, a rigor, nunca foi. Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e do comunismo na União Soviética, em 1991, ele, com seu bom humor habitual, disse que deveriam passar a chamá-lo de Robarchev (ou Robachev). Afinal, a história lhe dera razão: o monstrengo comunista durou pouco (74 anos, no caso da União Soviética) — menos, é claro, para os soviéticos e para os povos do Leste Europeu, que sofreram na pele o peso implacável de uma ditadura totalitária.

Roberto Campos morreu em 2001, aos 84 anos, e, como o sociólogo e filósofo José Guilherme Merquior, o jornalista e escritor Paulo Francis e o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues, faz falta. Até muita falta.

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